Ponto para a educação

O Fórum Mundial de Educação reuniu mais de 100 mil pessoas na capital paulista para pensar uma educação voltada para um outro mundo possível Por Maria Carolina Abe  ...

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O Fórum Mundial de Educação reuniu mais de 100 mil pessoas na capital paulista para pensar uma educação voltada para um outro mundo possível

Por Maria Carolina Abe

 

Na noite de 1º de abril – um dia após ter sido palco da marcha relembrando os 40 anos do Golpe Militar – o Sambódromo em São Paulo é ocupado por duas mil crianças que, com folhas coloridas e papel cartão, constroem a imagem de uma cidade educadora. É um símbolo de que, nessa noite, a capital passa a integrar formalmente a Rede Mundial de Cidades Educadoras com a festa de abertura do Fórum Mundial de Educação.

Foram quatro longos dias de debates e reflexões sobre “Educação cidadã para uma cidade educadora”, tema central do evento, tendo sido realizados vinte painéis de aprofundamento e mais de 400 atividades auto-gestionadas. Ao todo, 105 mil pessoas participaram do Fórum Mundial de Educação – São Paulo, números superiores até ao terceiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (edição do evento que contou com maior público). A maior parte dos participantes era de professores e estudantes da rede pública de ensino. “O professor precisa não se sentir sozinho”, defende Bernard Charlot, professor emérito da Universidade de Paris e membro do comitê organizador do FME. “Aqui há milhares deles que vão voltar para a sala de aula com mais empenho, com mais desejo de mudar as coisas”, aposta.

Algumas das principais questões debatidas foram a formação de cidadãos conscientes, a construção de políticas públicas voltadas à educação, a aceitação de todo tipo de diversidade, a educação como instrumento de inclusão social, o desenvolvimento de pessoas capazes de interpretar o mundo de forma crítica, a aproximação da educação com o cotidiano e as especificidades de cada comunidade, a relação entre meios de comunicação e educação, o protagonismo infanto-juvenil e a formação dos educadores.

Criado em 2001 como um desdobramento do Fórum Social Mundial, o Fórum Mundial de Educação tem os dois mesmos pilares básicos: a construção de uma alternativa ao projeto neoliberal e o pluralismo de idéias, métodos e concepções. Partindo da crítica ao neoliberalismo e à mercantilização do ensino, o Fórum defende uma educação pública e democrática como direito social universal.

Um dos pontos fortes desse tipo de encontro é a intensa troca de experiências e conhecimentos entre participantes de diversos países. O japonês Hideyuki Kaya, que ficou impressionado com o tamanho do Fórum e o número de pessoas participando. Mesmo não tendo entendido muito do que foi dito, ele pôde perceber que “não estava sozinho na batalha” e, portanto, quer voltar para o Japão e divulgar o que aprendeu por aqui. Em seu país, Hideyuki trabalha numa empresa de energia e, aos domingos, dá aulas de japonês para estrangeiros, voluntariamente. Lá do outro lado do mundo, tornou-se também um admirador da pedagogia de Paulo Freire, em cuja obra encontrou uma alternativa para a relação hierárquica e rígida entre quem ensina e quem aprende, muito forte na educação japonesa.

O educador e escritor Rubem Alves – que atraiu grande legião de fãs para a fila da foto e do autógrafo –, por meio de histórias e metáforas ressaltou a importância de relacionar o aprendizado escolar com a vida da criança, além de reiterar a importância de o educador ser um apaixonado pela vida. “Nada de ‘Eva viu a uva’, quem dá o tema é a vida da criança”, opina. Ele criticou as burocracias, o conhecimento fragmentado em matérias fechadas e sem relação, a hora de estudar matemática separada de de estudar português etc., além da limitação imposta ao ensino voltado aos conteúdos do vestibular.

A vez das crianças Transformar a educação não é tarefa apenas para os professores. As crianças têm muito a colaborar com a sociedade, porque também são cidadãos e têm direitos. Cansado de ouvir que o Brasil é o país do futuro e que as crianças são o futuro do país Uitila Iardlei da Silva Carmo, de 11 anos, aluno da quinta série do Centro Educacional Unificado (CEU) Jambeiro, na Zona Leste, cansou de esperar. “Eu sou o presente. Porque para eu ser o futuro do Brasil, preciso ser o presente”, afirma, arrancando aplausos e lágrimas da platéia.

“Eu não estava fazendo nada pela cidadania do país, por isso me sentia mal”. Uitila encontrou um caminho de participação no Orçamento Participativo-Criança, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

O projeto permite aos jovens pensar e intervir nas decisões que envolvem a educação e a cidade como um todo, em plenárias escolares e interescolares, até se inserir nas assembléias do OP de toda a cidade. Por promover a cidadania de modo igual às crianças – e não isoladas dos adultos – o projeto foi citado no FME-SP como um exemplo de protagonismo infanto-juvenil. “Você tem a possibilidade de chegar num palco e falar: eu sou criança, eu sou cidadão, eu tenho os meus direitos e meus deveres”, conta Uitila.

César Muñoz, da Secretaria de Participação Cidadã da Infância e Juventude da Prefeitura de Barcelona e consultor da Secretaria de Educação, fica admirado: “Eu acho que está acontecendo em São Paulo algo histórico. É a infância presente, participando, desenhando seu mundo”. Pela primeira vez, crianças e jovens debateram junto com os adultos a educação, questão que lhes interessa e afeta diretamente. Participaram também expondo suas experiências, apresentando atividades culturais e tiveram uma programação própria, no Fórum Criança, evento concomitante ao FME-SP.

“Hoje é um dia cabalístico, 04/04/04”, repara Moacir Gadotti, diretor do Instituto Paulo Freire e membro do Conselho Internacional do Fórum Mundial de Educação, antes de ler o resultado final do FME-SP: as contribuições para a Plataforma Mundial de Educação. Ao final, Gadotti conclui: “O mais importante não são as conclusões e diretrizes que foram tiradas do evento, mas o encontro de pessoas, a emoção que esse tipo de encontro causa nelas e as idéias que surgem em suas cabeças”.

Pablo Gentili, professor da UERJ e membro do Comitê Organizador do FME, concorda: “o FME é muito mais do que os dias de evento, ele está no trabalho cotidiano de educadores e educadoras, de pais e mães, dos estudantes, de trabalhadores que sonham com uma sociedade mais justa, com uma nova escola para a construção desse novo mundo possível”.

O Fórum Mundial de Educação continua em Porto Alegre, de 28 a 31 de julho. Para mais informações sobre o evento e para ler os resultados do evento, acesse o site do FME: (fmet.terra.com.br).

Uma cidade que educa
O conceito é amplo e nove municípios brasileiros já fazem parte dessa rede. Uma Cidade Educadora procura articular seus múltiplos ambientes, como escolas, ONGs, associações de bairro e outros espaços comunitários, para oferecer uma formação integral à população. É a percepção de que a cultura e o conhecimento está por toda parte e pode ser aproveitado por todos. “Ela valoriza a diferença entre as pessoas, os vários tipos de conhecimentos, respeita a diversidade”, explica Bernard Charlot, professor emérito da Universidade de Paris e membro do comitê organizador do FME.

Segundo Alicia Cabezudo, diretora da Rede Latino-americana de Cidades Educadoras, tornar-se uma cidade educadora é uma nova perspectiva que, na América Latina, cujos países passaram por ditaduras e repressões, converge com a proposta de estabelecimento de uma democracia participativa. No Brasil, já fazem parte nove municípios: São Paulo e Piracicaba (SP); Porto Alegre, Caxias do Sul e Alvorada (RS); Belo Horizonte (MG); Cuiabá (MS); Pilar (PB) e Campo Novo do Parecis (MT).



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