Outros toques

Dicas culturais Por Julinho Bittencourt   Duobá parece nome de árvore, algum termo indígena ou algo do gênero. Não é nada disso, mas tem a ver. Duobá...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 

Duobá parece nome de árvore, algum termo indígena ou algo do gênero. Não é nada disso, mas tem a ver. Duobá é abreviatura para Duo Brasilian Acoustic e seus integrantes se chamam assim porque vivem e constróem a carreira nos EUA. Mas são Duobá porque continuam, a bem da verdade, muito brasileiros.

O grupo foi formado em 1996, em Goiânia, pelos violonistas e compositores José Ferreira e Ricardo Mello. Os dois têm sólida formação musical, transitam por sons de toda a parte, mas se identificam com o universo brasileiro e latino no que ele tem de mais global. Em “Sound Flower”, seu disco de lançamento, o Duobá toca Jobim, Piazzola e canções próprias, inspiradas abertamente em nossos sons e artistas.

O Duobá só é encontrado no site www.duoba.com. Nele pode-se ouvir um pouco da música, saber da história do grupo, influências, origens e também comprar o disco Sound Flower. Projeto heróico, de extremo bom gosto e talento, feito às próprias custas. Saído do planalto central do Brasil para florescer lá pelas terras do Norte, rumo ao resto do mundo.

 

Mas o que vem do mundo de volta pra nós é Banda Maluca, o 24º disco da cantora Joyce e 11º feito para o mercado externo. Segundo a cantora é uma criação coletiva, tal uma companhia de ballet ou uma peça de teatro. Talvez seja, com a ressalva no entanto que ela é autora, dirige e interpreta.

Num momento particularmente iluminado, sem grandes conceitos nem pretensões, Joyce tece loas à música brasileira urbana e suas múltiplas possibilidades. Tudo é muito suingado e bem-humorado, muito carioca, apesar de a cantora dizer com uma certa razão que, em função dos músicos serem de várias partes, Banda Maluca é o verdadeiro samba no pé da globalização.

Vale a pena ressaltar o excelente e entortado cover para “A Hard Day´s Night”, dos Beatles e também a ótima composição “Galope”, de Rodolfo Stroeter. Na primeira, ela literalmente desconstrói a singela canção até o limite da melancolia e do deboche, itens já contidos ali, pouco claramente. Na segunda, Stroeter presta uma ótima e musical homenagem ao baterista Tutty Moreno.

Banda Maluca foi lançado em 2003 no Japão e na Europa e só agora chega ao Brasil, pelo selo Biscoito Fino. Foi gravado em janeiro de 2003 em São Paulo e é cantado em português, inglês e francês, mas não deixa em momento algum de ser bem brasileiro.

 

Como também é muito nosso o disco Ponte Aérea, de Eveline Hecker. Trata-se de uma grande cantora, que chega ao seu primeiro disco solo, todo com canções de Zé Miguel Wisnik, cultuado compositor e professor da USP, nascido em São Vicente, mas paulistano por adoção.

Eveline Hecker é uma das moças da lendária Banda Nova, de Tom Jobim. Tem um cantar absoluto, suave e afinado, combinado com uma bela voz, de timbre único, apesar de não possuir grande estranheza. Tudo nela soa equilibrado, sem contra-indicações, apesar do repertório e arranjos esbanjarem ousadia.

Amiga de longa data de Zé Miguel, a cantora revela que é um sonho que se realiza lançar Ponte Aérea. Segundo conta, viu as canções nascerem, conhece suas histórias e sempre teve admiração profunda pelas possibilidades e diferenças que elas suscitam.
Valeu a espera, dela e do público. Eveline Hecker coloca cores a mais na bela obra de Zé Miguel Wisnik. Ela mesma define: “Certa vez, fiz uma fita demo com as músicas de Wisnik que mais gosto de cantar. Ao escutá-la, Beth Carvalho, emocionada, me disse que Zé Miguel estava para mim, como Nelson Cavaquinho está para ela: parecia que éramos parceiros por afinidade musical”.

 

E por falar em Nelson, seu irmão gêmeo de voz e poesia, Paulo César Pinheiro, acaba de lançar O Lamento do Samba, todo composto e cantado por ele mesmo.

Pode assustar num primeiro momento que um escrevinhador se meta a melodista. Mas Pinheiro acerta no ângulo e cria sambas fabulosos, à altura de seus melhores parceiros.

Seu disco sem parceiros tem a característica do samba descritivo. As melodias são construídas à disposição das letras. São longas e discorrem com facilidade, servindo de cama a seus belos versos. Rola fácil, tranqüilo, naturalmente, com acentos corretos e sílabas bem pronunciadas. Mas a correção, o bem fazer do ofício, não é o único trunfo do poeta. Paulo César Pinheiro parece ter chegado ao tempo da sabedoria. Num momento em que o que se inventa é feito por pura emoção e prazer e nunca por vaidade, conta suas verdades em formato próprio e dignidade única.

O Lamento do Samba é isto: feito de tristeza e alegria, talento e inteligência sem limites. Mas, acima de tudo, tem como pano de fundo a emoção, presente desde sempre na vida e obra de Paulo César Pinheiro. Mais do que um lamento, é uma ode ao bom gosto e maturidade artística. Poesia popular brasileira cantada.

 

A publicação de Elo perdido – Estado, globalização e indústria petroquímica no Brasil, no início de maio, não poderia ser mais oportuna. O livro enfoca a necessidade de adotar políticas industriais para retomar o desenvolvimento.

A obra de Giorgio Romano Schutte, baseada em sua tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP), traz depoimentos de especialistas na área e focaliza importantes empresas nacionais e transnacionais, como Odebrecht, Unipar, Basf e Dow. No âmbito governamental, aborda o envolvimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Petrobras.

O livro resgata a formação da petroquímica nacional a partir dos anos 70, baseada no modelo tripé: Estado, capital nacional e internacional. A partir disso, analisa efeitos devastadores da ausência de políticas industriais nos anos 90, como a elevação do déficit da balança comercial e a falta de investimentos em tecnologia, necessários para manter a indústria competitiva. A partir dessa análise, propõe um novo padrão de intervenção do Estado na economia como regulador e apoiador de ações que estimulem o desenvolvimento. Na visão do pesquisador, esse setor é estratégico, pois qualquer projeto de redistribuição de renda implicaria de imediato um boom na demanda por produtos da petroquímica.



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