Qual é a da esquerda?

Lula tem sofrido críticas por estar negando seus princípios históricos e assumindo postura centrista. Os que estão no governo discordam. E no plano internacional o PT ainda é inspiração Por Anselmo Massad e Glauco Faria  ...

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Lula tem sofrido críticas por estar negando seus princípios históricos e assumindo postura centrista. Os que estão no governo discordam. E no plano internacional o PT ainda é inspiração

Por Anselmo Massad e Glauco Faria

 

No discurso de posse, Lula firmou compromisso com cinco reformas: previdenciária, tributária, trabalhista, política e agrária. Curiosamente, todas que seu antecessor tentou, com maior ou menor ênfase, emplacar em oito anos de mandato. A reforma agrária foi prometida sim, mas de “forma pacífica, organizada e planejada”. Sem menção ao MST, aliado histórico dos petistas. Ali, já começavam a nascer as primeiras críticas. Será que a esquerda, após tantos anos de luta política no país, não assumiria verdadeiramente o poder, realizando um governo de conciliação com setores conservadores da sociedade brasileira e até do capitalismo internacional?

A aparente crise de identidade vivida pelo PT e pela esquerda brasileira naquele que talvez seja o momento mais importante de sua história não é exclusividade brasileira. Na Europa, onde, no ano passado, a esquerda sofreu derrotas em diversos países, os partidos também tentam buscar definição doutrinária mais clara. Na França, após a derrota para Le Pen, os socialistas estão sob a tutela de François Holande, que prega o “reformismo de esquerda” e tem a intenção de promover uma frente envolvendo outros partidos, movimento semelhante ao feito pelo PT nas eleições de 2002.

No entanto, dentro do próprio PS há diversas tendências conflitantes, dos que pregam a retomada das tradicionais bandeiras da esquerda, como uma forte participação do Estado na economia, até os que simpatizam com a Terceira Via de Tony Blair.

Na América Latina, a confusão ideológica também impera. O peronista Kirchner, na Argentina, se propõe a rever privatizações feitas no governo Menem, além de promover controle de capitais, agregando os esquerdistas tradicionais, no sentido contrário de boa parte de seu partido.

De fato, conforme contexto e lugar, valores de direita e esquerda se confundem bastante. Segundo uma definição já clássica do cientista político italiano Norberto Bobbio, a oposição entre esquerda e direita está centrada na questão da igualdade. “A diversa postura que os homens organizados em sociedade assumem diante do ideal de igualdade – tendo a esquerda vocação igualitária e, a direita, inigualitária”. Contudo, às vezes não é tão fácil fazer a distinção.

“Um lingüista francês, Jean-Pierre Faïe, fez estudo dos discursos nazista e stalinista. No campo da fala e dos valores ideológicos, as posições políticas e termos oscilam da esquerda para a direita com pouca adaptação. Isso fica claro especialmente no pacto de não agressão entre Stalin e Hitler”, lembra o filósofo Roberto Romano. Para ele, a migração de valores entre os dois lados é bastante comum. “É possível que práticas adotadas em ambientes conservadores sejam incorporadas pela esquerda com a devida adequação”, aponta.

Quando se observa que uma das principais bandeiras da esquerda brasileira é a reforma agrária, isso se torna mais claro. Trata-se de medida largamente adotada em países capitalistas e por governos de centro ou de direita. Já o controle de capitais, por exemplo, bandeira de sempre de parte da esquerda nacional e internacional, foi efetivamente adotado por países com governos nacionalistas, mas não de esquerda, como parte dos Tigres Asiáticos. “É natural, isso preocupa a todos os governos. Trata-se de 1 trilhão de dólares de capital especulativo ameaçando países importantes da Europa e até os EUA”, esclarece Romano.

Uma esquerda diferente

Se naturalmente já é difícil distinguir bandeiras genuínas de esquerda e direita, imagine num país com pouca tradição democrática como o Brasil, em que o debate político foi marginalizado durante boa parte de sua História. Com partidos frágeis, a maioria sem nenhuma orientação ideológica firme e nascida mais de interesses oportunistas que de convicções políticas. Para esses partidos, valores são o que menos importa. Já o PT governista enfrenta questionamentos sérios de parte de sua base. “Há muita confusão nas contradições entre setores da esquerda e o governo Lula”, aponta o cientista político Daniel Aarão Reis. “As críticas não levam em consideração a evolução do partido desde o início dos anos 90. Lentamente – de um modo bem brasileiro – o PT vem se metamorfoseando, largando suas antigas bandeiras revolucionárias. Quando foi fundado, enfatizava o movimento popular e as propostas de transformação radical, com forte característica socialista e crítica ao capitalismo”, recorda.

O PT mudou muito de sua fundação, em 1980, até hoje. Aliás, o partido já nasceu emblemático num país em que predominavam correntes de esquerda clássicas. “No Brasil, havia duas grandes tradições na esquerda, a do Partido Comunista e a do Trabalhismo. Em 1964, com o golpe militar, pensou-se que essas tradições estavam aniquiladas. Octávio Ianni chegou a escrever livro no qual apontava que, com a vitória da ditadura, essas correntes desapareceriam. A conclusão mostrou-se apressada. Elas permaneceram subterrâneas e voltaram com outras siglas”, conta Aarão Reis. O Partido dos Trabalhadores, embora abrigasse algumas dessas tendências, era novidade na tradição política nacional.

“O PT nunca foi um partido tradicional de esquerda. Não é comunista, não é ateu ou laicista, o que o torna bastante sui generis. Há, ao contrário, fortes camadas católicas convivendo ao mesmo tempo com antigos membros do PC, como Dirceu e Genoíno, e grupos trotskistas (como a Libelu, Liberdade e Luta) que chegou até a apontar Lula como um agente do imperialismo norte-americano. Há também setores de esquerda tradicionais – que se querem continuadores da tradição das revoluções Francesa e Russa – e um setor hegemônico, a Articulação, que não tem uma ideologia apenas, mas várias”, analisa Roberto Romano.

Esse partido diferenciado, intimamente ligado aos movimentos sociais, aos sindicatos e à Igreja Católica, teve que passar por várias adaptações para chegar ao poder. As derrotas eleitorais, principalmente a de 1989, o fizeram rediscutir as táticas e estratégias. Em 1994, após a frustrada experiência do governo paralelo, começou a ser travado o diálogo com setores empresariais, em que Lula já procurava se apresentar como um candidato light, com a intenção de evitar novos golpes baixos da elite, como os realizados em 1989. Ali, o candidato petista teve de enfrentar as resistências internas dos setores à esquerda do PT, que vislumbravam a possibilidade de Lula ser eleito, dados os altos índices alcançados nas pesquisas eleitorais antes do Plano Real. O petista queria ampliar as alianças políticas para além do campo da esquerda. No entanto, o esperado apoio do PSDB foi frustrado pelo lançamento da candidatura FHC, com o sucesso do Plano Real. Lula terminou com os apoios de sempre e foi derrotado. Em 1998, houve outra tentativa no mesmo sentido, de novo malsucedida.

Na eleição de 2002, a guinada em direção ao centro se consolidou. O porta-voz da Presidência e cientista político André Singer, em conferência realizada em maio na Universidade de Brasília, justifica a estratégia petista. Segundo ele, o Brasil possui dois pólos políticos opostos, um de perfil esquerdista, que se alia a setores do centro, e uma coligação de centro-direita, que se forma como alternativa conservadora. Se fosse depender apenas do eleitorado simpatizante da esquerda, Lula jamais se elegeria, pois historicamente essa faixa dos eleitores fica em torno de 15% a 19%. “Há uma tendência nas democracias de o eleitorado convergir para o centro”, aponta Singer.

Para cativar o eleitorado do centro, dois momentos foram decisivos. Um foi a aliança com o Partido Liberal (PL) e, outro, a Carta ao Povo Brasileiro, documento lançado em junho de 2002. “Com a Carta, Lula assumia que não haveria predominância de teses tradicionais de esquerda, que o objetivo era salvar a economia sem prioridade para as políticas públicas. Uma opção clara de solução pelo mercado”, analisa Roberto Romano. Já para Aarão Reis, a campanha de Lula foi bastante genérica e muito pouco programática. “Em 2002, muito por orientação do Duda Mendonça, foi feita uma campanha ambígua. Além disso, Lula não foi alvo dos demais candidatos, já que havia consenso de que qualquer um que fosse ao segundo turno levaria a melhor sobre ele. Apenas em julho os outros perceberam que ele poderia ganhar”, recorda. “Lula passou a campanha falando generalidades. Nos comícios, encontros, nas assembléias – com a intuição de bom líder carismático – dizia o que o auditório queria ouvir”, completa.

Mudando de lado

Dado como fato a mudança de postura do PT de Lula, os ideais de esquerda estariam sendo traídos? O historiador Immanuel Wallerstein explica a desilusão das esquerdas como parte de um erro estratégico que norteou seus militantes no século 20. A tática da esquerda seria baseada em duas etapas. “Primeiro obtém-se o poder estatal, depois transforma-se o mundo”, avalia num artigo na obra O Espírito de Porto Alegre (editora Paz e Terra). A desilusão das esquerdas na Velha Europa ocorre pelo fracasso na segunda etapa, já que o Estado foi conquistado em diversos países. Assim, a esquerda ficou muito presa ao estatismo, abandonando outras formas de transformação do mundo – classificadas como utópicas demais.

Mas nas diversas práticas de governos de esquerda não se atingiu o nível de transformação pretendido. “Por longo tempo argumentou-se que se um determinado regime não transformasse o mundo como havia prometido seria porque a liderança havia, de algum modo, traído a causa e se ‘vendido’”, lembra Wallerstein. Para ele, é a própria natureza do Estado, de ser uma instituição grande demais, que fez os regimes se curvarem às pressões. Em outras palavras, o problema não estava nas lideranças, mas na crença de que o Estado era condição necessária e suficiente para se mudar o mundo.

Ainda hoje, parte da esquerda acredita no estatismo amplo como meio de mudança social. Já outras tendências, bastante presentes no Fórum Social Mundial, crêem que o Estado pode promover muitas transformações, atuando de forma prioritária na questão de garantia dos direitos. No entanto, essa vertente deposita na sociedade civil, principalmente nas ONGs e em seu poder organizativo, a responsabilidade de mudar o status quo.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos acredita que tanto o Estado quanto as ONGs precisam ser, acima de tudo, transparentes e sujeitos ao controle público, para se tornarem agentes efetivos da democratização social. Aliás, para Boaventura, a transparência deve ser uma das principais lutas da esquerda atual, como forma de garantir o que ele chama de radicalização da democracia. “Hoje, a radicalização da democracia é a única forma de se lutar contra o neoliberalismo. Acredito que se o socialismo tem nome hoje, esse nome é democracia sem fim”, aponta.

Em relação ao governo petista, Boaventura, entusiasta da candidatura Lula, acha que existem duas leituras para a situação brasileira. “A primeira leitura é dizer que o Partido dos Trabalhadores sucumbiu à ortodoxia neoliberal e que, em termos econômicos, acabou por seguir a linha Fernando Henrique Cardoso. Nesse caso, o PT provavelmente está condenado a não cumprir seu programa, o que pode levar a que perca suas bases sociais.” Mas, para o sociólogo português, a leitura correta pode ser outra, a de que Lula precisaria ter muito cuidado nessa transição. “Este foi um ano em que, não havendo grande capacidade de manobra e sobretudo dada a imagem de esquerda que o PT trazia – e um homem da classe trabalhadora, como é o Lula, não muito versado em assuntos financeiros – qualquer deslize em relação à ortodoxia poderia criar pânico nos mercados internacionais”, pontua. Portanto, para Boaventura, Lula não seria um “traidor do movimento”.

É o que também pensa o sociólogo Jean Ziegler. “A história ocorre a cada dia, é difícil prever. O fato é que a vitória das forças populares no maior país da América Latina tem importância enorme para a esquerda européia. O continente muda e o equilíbrio do mundo idem, o que dá coragem para a Europa mudar também. A história passa para a América Latina, a vanguarda da humanidade está aí, o laboratório é aí. Temos de apoiar as mudanças no Brasil”, defende.

O filósofo Roberto Romano, que se diz um desiludido observador da política nacional, acha que se Lula fizer um governo nos padrões republicanos já será excelente. “Se na macroeconomia ele dialogar um pouco mais com empresários e trabalhadores e não der tanto ouvido ao Delfim Netto, já está ótimo”, satiriza



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