Outros toques

Dicas culturais Por Julinho Bittencourt   Carlos Poyares foi um dos maiores flautistas do mundo. Gravou, em sua longa trajetória, 82 discos, alguns com artistas como Orlando...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 

Carlos Poyares foi um dos maiores flautistas do mundo. Gravou, em sua longa trajetória, 82 discos, alguns com artistas como Orlando Silva, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Dolores Duran, Luis Vieira, Mário Zan, Luis Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Vicente Celestino, Valdir Azevedo e Tom Jobim. Mesmo assim o seu último disco só saiu da gaveta porque Poyares encontrou acidentalmente o atual ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, seu fã, que o ajudou a obter um patrocínio. Historiador da música popular instrumental brasileira, ele foi um dos principais pesquisadores da vida e da obra de Pixinguinha, além de ter fundado a Escola de Música da Faculdade de Penápolis-SP e idealizado a Escola do Choro de Brasília. Aliás, no dia 8 de maio o auditório da Escola do Choro iria recebê-lo, para lançar 82º disco dele.
O destino, como sempre irônico, resolveu tirá-lo daqui, no dia 5 de maio, com um derrame cerebral. Mas três dias depois, na apresentação marcada, o palco não ficou vazio. Naquele dia, o amigo e flautista gaúcho Plauto tomou seu lugar e interpretou, às lágrimas, Vou Vivendo, de Pixinguinha e Benedito Lacerda. Naquele momento, tempo e espaço, tradição e modernidade se moviam para o futuro.

Como se moveram também quando chegou para nós a cantora Consuelo de Paula. Ela acaba de fechar, com Dança das rosas, uma trilogia que começou com o disco Samba, Seresta e Baião e prosseguiu com Tambor e flor. Veio de Minas Gerais e é apaixonada pelos sons do povo. Mas, ao que tudo indica, detesta o banal. Vai buscar o que os cantadores, seresteiros, menestréis e toda a sorte de artistas populares têm de melhor. Com esse caldeirão rico e corajoso faz sua música. Tem uma voz linda e, nos dois primeiros discos, usou-a para algumas das melhores peças da nossa música de resistência.
Agora, ela veio decidida a surpreender mais ainda. Vez ou outra já havia gravado coisas próprias, mas nunca se apresentou em disco como compositora. Em Dança das rosas, todas as canções são suas em parceria com Rubens Nogueira. O resultado é lindo. São composições excelentes, simples, com a beleza intrínseca de tudo o que sempre gravou e cantou.
As canções são desprovidas de pretensão e arrogância. Soam como o vento em sua voz. Não tenta preciosismos verbais nem sonoros. Tudo vem naturalmente e de forma equilibrada. É bom de ouvir e cantar. Consuelo de Paula nos leva junto, de maneira cândida e precisa. Suas canções também não são nem um pouco folclorizadas, mas usa este matiz para ir além. Tudo o que faz é moderno e vem do povo. A Dança das rosas de Consuelo de Paula nos coloca diante do quase impossível.
Com sua trajetória incomum, percepção de poucos e essa trilogia que termina agora, ela consegue ao mesmo tempo, ser a mais inusitada e necessária artista brasileira. Só algo inexplicável, que sobrevoe acima de nossas antenas e cabos, poderia produzir tamanha música.

Música que também é imensa é a que chega em Cada um Belisca um pouco, de Sivuca, Dominguinhos e Oswaldinho, um dos melhores discos instrumentais brasileiros de todos os tempos. O que explode ali, dos três, é quase sobrenatural. São músicos de um talento sem fim, que se respeitam e admiram, fazendo o que mais sabem e gostam: música. E isso, é bom que se anote, com liberdade ampla, geral e irrestrita, respiração aberta, por todas as narinas e poros.
O repertório em si não traz nada de muito novo. A diferença fica na forma como expõem os temas, como brincam entre eles, improvisam e se divertem. Cada um tem uma forma bem única de tocar. Sivuca é clássico, tem um som fino, com grande influência européia. Dominguinhos é nordestino até a medula, o mais próximo do som de Luís Gonzaga e do agreste. Já Oswaldinho é um jovem representante do instrumento, que traz no bolso rock, blues e outras coisas e mistura ao cancioneiro nordestino.
É genialidade a perder de vista, intimidade com os sons, beleza e bom gosto. A história da nossa música nunca poderia ser contada sem a presença dos três. E, daqui pra frente, sem deixar de dizer também que um dia, lá pelo começo do século XXI eles se encontraram e fizeram este Cada um belisca um pouco.

Com a mesma força também aconteceu para nós Tom Zé, um dos maiores inventores da nossa música, que lança o livro Tropicalista lenta luta, pela Publifolha. Nele conta diversas fases de sua trajetória, sempre com o enfoque da linguagem e da construção da obra.
A capacidade de inventar e traduzir, construir e demolir, sempre com argumentos desconcertantes, faz do livro uma obra única e notável. Tom Zé entende seu tempo como poucos. Criado em Irará, no interior baiano, conseguiu a inusitada possibilidade de estudar, por meio de um bilhete premiado de loteria de seu pai.
A partir daí ele cumpre uma trajetória instigante, que começa na Universidade Livre da Bahia, experiência única e libertária, encabeçada pelo alemão Hans Joachim Koellreutter, até ser resgatado para o mundo, na década de 90, pelo compositor e produtor americano David Byrne.
Essas histórias são contadas no livro, que ainda traz todas as suas letras e uma entrevista histórica com o compositor, feita por Luiz Tatit e Arthur Nestrovski. Inteligência, sabedoria e rebeldia, num dos mais modernos compositores brasileiros que, próximo aos 70 anos, parou seu tempo no futuro.
Como também anda lá na frente Ney Matogrosso, que acaba de gravar com Pedro Luís e a Parede. Duas gerações de artistas de plena saúde. Duas gerações de provocadores em pleno exercício da lucidez e loucura, que lançam o divertido, ácido e eloqüente CD Vagabundo. Suingue pra todo lado, boa música brasileira de ontem, hoje a algumas para amanhã também.
O que mais chama a atenção neste Vagabundo é a fusão do requinte de Ney com a pedrada do Pedro e sua Parede. Desde que era hippie Ney Matogrosso não consegue deixar de ser chique, com sua voz incomum, aguda e interpretação repleta de ângulos e interjeições. Já Pedro Luís não deixa de ser das ruas e da malandragem. E o produto final curiosamente não é híbrido, mas sim profuso, com as várias compreensões dos brasis que a música popular consegue nos dar. É um 2 em 1 que consegue ser um só, sem nunca deixar de vir das duas partes.
Vagabundo rompe com todas as barreiras do preconceito moderno. É inclassificável sob o viés dos descolados. Transcende o seu tempo e o nosso. Está pronto para tudo e corre por fora. É promessa de público grande para Pedro e a Parede, promessa de vigor (mais ainda) para Ney. Promessa de excelente e honesta música brasileira para todos.

É também promessa fora do tempo Pirenópolis, uma cidadezinha histórica de Goiás, a 120 quilômetros de Goiânia e 150 quilômetros de Brasília, onde acontecem as Cavalhadas e a Festa do Divino, 50 dias após a Semana Santa.
As calçadas de pedra brilham mais forte do que o comum. As casas, igrejas e prédios comerciais, com suas platibandas coloniais, nos jogam na máquina do tempo. E vamos sem sair do nosso. Um país de outro momento serve de cenário a este, com seus “agroboys”, caminhonetes e música sertaneja. O que se ouve e se vê é trance, dance, Zezé Di Camargo, violeiros e pastorinhas.
Os cavaleiros usam roupas extravagantes, patuscas e máscaras enormes de animais – normalmente boi e onça. Em momento algum do dia eles vão poder tirar as máscaras. Ninguém sabe quem é quem e, com a voz disfarçada, eles cavalgam, brincam, cantam e dançam para a população.

Dentro do estádio acontecerá a encenação da batalha travada entre os Cristãos, liderados por Carlos Magno, Imperador do Ocidente e os Mouros, que invadiram a Península Ibérica. Os personagens que interpretam os guerreiros compõem uma dinastia, desde 1826, quando aconteceu a primeira encenação, por iniciativa do Padre Manuel Amâncio da Luz. É um privilégio passado de pai para filho, que eles assumem com muita honra, dentro de trajes garbosos, montando animais magníficos.
Antes disso, no entanto, os mascarados abrem a festa. Vindos de uma manhã repleta de algazarra no campo, eles se refestelam e, como acontece todo ano, a maior dificuldade dos organizadores é tirá-los do local, para que a cerimônia oficial comece.

A festa dura 12 dias, e o domingo é apenas o último, o seu auge. Mas a cidade está lá todo o ano, brincando de passado e futuro, com suas discotecas sertanejas, bares caipiras, sorvete de tamarindo, paçoca e arroz de pequi. Na volta, sobre os buracos, pasto verde e ter­ra vermelha, o céu do planalto, o mais bonito do mundo, se apaga alaranjado lá atrás, bem em cima de Pirenópolis.



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