Perderam-se boas oportunidades

Rubens Ricupero acredita que o Banco Central poderia ter reduzido mais os juros e recomposto as reservas para reduzir sua vulnerabilidade externa Por Glauco Faria   Ex-ministro...

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Rubens Ricupero acredita que o Banco Central poderia ter reduzido mais os juros e recomposto as reservas para reduzir sua vulnerabilidade externa

Por Glauco Faria

 

Ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco e ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Unctad), o embaixador Rubens Ricupero acompanha o atual momento da economia brasileira e também as possíveis mudanças no cenário internacional que podem afetar o país.

Ele elogia a condução da política macroeconômica do Ministério da Fazenda, que entende como correta, mas faz objeções ao comportamento do Banco Central. Para Ricupero, o BC erra tanto na questão da taxa de juros quanto na decisão de não intervir para evitar uma valorização do real.

O embaixador também prevê que o Brasil pode enfrentar dificuldades no ano de 2005, dependendo da conjuntura externa e, principalmente, por conta da desvalorização do dólar, que pode alterar o fluxo do comércio mundial. “Os americanos resolveram fazer o seu ajuste permitindo que o dólar caia depressa, ou seja, eles vão transferir aos outros os custos desse ajuste”. Confira a seguir trechos da entrevista concedida por telefone de sua residência, em Genebra, Suíça.

– Qual a avaliação geral que o senhor faz da política macroeconômica do governo Lula?
Penso que no início o governo teve um desafio muito grande por conta dos problemas que existiam à época, devido às eleições, e teve que aplicar uma política para reconquistar a confiança. Política, a meu ver, muito bem conduzida pelo ministro da Fazenda. Mas a minha impressão é que, sobretudo pela condução do Banco Central, perderam- se boas oportunidades tanto no ano de 2003, quanto no primeiro semestre de 2004. Nesse período, o governo poderia ter reduzido mais os juros, já que a situação permitia isso, e também para poderia ter colocado o Brasil em uma situação menos vulnerável, aumentando o nível das reservas, que é muito baixo. Agora, o Banco Central cometeu o erro de permitir que a moeda se valorizasse de novo, como ocorreu entre 1995 e 1997, até a crise de 1998. Essas perdas de oportunidades, tanto na questão dos juros como na da vulnerabilidade externa, colocam o Brasil em uma posição exposta, ainda mais devido ao fato de que a economia mundial pode piorar em 2005. O Ministério da Fazenda teve bons acertos, mas tenho dúvidas quanto à condução do BC.

– E em relação à política externa praticada pelo governo? Qual o peso dela no aumento das exportações ocorrido em 2003 e 2004?
Sou muito favorável à atual política externa, acho que é o ponto mais alto do governo, um setor que tem um desempenho que merece aplausos. Mas o aumento de exportações que estamos vendo obedece a outras causas. Primeiro, a desvalorização da moeda até recentemente, que foi o grande impulso que nós tivemos. Além disso, nós nos beneficiamos um pouco de um ciclo internacional favorável. Tanto no ano passado quanto nesse, não foi só o Brasil que aumentou as exportações. Na América Latina houve um fenômeno praticamente uniforme com aumento das exportações, aumento do saldo comercial, produção de um saldo positivo em contas correntes. Isso se deve à recuperação do comércio mundial, além de ter havido uma melhoria no preço dos produtos primários que o Brasil e a América Latina exportam. Nós tivemos bons preços para produtos como minério de ferro e soja no ano passado, o Chile teve a mesma coisa em relação ao cobre, outros tiveram em relação ao petróleo. Portanto, é preciso situar isso em um contexto mais amplo. Esses resultados têm a ver com a política externa apenas de maneira indireta, já que o país tem procurado melhorar as relações com países como a China, a Índia, a Rússia, que são grandes mercados. Sou muito favorável a essa política, mas o comércio exterior depende de fatores muito concretos dos quais o primeiro e mais importante é a taxa de câmbio.

– Seria importante, na sua opinião, o Banco Central intervir para manter o dólar em um patamar mais razoável?
Sempre defendi isso. Há muitos meses venho dizendo que o ideal seria ter o dólar por volta de R$ 3,20, acho que foi muito perigoso ter permitido em dois ou três meses que a taxa caísse para R$ 2,70. O Banco Central perdeu muitas oportunidades para fazer isso. Até desconfio que o faz deliberadamente porque, embora não diga em público, eles seguem no fundo a mesma política da época do Gustavo Franco, de utilizar a taxa de câmbio como uma âncora para baixar a inflação. Não encontro outra explicação para permitir uma desvalorização tão grande.

– Em linhas gerais, o senhor acha que o governo conseguiu, nesses quase dois anos, reduzir a vulnerabilidade externa do país? Acho que sim, sobretudo pelo esforço da Fazenda. O ministro teve muito êxito em aumentar o superávit primário, o que reduziu a relação entre o tamanho da dívida e o tamanho da economia, sobretudo com o crescimento que houve este ano. Desse ponto de vista, o resultado foi bom, mas acho uma pena porque o resultado poderia ter sido melhor se a taxa de juros não fosse muito alta. Os juros altos aumentam grande parte da dívida que é atrelada à Selic, o que até certo ponto neutralizou o esforço feito pela Fazenda. No entanto, essa vulnerabilidade volta a crescer em função da conjuntura internacional, principalmente por conta da desvalorização forte do dólar, que pode levar a um aumento da taxa de juros internacional, que nos pegaria em um momento delicado.

– Muitos economistas no Brasil defendem que uma das medidas para reduzir essa vulnerabilidade seria o controle do fluxo de capitais. O senhor acredita que isso poderia de fato melhorar essa condição?
O controle de capitais é uma medida que pode ocorrer em circunstâncias críticas. O Chile e a Colômbia tiveram êxito em reduzir o ingresso de capitais especulativos mediante taxas. No caso do Chile era uma taxa de praticamente 30% sobre o capital especulativo. Portanto, não são controles que devem ser vistos como permanentes, apenas em momentos em que há uma pressão muito grande. Na Argentina, por exemplo, o ministro Lavagna teve que fazer a mesma coisa, o que durou alguns meses, até que essa pressão dos capitais especulativos diminuiu. É perfeitamente cabível, aceito até mesmo pelo FMI nessas circunstâncias, que se possa ter controle desde que se note um aumento muito grande de capitais de curto prazo, chamados de “morte súbita”, em determinado momento. Mas isso só se pode julgar diante de uma situação concreta.

– Em função do grande déficit em conta corrente os EUA podem, a partir de 2005, adotar uma política que iniba o consumo e restrinja as exportações. Sendo o mercado norteamericano o maior importador do Brasil, o que isso pode significar para a economia do país?
Acho que para o Brasil o prognóstico é negativo por conta de quatro implicações. A primeira é de que os americanos resolveram fazer o seu ajuste permitindo que o dólar caia depressa, ou seja, eles vão transferir aos outros os custos desse ajuste. Vão fazer com que o Euro, as moedas asiáticas se valorizem, para aumentar suas exportações e diminuir suas importações. O mercado norte-americano vai se contrair e como esse é o maior mercado brasileiro, isso vai atingir o país inclusive em termos qualitativos, porque, para a Europa e o Japão, o Brasil vende basicamente matérias-primas, já para os EUA vende produtos manufaturados, com maior valor agregado. Vamos perder tanto na quantidade quanto na qualidade. A segunda implicação é que a concorrência dos produtos americanos com os brasileiros vai aumentar em vários mercados, já que os EUA vendem diversos produtos que o Brasil também vende, como soja. O Brasil é um grande exportador, mas os EUA são ainda maiores. A soja norte-americana vai ficar mais barata e a brasileira mais cara. Os americanos, que já tem uma vantagem em termos de rede de distribuição e de transporte, ainda terão a seu favor o preço. A mesma coisa vale para as carnes em geral. Em terceiro lugar, com a desvalorização do dólar, moedas como o Euro, o Iene e outras asiáticas, com exceção da China, que não está dentro desse movimento, vão se valorizar e esses países vão crescer menos. Nesse caso, o Brasil perde porque vai vender menos para eles. A quarta forma como isso vai nos atingir é que se a queda do dólar for muito forte e se tornar descontrolada, os juros vão crescer mais nos EUA para compensar a perda de atração de investidores estrangeiros que compram títulos americanos, ações etc. Esse aumento da taxa de juros vai incidir no custo de nossa dívida.

– Pode ser um cenário nebuloso para o Brasil… Essa conjuntura é preocupante para nós porque o nível de nossas reservas é baixo, 22 bilhões de dólares e cometemos esse equívoco de permitir que o dólar depreciasse. Evidentemente, precisamos ter em mente que a desvalorização do dólar e o alto preço do petróleo são dois fatores reais, mas qual será a intensidade desses dois processos?
É difícil dizer se serão mantidos sob controle ou se vai se tornar uma coisa mais acentuada. Dessa intensidade poderemos medir o impacto exato no Brasil e no mundo. Mas os efeitos seguramente já estão ocorrendo. Como o próprio ministro Furlan ressaltou, as importações já estão aumentando muito no Brasil, com uma tendência de perda do saldo comercial. Isso já é uma realidade, mas até onde esses efeitos irão, depende de como vai se comportar o cenário internacional.



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