Outros toques

Dicas culturais Por Julinho Bittencourt  Maria Bethânia se lança ao que talvez seja o projeto mais arrojado de sua vida, desde que veio da Bahia para fazer o espetáculo Opinião,...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 Maria Bethânia se lança ao que talvez seja o projeto mais arrojado de sua vida, desde que veio da Bahia para fazer o espetáculo Opinião, substituindo Nara Leão. Trata-se da criação do selo Quitanda, totalmente idealizado e produzido por ela, com o intuito, ao que parece, de mergulhar definitivamente no seu universo mais íntimo.

O disco de lançamento do selo é Brasileirinho, dela mesma, que tem um quase frescor de iniciante misturado à sua vasta e derramada experiência. E isso se manifesta alternando a consciência tranqüila do que faz e sabe fazer, com um certo despojamento e coragem quase inusitados para um artista do seu nível.

Bethânia reúne a mais fina literatura brasileira à sua requintada canção popular, com a ajuda de personagens como Caetano Veloso, grupo Uakti, Denise Stoklos e mais Mário de Andrade, Villa Lobos, Guimarães Rosa e tudo o mais de talentos que o Brasil pode suportar.

O selo Quitanda e o disco Brasileirinho fazem jus à trajetória da cantora e, mais do que isso, conferem dignidade e coragem a um talento insuperável.

Outro dos lançamentos do selo chega a ser injusto que se chame de disco. Vozes da Purificação, de Dona Edith do Prato é um projeto de vida, uma ode de amor às raízes, à manifestação pura e aconchegada ao seu espaço, que é ao mesmo tempo o lugar, a natureza, o artista, a voz e seu tempo sem limites. A Purificação é Santo Amaro, de Maria Bethânia e Dona Canô, de Caetano e da própria Dona Edith, que já havia aparecido no lendário Araçá Azul, de Caetano Veloso.

De repente toca, na sala da casa de quem quiser, a mais linda voz que a senhora dona Edith pôde buscar na alma e ancestralidade, acompanhada de seu pratinho e seu povo, suas cordas e balanço. Através dos instrumentos mais singelos são resgatadas para a posteridade as canções que só se sabia de pai para filho.

Estão lá “Marinheiro Só”, “Tombo do Pau”, “Santo Amaro Ê Ê” e várias de domínio público, algumas muito populares e outras inéditas. Dona Edith, sua voz e suas vozes são a antropologia em movimento.

Mas Bethânia não parou por ai. Lançou também Cânticos, Preces, Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu. Trata-se de um disco em louvor à Nossa Senhora, onde vai buscar, de maneira e afetividade bem próprias, canções de Caetano, Gil, hinos, ladainhas e cânticos religiosos. Alguns foram compostos para festas particulares, como Ladainha de Santo Amaro, feita por Maria Isabel para a missa de ação de graças dos 50 anos da cantora. Outros são clássicos da oratória mundial, como a Ave Maria, de Shubert, Magnificat, de Bach e por ai segue. O disco é comovente, bem cuidado do começo ao fim, tratado pelo maestro Jaime Alem com cores e timbres diversos, que vão desde cordas e corais até seus batuques e violões.

O selo Quitanda, como define a própria dona em seu modus operandi, é motivo de alegria, forma que encontra para consagrar sua devoção. Não passa nem perto de outras discussões fartas e enfadonhas que permeiam o mundo do disco. Dona Edith e seu prato, Bethânia, sua voz e seus discos, bem como Santo Amaro, a Bahia, o Brasil e o mundo, sob seu viés, são coisas que são e pronto. Não há tempo ou espaço que as aprisione.

Como não se aprisiona nem se domestica o talento de Tom Zé. Tudo o que é matéria da vida, reportagem de jornal, vira canção, vira Imprensa Cantada, último disco, espécie de apanhado de inéditas em disco, conhecidas de seus shows, singles e performances.

Tom Zé aproveitou gravações antigas e outras nem tanto, além de fazer material inédito em estúdio, tudo produzido pela garotada da Trama. São canções e gravações feitas, como ele mesmo sempre fala, em sua fase de ostracismo, antes de ser descoberto pelo Talking Heads David Byrne.

No disco está a hilária Companheiro Bush, onde sugere o que toda a imprensa e o resto do mundo insinuam, ou seja, que o presidente americano tem, no mínimo, um parafuso a menos. Tom Zé esculhamba sem ódio. Tudo nele transpira inteligência e criatividade.

A regravação de São São Paulo para a novela Vila Madalena, da Rede Globo, com produção de Zé Miguel Wisnik, coberta de colagens e citações, sem mudar uma linha da letra, retraduz a São Paulo de hoje desde a década de 60, idade da canção, apenas com sons e timbres.

Vale ressaltar também, entre outras, Vaia de Bêbado Não Vale, feita a partir de episódio recente, numa inauguração de casa de espetáculos em São Paulo, em que João Gilberto foi vaiado e soltou a frase.

Indo de pato pra ganso, tudo o que você queria saber sobre rock e nunca ouviu falar em lugar nenhum está no site www.senhorf.com.br. Quem cuida do dito cujo é o jornalista Fernando Rosa, que nas horas vagas também trata de amenidades da política, economia, minas e energia. Para tal, já foi subeditor da Folha e assessor de diversas entidades e instituições.

Já sobre rock and roll, Fernando colaborou com a revista Bizz, tem participações em programas de rádio e diversas outras mídias. Seu site é uma festa para os aficionados. Traz curiosidades, raridades, discografias, artigos, entrevistas, arquivos em mp3 e o diabo a quatro. Dentro do site ainda tem a enciclopédia A História Secreta do Rock Brasileiro, com coisas do arco.

Entre outras curiosidades, por exemplo, desencava a desenxabida canção de 1964, Beatlemania, de Erasmo Carlos e Renato Barros, que diz:

Vou acabar com a beatlemania
Que atacou o meu bem
É a ordem do dia
Cabelo comprido
Nunca foi prova de ser mau
Se eu não puder na mão
Eu brigo até de pau
Podem vir todos os quatro
Que eu não temo ninguém
Só não quero que fiquem
Alucinando o meu bem
Tenham calma, amigos
A paz vai voltar
Pois com a beatlemania
Eu prometo acabar

Renato Barros, que depois viria a se tornar o Renato e seus Blue Caps, se viu obrigado a comer no prato que cuspiu, ao estourar em todo o país com o sucesso estrondoso da versão Menina Linda, para I Should Have Know Better, de Lennon e MacCartney, dois dos quatro que ameaçou “dar de pau”. Essas e outras no site www.senhorf.com.br.
E quem continua descendo o pau antes de falar é o Lobão. A Heloisa Helena do rock nacional acaba de lançar a revista Outra Coisa – Música e Opinião que, pra dizer na sua língua, é uma merda mas é legal, ou vice e versa. Lobão não resiste e algumas vezes resvala no aforismo de Frank Zappa: Imprensa de rock é gente que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para um público que não sabe ler. O maniqueísmo da revista enche o saco e não tem o mesmo charme do seu criador quando fala. A publicação tem jeito de fanzine chique e sua diagramação é irregular. O que parece ser ousadia muitas vezes vira confusão.

No entanto, de repente ela vira outra coisa mesmo. Tem um alvo muito bem apontado e atira, com armas excelentes que vão desde José Celso Martinez Correa, Glauco Matoso e Júlio Barroso até Angeli, Laerte, Adão Iturrusgarai e por aí afora. Dá a porrada no lugar certo, onde e em quem merece.

Mas seu grande trunfo mesmo fica por conta do disco “Enxugando Gelo”, do B Negão. “Outra Coisa” promete a cada número um CD independente, pelo custo total de R$ 11,90. “Enxugando Gelo” é excelente, das melhores coisas que o nosso pop tem produzido e vale a revista.

Quase tanto como é excelente também o livro A Sangue Frio, de Truman Capote, que acaba de ser relançado pela Companhia das Letras. É uma aula de jornalismo do começo ao fim que, diga-se de passagem, serviu de inspiração e orientação para Caco Barcelos e o seu O Abusado.

Capote descreve em minúcias o crime ocorrido em 1959, na cidade de Halcomb, no Kansas. Na ocasião, uma família proeminente, com pai, mãe e um casal de filhos foi amarrada e brutalmente assassinada por dois ladrões.

O escritor persegue a história, num trabalho obsessivo que lhe custou seis anos. Entrevista pessoas, confronta relatos, depoimentos, laudos médicos e tudo o mais que encontra pela frente. O resultado final inaugura o jornalismo literário, gênero que virou mania desde seu lançamento, em 1964.

A narrativa de Capote ainda tem o mérito de ser, dentro de uma situação aguda, uma das primeiras discussões profundas e isentas sobre a pena de morte.

julinhobittencourt@zipmail.com.br



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