Pacifismo, até quando? (A cidadania plena)

O Movimento dos Sem Nada (a perder), ainda não se colocou na ordem do dia por falta de representantes que possam fazer a interlocução com a sociedade Por Helio Santos  ...

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O Movimento dos Sem Nada (a perder), ainda não se colocou na ordem do dia por falta de representantes que possam fazer a interlocução com a sociedade

Por Helio Santos

 

A atitude pacífica do negro no Brasil tem levado alguns críticos a afirmar, ironicamente, que este se encontra até hoje comemorando o fim da escravidão. Isso se daria pelos batuques, congadas, carnaval, rodas de samba e outras festividades. Esse tipo de crítica, irônica e ácida, merece reflexão. Aqui, temos o apartheid informal, mas que funciona e mantém cada um no seu lugar, sem revoltas. É certo que rebeliões avulsas têm havido. Todavia, por não serem organizadas, acabam não tendo alcance político. Isto é: são revoltas que não produzem mudanças no quadro de desvantagens históricas que os negros acumularam.

A verdade é que dificilmente este país deixará de viver uma experiência de revolta urbana, traumática e contundente. Essa rebelião terá cor. Não devo dizer quem viver verá; pois quem está vivo já pode ouvir os ruídos do turbilhão a caminho.

Considerando o tamanho dos cinturões de miséria e desesperança das principais cidades brasileiras (não me refiro apenas às sedes das regiões metropolitanas), a delinqüência existente pode ser tomada como baixa – notadamente a juvenil. É mínima – repito – se contabilizarmos o volume dos apartados socialmente, que são dezenas de milhões. Trata-se de um fenômeno que pode ser chamado de pacifismo, sim. Mas até quando? O maior pecado das elites, se é permitido hierarquizar tantos delitos, é o de plantar nos corações dos despossuídos a falta de esperança.

Os muito ricos não têm transitado pelas ruas das metrópoles brasileiras – cada dia mais perigosas. Preferem sobrevoá-las de helicóptero. Vários destes têm filhos estudando fora do país, onde boa parte de seu dinheiro já se encontra. Enfim, há aqueles cujas almas já estão em outro lugar. Vivem e fazem negócios aqui; não se esmeram na ética; querem operar como fizeram os rapinadores no início da colonização. Por isso, têm medo do tamanho do estrondo sócio-racial que está por vir. Foi sempre assim. Aqueles que cometem delitos têm o ímpeto da fuga. Devo esclarecer aos leitores que não me conhecem, não ter a menor vocação para mentor do apocalipse, o qual augura sempre o pior. Por ser espiritualista conservo a esperança até mesmo em velórios. Todavia, a bomba de efeito retardado instalada pelos que não ouviram Nabuco já vem pipocando ali e acolá. O seu estrondo maior ainda não ocorreu. Refiro-me ao Movimento dos Sem Nada (a perder) – MSN – que fará com que os governantes tenham saudades do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que tanto susto tem provocado nas elites. Trata-se agora de movimento social urbano, basicamente masculino e jovem, cujas palavras de ordem já vêm sendo esgrimidas nas periferias do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Porto Alegre e outras. Por enquanto são palavras (às vezes, palavrões mesmo) fortes e sinceras de denúncia contra as diferenças raciais e sociais. Originalmente, este será o perfil do MSN: urbano e jovem. Uma movimentação social com esse perfil deverá trazer atrás de si todos os demais deserdados urbanos, todos aqueles que nada têm a perder. São milhões de analfabetos funcionais que a sinecura moral das elites permitiu acumular. Os arrastões das praias e as invasões de supermercados ocorridas num passado recente são mera amostras grátis do que deve vir. Convenhamos, um criminoso de colarinho branco em uma única operação bem sucedida em Brasília causa mais prejuízo ao erário do que centenas de meninos pretos, juntos, operando em um ano inteiro.

O Movimento dos Sem Nada (a perder), ainda não se colocou na ordem do dia por falta de representantes que possam fazer a interlocução dos desesperançados com a sociedade. Essas lideranças deverão dispor de carisma e didática para explicitar o óbvio: “você não tem nada e nada lhe será franqueado”, essa é a lição a ser dada. Mais deverá ser dito: “roubam-lhe para favorecer os ricos”. Futuro – terão que explicar – é uma palavra sem sentido para quem é analfabeto funcional: sem profissão e sem condições de se capacitar. A turma do MSN não tem profissão nem emprego, não tem bens nem esperança – muito menos auto-estima positiva. É a escassez absoluta de ativos que propiciam a cidadania. Atrás do MSN só não irão os milhares de mortos pela violência banalizada que impregna as periferias brasileiras. É, de longe, o movimento social com o maior potencial da América ibérica. Seu ideário deve enfatizar as razões históricas da exclusão, a qual exige medidas compensatórias.

O binômio discriminação/exclusão produz e alarga cada vez mais a distância entre o primeiro e o segundo Brasil. O MSN deve lutar contra essas irmãs xifópagas, matriz do empobrecimento material e psicológico de milhões de brasileiros. O empobrecimento – sabe-se – não é condenação dos céus. Ele se explica socialmente, mas não se justifica moralmente. As lideranças do MSN que vêm despontando, finalmente, compreenderam que não existem brindes no particular campo da cidadania: esta só pode ser conquistada.



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