Pior do que o Apartheid

Abdul Aziz Rantissi, líder do Hamas, havia sido assassinado no sábado, dia 17, na cidade de Gaza. No domingo, dia 18 à noite, o presidente da Autoridade Palestina (AP), Yasser Arafat, abatido,...

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Abdul Aziz Rantissi, líder do Hamas, havia sido assassinado no sábado, dia 17, na cidade de Gaza. No domingo, dia 18 à noite, o presidente da Autoridade Palestina (AP), Yasser Arafat, abatido, recebia as condolências ao lado dos membros do parlamento palestino

Por Anselmo Massad

Abdul Aziz Rantissi, líder do Hamas, havia sido assassinado no sábado, dia 17, na cidade de Gaza. No domingo, dia 18 à noite, o presidente da Autoridade Palestina (AP), Yasser Arafat, abatido, recebia as condolências ao lado dos membros do parlamento palestino. No auditório de seu quartel-general, centenas de pessoas passaram pela sala, trechos do Alcorão continuamente reproduzidos. Atrás de Arafat, cartazes de Rantissi com fuzil em punho e de Ahmed Yassin, morto 28 dias antes.
Era o primeiro encontro com o presidente palestino na Maqata, onde está preso há três anos. Numa primeira observação, parecia que ele manifestava publicamente a relação com o Hamas, grupo acusado por Israel e pelos EUA de terrorismo – e, por isso, responsabilizado pelo estancamento das negociações de paz na região. A relação existe, mas não é de apoio como se perceberá mais tarde.
Além da reportagem da Fórum, participavam da delegação brasileira quatro deputados (Jamil Murad, PCdoB-SP; Vanessa Grazziotin, PCdoB-AM; Nilson Mourão, PT-AC; e Leonardo Matos, PV-MG), outros dois jornalistas, e os organizadores da visita, o presidente da Confederação Palestina Brasil, Farid Suwwann, e o embaixador da Palestina no Brasil, Musa Amer Odeh. A viagem havia começado em Omã, capital da Jordânia e seguiu para os territórios palestinos por terra. A fronteira com Israel deu uma pista do que observadores internacionais passam na região – especialmente em territórios palestinos ocupados – mas nem de longe dava a dimensão do que sofrem os palestinos para circular em seu próprio território que ganha contornos de Apartheid.
A comparação com o regime sul-africano vem sendo feita por diversos ativistas palestinos, israelenses de grupos da esquerda e observadores internacionais. Um desses ativistas merece destaque: a ministra das Relações Exteriores da África do Sul, Nkosazana Dlamini Zuma. Em sua visita à Palestina em meados de abril, ela declarou que o que viu nos territórios ocupados não ocorreu nem em seu país nem em nenhum outro da África. Ainda que analogias entre violações de direitos humanos ou de resoluções da ONU sejam pouco precisas e produtivas, ela ajuda a entender o impacto que o muro e as barreiras de controle – dentro do contexto da ocupação, da desproporção de forças e do massacre – têm na vida dos palestinos.
Mustafá Barghouti, diretor da Health, Development, Information, and Policy Institute (HDIP), uma ONG que congrega redes de entidades, é outro que levanta a comparação. “Israel é um Estado já extremamente próximo de se tornar, como a África do Sul de antigamente, um pária entre a comunidade internacional”, afirma em artigo publicado pelo Planeta Porto Alegre. “Se não fosse pelo veto dos EUA, é quase certo que estaria enfrentando sanções”, completa.
O embaixador Odeh, de passaporte palestino (ainda que diplomático, o que deveria garantir facilidades de trânsito) teve de passar por um processo todo separado na fronteira, por guichês com poucos atendentes e muita gente esperando, junto de todos os palestinos que se atrevem a enfrentar as filas e a boa vontade dos soldados israelenses na fronteira. Os que tinham sobrenomes árabes passavam apenas por um (ou três) interrogatórios.
O repórter teve apenas que aguardar que uma das malas recebesse uma inspeção detalhada. O sobrenome Massad é encontrado tanto em famílias árabes quando judias, o que facilitou a vida do repórter da Fórum. “Coloque sua mala sobre a mesa e apenas faça o que o oficial pedir”, orientou o soldado israelense que coordenava a vistoria das bagagens. Enquanto o exame se prendia à análise minuciosa de meia dúzia de livros sobre a questão palestina contidos na mala, uma equipe de TV do leste europeu reclamava das quatro horas e meia perdidas na revista do material (câmeras, computadores e aparelhos eletrônicos são conferidos com atenção redobrada), sem sinal de liberação. Ao sair com a mala, o repórter pôde ouvir um soldado com o cabelo raspado e carregando um fuzil chamar de lado o membro mais irritado da equipe de TV, e em tom calmo, mas incisivo, dizer: “Nós suspeitamos de todo o mundo”.
Para os palestinos, atravessar a fronteira significa muito mais tempo, com uma dose calcada de humilhação. Mas nem é preciso sair dos territórios ocupados para receber esse tratamento. Tanto pela Faixa de Gaza quanto pela Cisjordânia, há mais de 70 barreiras de controle (checkpoints) e 600 bloqueios de ruas (ver pág. 14). Enquanto as primeiras ficam instaladas nas entradas e saídas das cidades palestinas, as outras são postadas no meio delas, restringindo ainda mais a circulação dos palestinos em sua própria terra.

Desproporção A imagem dos palestinos (quase sempre crianças e jovens) atirando pedras contra tanques é comum. Logo na chegada a Ramallah, nosso grupo se depara com um pequeno conflito. Ao passar pela barreira de controle (ao lado de um pequeno aeroporto internacional destruído e desativado), capital da AP enquanto o impasse sobre o futuro de Jerusalém continua, ouvem-se explosões e tiros.
Eram tanques fazendo a segurança da barreira um dia depois do assassinato de Rantissi, líder do Hamas, na cidade de Gaza. Alguns jovens escondendo o rosto com a kaffiyeh (turbante branco com listras pretas, característico da região) e outros sem essa preocupação iam em direção aos tanques com pedras de 10 a 20 centímetros de diâmetro nas mãos.
Os dados sobre as vítimas do conflito variam dependendo da fonte, mas a desproporção entre os lados permanece. Segundo a ONG Palestine Red Crescent Society (PRCS), desde o início da segunda Intifada, em 29 de setembro de 2000, até 3 de maio deste ano foram 2.886 mortos e 25.755 feridos do lado palestino. A HDIP, apontava quase o mesmo número de mortos até o 1o de março deste ano – última atualização dos dados –, mas contabilizava 41 mil feridos (contados a partir do registro de hospitais). O Palestinian Central Bureau of Statistics (PCBS) aponta 3.025 mortos até 4 de abril e 25.422 feridos até 1o de abril.
Segundo as Forças de Defesa de Israel (IDF), 945 israelenses foram mortos e 6.338 feridos até 28 de abril. Comparar números não é um dos procedimentos mais adequados para se avaliar um massacre humano, quando a forma de aferição é diferente entre as partes e as milhares de vítimas são transformadas em estatística, mas pode-se ter pistas sobre essa desproporção (veja quadro ao lado).
É preciso dizer que o massacre não atinge apenas os muçulmanos, mas também a minoria cristã dos palestinos (2% da população). O patrimônio histórico cristão é especialmente desrespeitado. A primeira igreja construída na História, por Santa Bárbara, nas proximidades de Hebron, numa caverna (sul da Cisjordânia) foi destruída para a construção do muro. E a igreja da Natividade, em Belém (edificada sobre a gruta onde Jesus Cristo nasceu), foi palco de um cerco entre março e abril de 2001, em que 200 palestinos, inclusive crianças, ficaram por 45 dias até a invasão das tropas israelenses. Próximo ao topo de algumas paredes, há marcas de tiros, especialmente no alto. Até a imagem de Nossa Senhora, no alto da igreja tornou-se um alvo.
O vice-patriarca da igreja ortodoxa grega de Jerusalém, e porta-voz da instituição Theodosios Hanna, afirma que apóia a luta por liberdade, mas condena todas as formas de violência. Cidadão israelense (nascido em Raifah, em Israel), apesar de ser de origem palestina e cristão, está proibido de sair do país. A instituição mantém na cidade antiga de Jerusalém (parte oriental) um hotel para arrecadar fundos para as atividades.
No massacre de Jenin, em 2001, quando – ao mesmo tempo em que a igreja da natividade foi cercada em Belém –, entre 50 e 70 palestinos foram assassinados pelo exército de Israel, ele foi uma das primeiras lideranças a se manifestar contra as mortes. Foi preso pela polícia e teve o passaporte confiscado. Ele acredita que isso ocorra em retaliação às viagens que fazia denunciando as políticas de segregação promovidas pelo governo de Israel. “Sou culpado porque falo contra a ocupação”, protesta.

Resistência e terrorismo
Além de não dar ouvidos às demandas dos palestinos, a política de Ariel Sharon e do Likud – partido fundamentalista religioso do presidente – vai mais longe. “Israel está destruindo a Autoridade Palestina em diversas cidades”, denuncia Erakat. “É como se cortassem os braços de alguém e depois o acusassem de não saber nadar. Sharon destrói a AP e reclama para o mundo que não tem parceiros com quem negociar”, completa.
Yasser Arafat, apesar de preso há três anos em seu quartel-general e declaradamente na mira dos assassinatos seletivos do exército israelenses, continua respeitado por todos os setores, mesmo aqueles que discordam radicalmente dele. Na cidade de Gaza, cartazes com a foto do líder dividem as paredes com outros homenageando mártires – mortos em atentados suicidas ou por tropas israelenses, o que inclui Rantissi e o Sheik Ahmed Yassin, líderes do Hamas assassinados entre março e abril. “Ele foi o primeiro a levantar a questão e assumir a busca pela paz entre os palestinos, e correr os riscos dessa posição”, pontua Riad Malki, diretor geral da Panorama, uma ONG palestina que dá cursos de formação voltados para a democratização e a transparência da gestão pública. “Ninguém pode tirar isso dele. E Arafat sabe mais do que ninguém, melhor do que eu e você, os detalhes da negociação, onde Israel pode ou não ceder”, completa.
A AP fez, desde 1994, e ainda faz esforços mais ou menos intensos para conter os grupos extremistas nos territórios ocupados. Em 2002, o Hamas anunciou um cessar-fogo contra Israel que durou 51 dias. Mas as tropas israelenses não pararam de promover seus ataques e assassinatos seletivos (sem julgamento: na prática, uma execução sumária), alegando que outros grupos radicais não haviam deixado de realizar atentados.
Entre os palestinos, o primeiro ministro Mahoud Abbas (Abu Mazzen) – no cargo criado por pressão de Israel, que não aceitava mais negociar com Arafat – foi fritado diante da atitude do exército israelense (o cargo hoje é ocupado por Ahmed Qurei, também membro do parlamento). “Ao insistir na construção de assentamentos, na morte de palestinos, em manter o presidente Arafat preso há três anos, fica difícil para ele dizer ao povo o que fazer para ignorar uma realidade de destruição. É uma política, não ações isoladas de Israel”, aponta Malki. A sede da Panorama, no centro de Ramallah, foi tomada em 2001 por tropas israelenses como quartel-general. No saguão de entrada, três ativistas da entidade foram mortos a tiros e as marcas de sangue e partes dos cérebros das vítimas ainda podem ser vistas nas paredes, preservadas por placas de vidro como memória do massacre.
Ibrahim Hijasij, padre em Ramallah, considera as organizações extremistas de palestinos um movimento de resistência à ocupação e às violações dos direitos humanos impostos pelo exército israelense. Ele baseia sua posição no dogma católico que estabelece a defesa como direito divino, considerando assim os movimentos extremistas como de resistência. Quando perguntado sobre o fato de os atentados promovidos por grupos palestinos atingir e mesmo ter como alvo civis israelenses, Hijasij responde que todos em Israel são soldados, já que são obrigados a prestar um longo serviço militar.
“É muito difícil dizer a quem vive sob ocupação que a resistência tem de ser seletiva”, pondera Malki. “De acordo com eles, todos os meios e formas são legais para resistir. Mas às vezes é muito importante que uma liderança tenha um processo de avaliação contínua de conquistas e lições”, completa.
Em qualquer território ocupado, a articulação de movimentos de resistência é esperada – o que em hipótese alguma significa justificar ou aprovar seus métodos. Ao analisar as políticas de segurança de Sharon, nenhum observador deixa de levar em conta a existência dos grupos extremistas islâmicos, os homens-bomba e a morte de civis. Isso não significa aceitar as execuções sumárias de líderes, civis e crianças, os assentamentos em território ocupado, muros e cercas e barreiras de controle – através dos quais só passam aqueles que possuem autorização especial.
Ao tratar do lado palestino, pensar em grupos extremistas sem considerar a ocupação e o espaço que ela abre para um movimento de resistência é má vontade. Homens-bomba que atacam alvos civis não se justificam tampouco por isso.
Os grupos extremistas estão mais presentes na Faixa de Gaza do que na Cisjordânia. Há várias explicações para isso (ver matéria na página 24). É uma região isolada do restante dos territórios palestinos, pelas fronteiras de 1967; sofre mais com a crise econômica; e, entre os anos de 1994 e 1996, vislumbrou possibilidades muito grandes de desenvolvimento, especialmente turístico, já que é banhada pelo Mar Mediterrâneo e possui praias.
O Hamas (Harakat Al-Muqawama Al-Islamia, ou Movimento de Resistência Islâmica) é o principal grupo extremista, ao lado da Jihad Islâmica e da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, ligada à Al-Fatah (ainda que sem a aprovação do grupo político de Arafat). “Israel apoiou o Hamas na década de 80 como forma de enfraquecer a OLP e nunca imaginou que o grupo pudesse se voltar contra ele”, resgata Malki. O grupo é o braço palestino da Irmandade Muçulmana, criada em 1928 no Egito e presente hoje em diversos países, e luta pela retomada de valores do Alcorão e contra a tendência de secularização das nações.
Desde a sua criação em 1987 até 1994, a ação do Hamas restringia-se a estratégias de guerrilha contra o exército israelense e alguns assentamentos (o que já incluía vítimas civis). A adoção dos homens-bomba só ocorreu em abril de 1994 (contra ônibus em Afula e Hadera), três meses depois de Baruch Goldstein, um colono israelense, ter chacinado 29 muçulmanos dentro da mesquita de Abraão, em Hebron – onde se acredita que o patriarca tenha sido enterrado –, em 25 de fevereiro daquele ano. Ao mesmo tempo, promove ações de apoio social (provimento de remédios e alimentos) e religioso às pessoas.
Hamas e Jihad optaram pela via armada porque, apesar da desproporção de forças (um dos mais bem equipados exércitos do mundo, o de Israel, contra milícias com armamentos contrabandeados), acreditam que podem ter sucesso injetando sofrimento e mortes e uma atmosfera de medo entre os israelenses. Isso eles conseguiram, mas deram a justificativa perfeita para o Likud de Sharon reforçar ainda mais a opressão contra o povo palestino.
Mustafá Barghouti, da HDIP, é uma das lideranças que tenta articular alternativas à Al-Fatah. Ainda assim, ele acredita que a paz possa ser alcançada, mas não com um governo israelense que mantenha políticas de segregação como as atuais. “Sharon chegou ao poder com o plano de destruir a possibilidade de um Estado Palestino e é isso o que ele está fazendo na prática. Toda a estratégia israelense consiste em dividir o povo palestino e separar suas comunidades. É por isso que existem as barreiras de controle e o muro”, ataca Barghouti. Esse cenário empurra cada vez mais palestinos para perto dos extremistas.
“Não podemos deixar que essas facções determinem nosso futuro. Falta uma força política que proponha uma forma alternativa de resistência que possa reduzir o sofrimento das pessoas, diminuir o número de palestinos mortos e elevar as conquistas a curto e longo prazo”, clama Malki.
A necessidade de novas lideranças se acentua, porque Arafat e o governo da Al-Fatah são apontados como corruptos ou, no mínimo, pouco transparentes – diferente do Hamas, por exemplo, que preza pela lisura em seus trabalhos sociais –, além de centralizadores em determinados momentos. As eleições ocorreram em 1996 e há setores que defendem um novo pleito, mais democracia e prestação de contas mais claras.
O Palestinian National Initiative (PNI), comandado por Barghouti é a principal articulação desse tipo. É uma tentativa de reunir palestinos no mundo todo para legitimar a liberdade, independência e dignidade do povo. Isso inclui novas eleições (com a presença de observadores internacionais) para poder reestruturar os organismos palestinos e torná-los mais adequados à luta pacífica. Mas com toda a autoridade, junto do povo, submetida à ocupação, a saída vai ficando mais estreita.
Saleh Barghouti, membro do parlamento internacional da Palestina – que representa toda a diáspora e os refugiados –, sugere a Israel pressa para negociar com os palestinos. “Hoje, temos uma geração que sabe e quer dialogar, mas os jovens de hoje já não admitem esta via e respondem com os mesmos métodos de Sharon”, avisa. As vítimas do conflito certamente concordam com a urgência.

Entraves A disputa é por 27 mil quilômetros quadrados, dos quais, atualmente, a autoridade palestina pleiteia 22%, a partir da resolução 242 de 1967 da ONU. O conflito ganha contornos de massacre, por conta da desproporção de forças entre as partes. Entre 1947 e 1967, os países árabes deram motivos de sobra para Israel reforçar suas unidades de defesa. Ocorreram ataques intermitentes com mais intensidade em 1947, 1955 e 1967. A Guerra dos Seis Dias (de 5 a 10 de junho de 1967), em que israelenses promoveram um contra-ataque às forças libanesas, egípcias e sírias, anexando as colinas de Golan (Síria), deu início à ocupação com controle militar e à construção de assentamentos israelenses em territórios palestinos. Em 1994, algumas partes (as “áreas A”) foram devolvidas (mas reocupadas em 2001) e ali o processo de paz parecia engrenar. As conversas entre o primeiro ministro israelense Ytzhak Rabin e o líder da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) Yasser Arafat definiram prazos para a desocupação gradual dos territórios. As fronteiras eram as de 1967 e questões delicadas seriam debatidas mais adiante, depois de consolidada a confiança entre as partes.
Mas em 4 de novembro de 1995, o fundamentalista judeu Yigal Amir assassinou Rabin. A partir daí, o processo foi se estagnando. A viúva, Leah Rabin, no enterro, recusou-se a receber as condolências de Benjamim Netanyahu, líder do Likud, por ele ter apresentado, em uma manifestação em Jerusalém, montagens de Rabin usando uniforme nazista. Novas rodadas de negociações foram promovidas, com menos territórios oferecidos e sem garantia das principais exigências dos palestinos.
A ONU já condenou por diversas vezes as práticas israelenses como sendo violações de direitos humanos. Países da União Européia e Rússia também mostram apoio aos palestinos, mas o apoio norte-americano aos israelenses é mais intenso. Em 14 de abril, o primeiro ministro Sharon foi a Washington receber do presidente norte-americano George W. Bush apoio incondicional à política antiterrorismo (a do muro, das barreiras de controle e restrição de circulação, dos assassinatos seletivos sem julgamento, dos bombardeios a áreas civis etc.), aliada à manutenção dos assentamentos na Cisjordânia – anunciada junto do plano de retirada da Faixa de Gaza. O candidato democrata à presidência dos EUA, John Kerry, já anunciou que manterá 100% de apoio a Israel.
“Bush tomou meu lugar de negociador do lado palestino”, ironiza Saeb Erekat, ministro das Negociações da AP. “Nunca estive tão enfraquecido como negociador. Se Sharon quiser fazer paz com Bush, muito bem, faça como quiser. Mas quando quiser paz com os palestinos, eles sabem o endereço do presidente eleito (Arafat), porque a paz tem que ser entre israelenses e palestinos”, dispara.
A paz esbarra em alguns pontos críticos. Sharon e Bush seguem desprezando categoricamente Arafat como interlocutor, por considerar que ele não faz o suficiente para frear o terrorismo. O Likud de Sharon, com as bênçãos da Casa Branca, encontra na resistência palestina e nos homens-bomba a justificativa perfeita (e análoga à dos EUA de realizar ataques preventivos e toda uma política antiterror) para promover sua política de segurança e massacre aos palestinos. O fim do terrorismo é a exigência israelense.
A AP não abre mão de três pontos. “Para Israel acabar com o conflito, é preciso realizar a desocupação que já dura 36 anos. Não há forma de paz fora das fronteiras de 67, com Jerusalém como capital do Estado palestino e o direito dos refugiados reconhecido pela resolução 194 da ONU. É a única saída, tanto hoje como daqui a 12 anos”, garante Erekat.
Os assentamentos israelenses em território ocupado são um dos maiores entraves ao processo de paz. São cidades isoladas e planejadas, normalmente posicionadas no alto de colinas. Vale dizer que a maioria dos colonos é ortodoxa (ou fundamentalista) e não aceita a presença de um Estado palestino na região – posição semelhante à dos grupos extremistas muçulmanos – e lutam contra a desocupação. Um dia após a derrota do plano de desengajamento de Gaza proposto por Sharon num referendo do Likud, um grupo de colonos retomou a construção de um novo assentamento próximo ao de Neve Decalim, o maior de Gaza.
A outra exigência do lado palestino diz respeito aos refugiados. Israel não aceita discutir o direito de retorno, reconhecido pela ONU (resolução 194). Desde 1948, na instalação do Estado, milhões de palestinos foram expulsos de suas casas em várias levas (1967 e 82, principalmente), instalando-se em Gaza, Cisjordânia e nos países vizinhos. Estima-se que haja 6 milhões deles, metade vivendo na Jordânia, um quarto nos territórios ocupados, e 15% no Líbano e na Síria. Cerca de 1,3 milhão vive em 59 campos administrados pela ONU nesses países. Outros 12 campos não são reconhecidos pela entidade.
Para os israelenses, o retorno em massa dos refugiados poderia provocar uma completa desestabilização do Estado, dos serviços prestados à população e da própria economia. “Os palestinos querem um Estado só para eles, o que é justo. Mas porque então nós vamos ter que manter milhões deles em nossos territórios? Não faz sentido”, questiona Ely Ben-Gal, filósofo israelense ligado a setores progressistas, que esteve presente no Brasil a algumas das edições do Fórum Social Mundial.
Uma das grandes novidades da Carta de Genebra, um encontro entre setores progressistas israelenses e palestinos – que pouco eco teve nos governos de ambos os lados –, foi a possibilidade de Israel estabelecer um limite máximo de refugiados que poderiam retornar ao país, com garantias de direito e a elaboração de outras formas de ressarcimento. A AP não manifesta essa posição, mas há sinais de que poderia ceder a algo nesse sentido.
Os palestinos se dizem dispostos a aceitar a solução de um Estado único com direitos iguais para os dois povos. Para Israel, a medida implicaria perder controle da política nacional, já que em 10 anos, os palestinos seriam maioria absoluta num Estado comum. “Precisamos ter dois Estados divididos, como num casamento sem amor. O amor vem depois”, compara Ben-Gal.

Vida que segue
A situação na Cisjordânia é bem menos tensa do que na Faixa de Gaza, onde os ataques do exército são constantes. “Depois da Intifada, não há mais negócios, minhas vendas caíram 78%”, calcula Gorge Dimitri, dono de um restaurante e de uma adega que vende bebidas alcoólicas de toda espécie. Cristão, ele garante que nunca teve problemas com muçulmanos – que pela religião são proibidos de consumir esse tipo de bebida –; ao contrário, relaciona-se bem com eles. “Quase 90% da minha clientela é de muçulmanos”, conta com um sorriso irônico. “Nunca tive problemas”.
Issa Tarayrah mantém uma pequena indústria de roupas com 37 funcionários em Baninaim, próximo a Hebron. “Tenho um acordo com os trabalhadores. Quando há serviço, eles trabalham e eu pago. Quando não há dinheiro, não tenho como garantir os salários”, explica. Segundo ele, os operários aceitam isso porque é melhor do que a situação da maioria das pessoas que não encontra nem a remota possibilidade de um emprego. Tarayrah é palestino e muçulmano, mas mantém negócios também no Brasil. Instalado no Estado do Amazonas, ele conta, cheio de orgulho, que mantém duas famílias, uma brasileira e outra palestina e divide os meses do ano entre as duas. “Elas sabem e não têm problemas com isso”, conta.

Números do massacre
Desemprego total – 30,9% (setembro/2003)
Desemprego em Gaza – 31,7%
Desemprego na Cisjordânia – 30,5%
(dados PCBS)
Ataques palestinos a Israel – 21.427 (IDF)
60.781 construções palestinas destruídas em ataques israelenses, total ou parcialmente (dados PCBS)
290 clínicas e hospitais foram destruídos.

Barreiras de controle 
25 médicos, enfermeiras e motoristas de ambulância mortos e 425 feridos ao prestar socorro nas barreiras de controle do exército israelense.
36 ambulâncias destruídas e outras 197 atingidas por tiros de soldados israelenses.
991 ambulâncias foram impedidas de seguir por barreiras de controle
85 palestinos morreram por falta de assistência médica nas barreiras
(dados PRCS)

Para ler mais
www.pcbs.org – Palestinian Central Bureau of Statistics
www.pna.gov.ps – Autoridade Nacional Palestina
www.palestinercs.org – Palestinian Red Crescent – dados, releases e fotos (incluindo imagens impublicáveis de vítimas de explosões)
www.hdip.org – Health, Development, Information, and Policy Institute – informações sobre o trabalho de ONGs palestinas, dados e artigos.
www.idf.il – Forças de Defesa de Israel – dados sobre a política de segurança e notícias
www.haaretz.com – versão em inglês do jornal israelense



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