Outros toques

Por Julinho Bittencourt Todos as vertentes de George Harrison estão presentes em Concert for George, homenagem à sua memória e espírito, realizado por seus amigos. O disco abre com uma magnífica seção indiana, conduzida por...

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Por Julinho Bittencourt

Todos as vertentes de George Harrison estão presentes em Concert for George, homenagem à sua memória e espírito, realizado por seus amigos. O disco abre com uma magnífica seção indiana, conduzida por Anoushka Shankar e encerra com uma superbanda encabeçada por Eric Clapton que, entre outras surpresas, coloca Paul McCartney e Ringo Starr juntos no mesmo palco.

Mas o que se ouve ficou além da própria magia dos Beatles. Há tempos que ele estava interessado noutros sons. E são eles que aparecem com maior força em Concert for George. A parte indiana traz uma peça extensa, escrita por Ravi Shankar em homenagem a George, alguns mantras e solos de cítara e uma versão belíssima para The Inner Light, de George, com Jeff Lynne e Anoushka Shankar. É uma seção memorável de espiritualidade e agradecimento da música indiana a um dos seus maiores divulgadores. A outra parte traz os senhores roqueiros. São, enfim, algumas das melhores canções pop do mundo tocadas por seus melhores representantes.

E por falar em fusões e misturas, acabam de se encontrar em disco Robertinho Silva e Alexandre Birkett. Robertinho é o lendário baterista da banda de Milton Nascimento. Tem diversos discos instrumentais próprios gravados, além de participações com outros músicos. Alexandre Birkett é um jovem guitarrista de Santos que, entre muitas apresentações e arranjos para cantores, gravou dois discos instrumentais excelentes.

Robertinho e Birkett acabam de lançar o disco Mixtura Brasileira, parceria no qual aparecem somente os dois, seus instrumentos, sua música e mais ninguém. Usaram instrumentos de época, além dos tradicionais. O disco foi gravado sem nenhuma interferência digital, para que as qualidades acústicas não fossem alteradas.

Mixtura Brasileira é o tabuleiro das brancas e pretas, onde no jogo jogado todos ganham. Birkett e Silva entrelaçam os continentes e povos que acabaram por habitar e sonorizar os Brasis. Poucos músicos serão tão brancos quanto o jeito cartesiano dos acordes e melodias do guitarrista, muito menos outros serão tão pretos quanto os tambores do percussionista. Poucas músicas serão tão brasileiras quanto a Mixtura Brasileira de Alexandre Birkett e Robertinho Silva.

 

Como também é nossa a música de Guinga, cuja Silêncio de Iara, feita em parceria com Luis Felipe Gama, segundo avaliação de Chico Buarque de Holanda, é a melhor canção brasileira do século. Guinga ainda é considerado o melhor violonista do mundo por Paco de Lucia.

Seu sexto e mais recente disco, Noturno Copacabana, é mais uma obra-prima. Nele aparece a sua voz de anticantor bem mais desinibida. Coloca sabor nas suas interpretações e valoriza com inteligência suas melodias e letras. Também conta com a participação, entre outras, da cantora Ana Luiza, em Silêncio de Iara.

Noturno Copacabana, de Guinga, é música de gente grande. Tem a dimensão do país que a gente quer, muito distante do que a gente tem. É centrado na música, sem apelos, truques, roupas e purpurina. O único senão é ser fato isolado. Guinga, apesar de já veterano, é um compositor novo, mas que só tem interlocução e parâmetros com uma geração que já chega aos 60. Deve, ao que tudo indica, continuar só, com seu trabalho de formiguinha. Quem for brasileiro que se atreva.

 

Já brasileiro sem atrevimentos acaba de virar filme e trilha sonora, o tempo de Paulinho da Viola. Meu Tempo é Hoje é a síntese da elaboração, do jeito, a quadratura sem precedentes, construído a partir dos signos mais simples e ao mesmo tempo extremamente sofisticados. Paulinho e seu violão são um caso a parte do todo. Nada nem ninguém, no contexto tão amplo da nossa música consegue, ao mesmo tempo, ser tão tradicional e moderno. Estar tão ligado aos seus quanto projetado aos outros. Ninguém consegue ser tantos em um só quanto ele.

E este disco é o que talvez chegue mais perto dele. Não só porque nos mostra, na maior parte dos casos, o cantor sozinho, acompanhado apenas de seu violão. E quando não é assim, com amigos, na sala de casa, em roda… Mas isso só não bastaria. Alguma coisa na ambiência, na forma de gravar e executar, nos traz como produto final um disco diferente, curioso, envolto em certo mistério e, acima de tudo, lindo, transpirando beleza.

Meu Tempo é Hoje é muito mais do que o tempo de Paulinho da Viola ou o nosso. É feito de eternidade e está pronto para qualquer era. É feito de uma música sublime em que o autor se veste de inúmeros outros. Um jeito nobre de revelar seu universo a partir de todos que o rodeiam.

 

Também atenta a universos invisíveis à maioria, a fotógrafa Marlene Bérgamo criou o lindo projeto Becos e Vielas Z/S – A Voz da Periferia. Em suas andanças e trabalhos pelos recantos de Sampa, acabou se atendo ao Jardim Ângela, bairro com o maior índice de violência da cidade. Marlene percebeu que os garotos infratores perdiam qualquer chance de trabalho e vida normal.

Criou então a ONG Associação de Incentivo às Comunidades Papel Jornal. Pouco a pouco, com bastante resistência, os jovens da região se aproximaram do projeto. O fruto da empreitada foi o jornal Becos e Vielas Z/S – A Voz da Periferia, que teve seu primeiro número editado em dezembro de 2000.

Hoje, cerca de 12 jovens fazem a publicação. Uma fila enorme tenta uma vaga de colaborador. O belo e colorido jornal de 16 páginas é feito totalmente por eles e para eles. Todas as matérias, fotos, tiras, poemas, diagramação e etc. têm o objetivo de trocar informações e propor soluções. São textos comoventes, que chamam a atenção para problemas, ressaltam atitudes interessantes, criticam e fazem, aprendendo ofício e cidadania, o papel de imprensa livre e saudável. Contatos no e-mail becoszs@
ig.com.br ou tel. (11) 5831 5954.

 

Outra boa obra das minas de sampa é a banda Dona Zica, liderada por Iara Rennó, filha de Carlos Rennó e Alzira Espíndola. Dentre diversos outros talentosos músicos e cantores, traz também Anelis Assumpção, filha de Itamar, o Nego Dito, ilustre desbravador de sons e, sem a menor sombra de dúvidas, a presença/ausência mais marcante do CD de lançamento da banda, Composição. Tudo no disco lembra, transpira e quase soa como Itamar, em versão feminina.

Mas não é só de Itamar que vive a Dona Zica. A bem da verdade ele é só uma das influências marcantes. Dona Zica brinca muito mais com elementos brasileiros, tropicalmente ritmados. Um misturada de salsa com maracatu, drum’n bass com rock e funk e por aí afora. Elas têm o mérito de não trazer nenhuma fórmula pronta. Dona Zica não é uma banda disso ou daquilo. Abre-se pro mundo com um intenso conceito pop moderno brasileiro.

Composição, da banda Dona Zica é um disco feito de coragem e irreverência. Tudo o que se passa nele é no mínimo inusitado, coisa única, que invariavelmente lembra algo aqui e ali, mas é sempre, e que não deixe de ser nunca, muito original e criativo. Vida longa às meninas e sua banda.

 

Como é longa, paulistana e profícua a carreira do cartunista Paulo Caruso. E dentre os inúmeros lançamentos feitos por conta do aniversário de 450 anos de São Paulo, o seu São Paulo por Chico Caruso – Uma Visão Bem Humorada Sobre Esta Cidade, é um dos mais bonitos e divertidos.

A ousadia e atrevimento de Paulo produziram uma grande caricatura pessoal da cidade. Ele parte da teoria das bissetrizes, desenhada naturalmente pelos rios Pinheiros e Tietê, através do qual São Paulo se desenvolveu. Posto isso, desenha linhas mestras em avenidas e sai para sua viagem sentimental, com traços perfeitos, texto irônico e levemente saudosista. Nela ele passeia por monumentos, parques, praças, igrejas e mais um sem fim de locais, sempre contando a própria história.
No final das contas quase nada fica de fora do livro de Paulo Caruso. A evolução arquitetônica, o traço urbano, os problemas, prefeitos, artistas e, principalmente, o humor ácido do povo da cidade, presente em tudo o que constrói, corrói e destrói.

julinhobittencourt@zipmail.com.br



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