Quero o gol de bicicleta”

Doutor em administração pela USP,Helio Santos é um dos principais intelectuais negros do Brasil. Atento estudioso da questão racial, suas análises são carregadas de um tom radical muitíssimo bem sustentado. Nesta entrevista, Santos vincula...

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Doutor em administração pela USP,Helio Santos é um dos principais intelectuais negros do Brasil. Atento estudioso da questão racial, suas análises são carregadas de um tom radical muitíssimo bem sustentado. Nesta entrevista, Santos vincula o subdesenvolvimento brasileiro à condição do negro na sociedade. E para promover a inclusão que as ações afirmativas são emergenciais no país.

Por Nicolau Soares

 

Doutor em administração pela USP,Helio Santos é um dos principais intelectuais negros do Brasil. Atento estudioso da questão racial, suas análises são carregadas de um tom radical muitíssimo bem sustentado. Nesta entrevista, Santos vincula o subdesenvolvimento brasileiro à condição do negro na sociedade. E para promover a inclusão que as ações afirmativas são emergenciais no país.

Brasil e EUA
Para se falar da diferença do racismo entre os países, é preciso falar da diferença entre as sociedades. A sociedade norte-americana é anglo-saxã e birracial, ao passo que a brasileira é ibérica e multirracial. Vários autores dizem que nossas origens étnicas são complexas. O português constituía um tipo de europeu diferenciado, que chega com oito séculos de miscigenação com os mouros. Daí a suposta facilidade do português de se relacionar com o negro e com o índio, a ponto de compor uma sociedade multirracial. Outro fator é que, na essência da cultura ibérica, está a manutenção do privilégio e a dissimulação. Essas duas características sintetizam o Brasil. Um lado diz que não discrimina e outro diz não ser discriminado. Nos EUA houve um apartheid, originalmente, que gerou avanços. Não reivindico o apartheid oficial para o Brasil, afinal, temos aqui um que funciona de uma maneira sofisticada de fazer isso. Nos EUA, o objetivo é tornar a situação visível, para se ter de pensar em remédio, enquanto aqui o que ocorre é a invisibilidade.

Espelho negro
Participei, há 10 anos, de uma banca de mestrado de uma candidata que avaliou a auto-estima de crianças negras de 4 a 6 anos, não alfabetizadas. Ela aferiu que as meninas negras se identificavam como loiras. Ao ver fotografias de meninas negras, elas tinham uma crise de identidade. No momento em que ela fez a pesquisa, as três apresentadoras de programas infantis eram loiras. Isso tem que ver com nossa auto-estima rebaixada, porque ninguém nasce racista. Aqui, demoramos muito para ter sequer bonecas negras. Nos EUA, há mais do que isso: há artistas negros. Os negros do mundo todo se beneficiam do fato de a mídia americana monopolizar a cultura, já que em qualquer dia, se você analisar os dez principais filmes norte-americanos em cartaz nos cinemas, na maioria deles, ou o personagem principal ou o coadjuvante será negro. E lá, eles representam 12% ou 13% da população – são minoria mesmo. A criança negra se identifica com heróis, artistas e lideranças. As crianças brancas dos EUA sabem que os negros podem ocupar diversos postos da sociedade e, quando adultas, podem até ser racistas, mas terão de respeitar os negros. O Brasil, contraditoriamente, não tem ódio racial, mas o negro tem muitas dificuldades concretas de se inserir socialmente. O modelo aqui precisa quebrar com a invisibilidade e com consensos muito pesados.

Quem não é negro
A pergunta mais equivocada é “quem é negro no Brasil?”. A correta seria: “quem é branco no Brasil?” Essa pergunta antecede o consenso da democracia racial, que foi eliminado porque não havia democracia nem para branco, mas que deixou resquícios. Quando se discute a compensação para negros, é preciso lembrar que o racismo não começou depois da abolição. Os anos de escravismo, ele era absoluto, porque suecos e alemães não podiam ser escravos.

O motor do Boeing
A eficácia do racismo brasileiro está exatamente aí. Enquanto uma gota de sangue negro torna negro o norte-americano, aqui, uma gota de sangue branco, torna branco o negro. Essa diferença, com a auto-estima rebaixada, especialmente entre os mestiços, fez com que a temática racial não ganhasse força. É um trabalho de artista o que o jeitinho brasileiro fez com a questão racial. Todos os índices evidenciam a posição do negro. Um terço da população vive abaixo da linha de pobreza, e desses, 70% são negros. Um país com meio milênio, dos quais os negros passaram 354 anos sob a escravidão e 116 de subcidadania, é um tempo muito grande, o que acabou anestesiando a todos. Isso tudo impede que o Brasil decole, faz com que o país seja um Boeing 747, com dois andares, enorme, mas que não decola porque o motor é de teco-teco. A capacidade de decolar é a inclusão. Somos um país inconcluso porque, depois da abolição, milhares de negros foram alforriados sem nenhum tipo de proteção. O consenso da invisibilidade não parte da esquerda nem da direita, é um campo comum, pode estar na cabeça do Roberto Campos ou do Celso Furtado. É um consenso monolítico que anestesiou o Brasil.

Nada a perder
O movimento do MSN – movimento dos sem nada-a-perder – está sendo parte das ações. Do ponto de vista político é desorganizado e tenta fazer distribuição de renda como pode, raptando pessoas, assaltando etc. Mas não há componente revolucionário. Eles não tem nada a perder porque mal puderam chegar até a sexta série, e seus filhos provavelmente não terão nada. O discurso das redações de jornal e de parte da academia é extremamente reacionário, porém esperava-se que os setores progressistas se colocariam à frente das cotas. No fim, o movimento negro se viu sozinho. Algumas lideranças de esquerda fazem um discurso tão reacionário sobre as cotas que não seria nem necessário haver direita.

Fim da invisibilidade
Sempre se traz o tema da pobreza, dez entre dez cientistas sociais nos dizem: “Se a maioria dos pobres são negros, vamos combater a pobreza”. Um branco pode ser pobre por falta de sorte, mas nunca porque os bisavós, tetravós foram escravizados. A inclusão do negro não tem como deixar esses brancos de fora. A questão do negro não é o problema, é a solução. Florestan Fernandes me disse, há 20 anos, que era um equívoco acreditar que o negro vai se salvar sozinho, porque quando o negro se colocar, vai salvar o resto da população junto. Ele tinha razão. O modelo de desenvolvimento que se pensa não tem como deixar o branco pobre de fora. Quando se começou a discutir políticas de ação afirmativa para a população negra nas universidades, entendeu-se logo que apenas os negros da escola pública deveriam ser beneficiados, porque as cotas não são uma proposta para a classe média negra (que é pequena, mas existe). Na hora, vieram políticas de ações afirmativas para pessoas brancas que estão na mesma escola. A questão racial está envolta no subdesenvolvimento crônico do Brasil – que é o que é por conta da não inclusão do negro. Como o país produz jatos industrializados, não conseguem se desenvolver para garantir água para lavar as mãos e soro caseiro para que as crianças não morram de diarréia? Andando pela cidade do Rio de Janeiro e de outras cidades, numa rua o IDH é o da Noruega, mas se você atravessar pro outro lado, tem Burkina Faso. O eixo de gravidade que explica o barbarismo social é a exclusão do negro.

Consensos
Fala-se do consenso do Washington, que parte de um setor conservador, mantém o país estagnado. Ele e seus subprodutos são uma camisa de força para o desenvolvimento. Mas isso só vale para países que cometeram os equívocos que nós cometemos. O consenso da invisibilidade social é muito mais grave. Joaquim Nabuco, um liberal, dizia que não adiantava terminar com a escravidão, mas com os efeitos do escravagismo. Poucas leis são tão curtas como a lei áurea: um artigo e um parágrafo. Ela durou 354 anos e nenhuma política. A população negra tinha uma experiência agrícola fantástica, e o país os mesmos 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Uma reforma agrária naquele momento para dar pequenas fazendas para as famílias escravas, hoje estaríamos discutindo outras coisas e o Brasil não seria esse esgoto a seu aberto que é.

Também para o lado de cá
Ao imigrante europeu foi dado terras e apoio. São ações afirmativas, porque se premiava quem estava em desvantagem. Ter trazido quase todo tipo de europeu – germânicos, ibéricos –, na minha avaliação, fortaleceu a cultura brasileira. O que se fez para esses grupos europeus parece-me que foi correto. O escândalo é que não se tenha feito nada no dia 14 de maio de 1888 e que hoje, mais de um século depois, quando se pensa em políticas de inclusão, algumas tímidas, há todo esse alvoroço. Políticas de ação afirmativa buscam compensar grupos que estão em desvantagem. Elas já existem: o que é a política de desenvolvimento industrial ou o Proer? É beneficiar determinados setores e os banqueiros. As políticas no Brasil vêm para beneficiar pessoas. Os negros querem a mesma coisa.

Ações afirmativas
O conceito de ação afirmativa é o de uma iniciativa do setor público, mas que pode incluir o setor privado, que buscam compensar perdas históricas que determinados grupos acumularam. Para mulheres, a lei que diz que um terço dos candidatos a postos eletivos legislativos têm de ser do sexo feminino. É uma política de ação afirmativa. O percentual de mulheres na política é baixíssimo, de modo que é justo que sejam beneficiadas. No Brasil, o Estado Novo cria a lei dos dois terços, porque, em 1942, de cada 100 cidadãos, 40 eram estrangeiros, que conseguiam mais oportunidades de trabalho até. Getúlio Vargas criou, no meio das legislações trabalhistas, a lei para garantir que dois terços dos trabalhadores das empresas têm de ser brasileiros, o que vigorou até pouco tempo. Foi uma política de ação afirmativa.

Sucesso norte-americano
Nos EUA, há esforço de inclusão, e aí está a chave do crescimento do país. A insuficiência é inegável, porque não incluiu tão bem os negros quanto os brancos; mas pegue a pesquisa feita pela Ivy League, uma associação americana formada pelas 28 principais universidades do país. Um estudo paciente e exaustivo examinou a situação de 80% dos 45 mil negros que se beneficiaram das ações afirmativas, entre 1976 e 1989, e que responderam à pesquisa. Os alunos têm notas um pouco abaixo do que os brancos, porque vêm de famílias mais pobres, de escolas piores. No entanto, os negros formados fazem mestrado e doutorado numa proporção maior do que entre brancos, sobretudo em dois cursos que nos EUA têm muito prestígio: medicina e direito. O mais interessante vem agora: os estudantes advindos dessas ações afirmativas viram lideranças na comunidade de onde vieram, muito mais do que os brancos. Os excluídos tornam-se lideranças, o que é um sucesso para a sociedade americana.

Cotas e qualidade
Vou falar sobre qualidade. A universidade brasileira não tem qualidade, independentemente dos vestibulares, porque não conseguiu decifrar este país. Conseguiu desenvolver tecnologias modernas, mas não sabe o que é a inclusão. A universidade é moderna, mas anacrônica do ponto de vista cultural. Ela tem o dever de ofício de pensar, apresentar soluções, criticar. A academia não pode dizer: “aguardem a escola fundamental melhorar”. O trabalhador negro informal também paga a universidade com seus impostos, que não dá propostas para inclusão social e ainda impede o filho dele de quebrar o ciclo vicioso. Qual conhecimento ela precisa construir? Propostas para manter ou para mudar?

Pior do que o apartheid
Uma pesquisa feita em São Paulo, mostra que duas ruas do bairro dos Jardins abarcam mais estudantes na USP do regiões que envolvem milhões de pessoas na periferia. É uma característica que não ocorre na África do Sul. No apartheid, já havia uma inclusão do negro na universidade num volume maior do que existe hoje no Brasil.

Saída de emergência
As políticas de ação afirmativa são emergenciais, não devem durar mais do que 30 anos, que é o tempo para se reduzir o fosso social – que na verdade é quase exclusivamente racial. Aí, poderemos ter uma sociedade mais homogênea, com oportunidades mais iguais. Temos de admitir que somos um mosaico e que somos mais ricos por isso. O Brasil precisa desenvolver o gol de bicicleta, criado por um jogador brasileiro, negro, Leônidas da Silva (em 1931). As regras do jogo criadas diziam que quando a bola vinha pelo alto, ele só poderia bater nela de cabeça, já que só o goleiro poderia pegar com as mãos e, com o pé poderia ser jogo perigoso se um adversário estiver por perto. Pois bem, numa jogada, a bola veio pelo alto, não havia adversários por perto. Ele jogou o corpo para trás e fez o gol de bicicleta. Os britânicos não previram isso. Ele adaptou as regras a nossa realidade. É isto que precisamos: fazer o gol dentro das regras internacionais, mas com nossa criatividade, e dentro da nossa realidade.

Revolução cultural
Sim, vai ser criada uma classe média negra, mas é esse o objetivo. Quem critica isso são setores da esquerda que não perceberam que a política de ação afirmativa não é de revolução. Haverá inclusão, porque a capacitação é importante. E aqui nem essa elite existe. Alguém conhece um grande empresário negro, um banqueiro negro, um dono de rede de supermercados? Há uma classe média baixa, que representa 10% da população negra. E essas políticas também potencializam o mercado interno, melhora a distribuição de renda e o IDH. A questão é que o negro tem acesso às políticas sem qualidade, mas não às que têm, como a universidade pública. O que reivindico é uma revolução cultural. Quero que a discussão vá para além das cotas, para um modelo de desenvolvimento para os negros.

Fundo do poço
Um projeto de Lei do senador Paulo Paim é o Estatuto do Negro, inclui medidas para o cinema e o teatro. Hoje há uma ênfase na questão da universidade. Temos de pensar a questão da empregabilidade. A maior parcela da população negra, na faixa de 14 a 30 anos, que não passa da quarta série do fundamental. Quero discutir além das cotas, um modelo de desenvolvimento para os negros. Fazer o que Florestan Fernandes disse há 20 anos. É um equivoco acreditar que o negro vai se salvar sozinho, porque quando se colocar, vai salvar o resto da população junto. O modelo de desenvolvimento que se pensa não tem como deixar o branco pobre de fora. Hoje, há mais trabalhadores informais do que formais. E isso tem a ver com o dia 14 de maio de 1888, quando a abolição feita sem nenhuma proposta de inclusão. Alguns acadêmicos dizem que estamos no fundo do poço, mas não concordo, porque ali precisaria haver alguma água. Nós chafurdamos no poço já há algum tempo.

Sem o governo
O que se conquistou se deve ao movimento social negro e não ao governo. O governo Lula mandou a proposta de cotas para o Congresso e não por Medida Provisória, alegando que se trata de um tema polêmico. Mas dar status de ministro ao presidente do Banco Central ou taxar inativos também é. É falta de vontade política. A proposta não é totalmente conhecida, mas o governo oferece conquistas para a universidade, mas nada para o mercado de trabalho – que é com o que me preocupo mais hoje. Na universidade, em dois anos, a conquista estará consolidada, mas é preciso ir além. O Estado poderia exigir de seus fornecedores que aplicassem políticas de cotas (são 5.600 municípios, dezenas de estados e a União: todos grandes compradores). Além disso, temos de começar com as empresas estrangeiras, que já adotam políticas de diversidade. Os executivos americanos e, sobretudo, europeus não adotam essas políticas em suas filiais daqui por causa dos diretores brasileiros. Quero começar por essas, as mais importantes. Há mais dificuldade nas brasileiras do que nas estrangeiras para a inclusão do negro, porque se entende as melhorias que a diversidade traz.



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