Por um congresso permanente dos movimentos sociais

Editorial Por   Nunca na história do continente os partidos mais identificados com os movimentos populares e o pensamento de esquerda tiveram tantos representantes no poder. Só...

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Nunca na história do continente os partidos mais identificados com os movimentos populares e o pensamento de esquerda tiveram tantos representantes no poder. Só em outubro de 2004 a recente conquista de Tabaré Vazquez, no Uruguai, o fortalecimento da frente liderada pelo MVR, partido de Hugo Chávez, na Venezuela, com as vitórias em quase todos os estados, e até o crescimento do PT na última eleição, que mesmo com derrotas significativas, venceu em 411 cidades, são confirmações de um novo momento.

O discurso pró-neoliberalismo perdeu espaço e mesmo os que o empunhavam, agora disfarçam as posições declarando-se, quando muito, defensores de um modelo social-liberal.

O avanço numérico de representantes identificados com um pensamento oposto ao projeto neoliberal é grande na América Latina. Quando acontecia o primeiro FSM, em janeiro de 2001, isso parecia possível, mas muito mais distante do que a realidade demonstrou.

O grande desafio atual é confirmar essas conquistas. Não é só com o PT e o governo federal brasileiro que começa a haver uma certa decepção por conta de uma série de posturas em relação a compromissos históricos que estão sendo abandonados ou esquecidos no caminho da gestão. Até na Venezuela de Chávez esse debate existe. Na Bolívia de Evo Morales, que nem chegou ao poder, também. Tabaré Vazquez se elege já em meio a restrições. E assim por diante. Há muitas decepções.

Os partidos mais próximos ao movimento popular e ao pensamento de esquerda têm de refletir a respeito dos riscos que correm ao serem mais cuidadosos com os novos contratos que decidiram cumprir do que com os contratos históricos para os quais foram levados ao poder para realizar. Mas o movimento popular e social também precisa se reinventar do ponto de vista da sua atuação combativa. A postura deve ser de luta, mas não se pode abrir mão dos espaços conquistados. O inverso deve ser realizado. É preciso constranger os governos a cumprirem seus contratos sociais.

Caso isso não venha a ocorrer, todas as vitórias obtidas nesses últimos anos podem naufragar e resultar em um furacão de desesperança que, certamente, adiaria a possibilidade de uma maior justiça social e ampliação democrática na América Latina para outros tantos anos.

O próximo FSM em Porto Alegre é um bom espaço para que esse debate se amplie. Ele é o grande momento para se criar, por exemplo, um congresso permanente de movimentos sociais e da sociedade civil latino-americana, com uma direção de representantes de diferentes países e segmentos, que teria o papel de fortalecer as lutas e ao mesmo tempo atuar para impedir que os governos com alguma identidade com o pensamento de esquerda titubeiem e percam o passo da história. O que, aliás, é mais fácil do que o inverso.



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