Para mudar a sociedade

Políticas de inclusão social que passam pela educação apresentam muito mais possibilidades de resgatar a imensa dívida social do país com criatividade e força de vontade Por Nicolau Soares  ...

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Políticas de inclusão social que passam pela educação apresentam muito mais possibilidades de resgatar a imensa dívida social do país com criatividade e força de vontade

Por Nicolau Soares

 

Num país como o Brasil, planejar políticas educacionais é bastante complicado. Não basta projetar a melhor escola no nível fundamental, é preciso pensar em quem já passou e está passando pela escola deficiente e terá problemas por toda a vida por esse fato. Mais ainda, construir um ensino superior de qualidade não resolve se não se pensar nas pessoas que não conseguem acessá-lo por injustiças históricas. Mais do que tudo, é preciso pensar em quem, já adulto, não sabe sequer ler e escrever. Corrigir a enorme dívida social do país com seus cidadãos é prioridade de qualquer política, superando deficiências do sistema e resgatando toda uma enorme parcela da população, vítima da estrutura precária.

Isso se aplica às medidas na área de educação de um modo especial, devido à sua importância para a sociedade. Ou, para citar Paulo Freire: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Nesse sentido, tanto dentro do Estado quanto na sociedade civil, surgem iniciativas engenhosas e interessantes para utilizar a educação como forma de diminuir o enorme fosso que separa a maioria da população de condições dignas de viver.

“O que vemos aqui, queremos ver em todas as comunidades carentes do mundo, acesso a tudo que um centro como esse proporciona”. A frase é do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em visita ao Centro Educacional Unificado (CEU) de Campo Limpo, na capital paulista, durante a XI Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Motivos para a boa impressão de Annan não faltam, já que os CEUs, principal bandeira da área educacional da administração de Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo, oferece para a comunidade uma interessante integração entre educação, cultura, esporte e lazer.

Todas as unidades contam com quadras poliesportivas, piscina, teatro, biblioteca, pista de skate, telecentro (sala de informática) e vários outros equipamentos nada tradicionais na periferia, num misto de escola e centro cultural e esportivo. E mais importante: tudo aberto à população. “Nas regiões centrais da cidade, já tínhamos teatros, bibliotecas e outros aparelhos que poderiam ser utilizados para programas sociais. Na periferia, temos a necessidade de criar essa infra-estrutura, e os CEUs são uma forma eficiente de supri-la”, explica a secretária municipal de Educação, Cida Perez. A construção foi planejada para otimizar os recursos envolvidos na construção, porque os gastos com licitação, desapropriação de terrenos, o custo da obra e a logística são otimizados.

Curiosamente, essa característica do projeto trouxe muitas críticas. Muitos comparam os CEUs aos Cieps, criados por Leonel Brizola no governo do Rio e aos Ciacs, do governo Collor. “O CEU não é só um ‘escolão’; chamá-lo assim é até uma ofensa”, defende Perez. Não há período integral para os estudantes, e os professores pertencem à mesma rede das demais escolas municipais. Além disso, os alunos de escolas próximas podem usar toda a estrutura de treinos esportivos, oficinas culturais etc. “A idéia do projeto é que a comunidade deve participar, usufruir dos aparelhos e atividades que lá acontecem, porque ele não beneficia apenas as crianças que estudam lá, mas também as de outras escolas da região”, completa.

Na raiz Se garantir um padrão adequado de educação integrada à cultura e esportes para crianças e jovens é importante, há um outro grupo que não pode ser esquecido: a alfabetização. No Brasil, segundo dados do Mapa do Analfabetismo, publicação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), em 2000, mais de 16 milhões de brasileiros não sabiam ler e nem escrever, alcançando 13,6% da população. Desde então, as projeções indicam que já haveria 20 milhões de analfabetos.

Uma das iniciativas de maior sucesso é a da Alfabetização Solidária, ONG criada em 1997 e que já atendeu mais de 4 milhões de pessoas. Ela atua em mais de dois mil municípios brasileiros, a maioria deles concentrada nas regiões Norte e Nordeste, além das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Fortaleza, Belo Horizonte, São Luís e Goiânia. A organização é custeada com doações de empresas, que adotam cidades inteiras nas regiões Norte e Nordeste, e de pessoas físicas, que adotam alunos ao custo de 21 reais por mês durante o semestre da alfabetização.

No entanto, o programa Brasil Alfabetizado, lançado em 2003 pelo governo federal, merece mais destaque. A meta é erradicar o analfabetismo do Brasil em um prazo de seis a oito anos, e só no primeiro ano foram 3 milhões de pessoas atendidas. O programa funciona a partir de parcerias do governo federal com prefeituras, governos estaduais, ONGs e universidades. O MEC não interfere nos métodos pedagógicos adotados, desde que sejam garantidas as capacidades de leitura, escrita e utilização de operações matemáticas básicas. O tempo mínimo exigido pelo Ministério é de oito meses para o curso, e os alfabetizadores devem passar por um processo de formação continuada.

De responsabilidade da secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, o programa receberá 180 milhões de reais neste ano. A meta para 2004 é de incluir 6 milhões de pessoas no Brasil Alfabetizado, dobrando o número de atendimentos anuais de 2003 e atingir quase a metade dos 20 milhões de analfabetos acima dos 15 anos que o governo considera como alvo do programa. Se o ritmo for mantido, é possível que o governo cumpra sua pretensão, externada pelo ministro Tarso Genro, de “tornar realidade a utopia de dar-se fim ao analfabetismo”.

Atrás da universidade Uma outra iniciativa bastante comentada para a inclusão social por meio da educação está nos cursinhos populares. Neles, o alvo são as concorridas vagas nas universidades públicas. “Nosso objetivo é a defesa da educação pública, de qualidade e gratuita, além da universalização do acesso à universidade pública”, esclarece Gilberto Giusepone, professor do Cursinho da Poli, um dos mais antigos cursi­nhos populares do Brasil.

O projeto nasceu em 1987, dentro do Grêmio da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Em 1996, teve de sair da USP e alugar um espaço próprio, o que elevou consideravelmente os custos. Além disso, a entidade optou por manter professores contratados e pagos, para garantir a continuidade do projeto – que o trabalho voluntário não assegura. Sem financiamento externo, os custos tiveram que ser revertidos em mensalidades mais caras para os estudantes. Hoje, os alunos pagam de R$ 180 a R$ 265 para estudar no Cursinho.

Apesar disso, 1,1 mil dos cerca de 7,5 mil alunos do Cursinho recebem bolsas de 20% a 100%. Neste último caso, uma série de parcerias com associações e entidades ligadas a grupos excluídos, como os índios Pankararu, comunidades de remanescentes de quilombos, o MST e a Febem, garantem vagas gratuitas.

Por fim, o projeto vai muito além dos conteúdos do vestibular, porque a entidade sempre incluiu na formação de seus alunos o contato com diversas formas de apreciar e criar cultura. Visitas a espaços culturais, museus e mesmo um olhar crítico sobre a arquitetura de São Paulo, além de oficinas de teatro, música, coral, entre outras atividades complementares.

Inúmeros cursinhos populares menores mantidos por ONGs ou associações de moradores têm atuações na mesma linha. Até o governo do Estado de São Paulo criou um cursinho a preços populares na Zona Leste da capital, juntamente com o lançamento do novo campus da USP. A adoção de uma política tão assumidamente paliativa quanto os cursinhos por uma entidade, o poder público, causa estranhamento.

“Claro que, dentro do contexto de uma educação universal e de qualidade, não deveriam existir cursinhos”, aponta Giusepone. Isso porque, antes de tudo, haveria vagas suficientes na universidade pública para todos, dispensando a estreita porta do vestibular. “Mas dados os problemas educacionais do país, os cursinhos são uma necessidade e devem ser bancados e universalizados pelo Estado para que todos os alunos de baixa renda tenham melhores chances no vestibular”, sustenta.

Colaborou Maria Carolina Abe

 



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1 comment

  1. Marta Responder

    Seria interessante conhecer um pouco mais do “projeto social“ do Sr. Giusepone em: http://www.amigosdocp.cjb.net/ e em http://www.adusp.org.br/noticias/Informativo/180/


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