Revolução urgente

Principal debatedor da conferência de abertura do 3o Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, o filósofo húngaro Istvan Mészáros já se acostumou ao Brasil. Presente a diversos fóruns e outros tantos debates e...

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Principal debatedor da conferência de abertura do 3o Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, o filósofo húngaro Istvan Mészáros já se acostumou ao Brasil. Presente a diversos fóruns e outros tantos debates e lançamentos de livros, é uma das principais referências do pensamento progressista do mundo.

Por Anselmo Massad

 

Principal debatedor da conferência de abertura do 3o Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, o filósofo húngaro Istvan Mészáros já se acostumou ao Brasil. Presente a diversos fóruns e outros tantos debates e lançamentos de livros, é uma das principais referências do pensamento progressista do mundo.
A entrevista que se segue, concedida na casa de Ivana Jinkings, da Boitempo, editora das edições brasileiras dos livros de Mészáros, ocorreu no dia seguinte ao lançamento de uma nova tradução de O Poder da Ideologia, de 1989.
Aluno de George Lukács, Mészáros acredita na revolução. Não apenas para tomar a autoridade do Estado em três dias, mas por muito tempo. Acredita no Fórum Social Mundial. Não só no evento, por uma semana, mas pelas 52 do ano. A transformação contínua defendida pelo filósofo hoje começa pela educação – vista muito além dos espaços formais – e se estende a todos os cantos da sociedade.

Educação e tempo livre
Devemos pensar na educação no sentido mais amplo do termo, não apenas na formal, restrita a um certo número de anos. Para alguns, com mais sorte, talvez 20 anos; para outros, nenhum. A vida humana é muito mais longa do que isso, e a educação é uma parte muito importante da vida. Paracelsus, pensador pioneiro no início do século XVI, dizia que não podemos ficar sequer dez horas sem educação, sem aprender algo. Em teoria, nosso tempo livre poderia ser multiplicado com o avanço da tecnologia – sempre haverá um mínimo necessário de trabalho a ser feito. Sem pensar educação nesse sentido mais amplo, teremos acumulação de dinamite social, como já acontece hoje em certo grau, quando as pessoas não têm motivos para permanecer juntas, são excluídas, negligenciadas, como se não tivessem valor. É um tanto natural que conseqüências destrutivas como vandalismo, cultura das drogas e violência ocorram. O papel de uma educação adequada, que liga a parte formal com outros aspectos recebidos nas conexões entre indivíduos e a sociedade, pode mudar muito os rumos da sociedade. A educação é o único modo de nos completarmos, do contrário, não realizamos nossas potencialidades.

Educar para mudar
Tomada neste sentido, temos educação continuada de verdade, que começa no nascimento e termina na morte. Temos variedades formais chamadas de educação continuada, mas são restritas, porque orientadas para oportunidades de emprego, nunca realizadas em decorrência do desemprego. A educação sem sentido, que reproduz o modelo social orientado para o lucro, é incompleta e inadequada, já que não produz seres humanos voltados a cooperar entre si. Pelo modelo atual, o futuro não será cooperativo, mas divisionista, conflitivo, idealizado em nome do mercado livre e da competição. Daí, tudo o que se produz é destruição. Sem modos realmente cooperativos de se gerir a sociedade, num futuro não muito distante, ela será destruída pelos antagonismos que crescem todos os dias, também na forma de guerras contínuas.

A luta
O Fórum Social Mundial é importante para a criação de um movimento de massa que tenha consciência dos problemas do modelo de sociedade existente, lutando pela realização de uma ordem diferente. O FSM é um evento anual que dura uma semana, com mais intensidade nos três dias do final da semana. Mas o ano é feito de 52 semanas. O grande problema para o futuro é como articular os movimentos para que continuem suas atividades durante o ano, estabelecendo objetivos nos locais onde a ação é urgente. Não podemos esperar de forças externas ou dos parlamentos a realização dessas transformações. Parlamentos podem passar leis. O capital pode violar todas elas, fazer o que bem lhe interessar. A legislação precisa ser traduzida para a realidade. Hoje, a rejeição da política ocorre no mundo todo por um motivo muito claro. Os políticos não estão vinculados às necessidades do povo, mas às regras do capital. Apenas se os movimentos sociais estabelecerem objetivos e lutarem por eles, teremos mudanças de fato. Movimentos como os Sem-Terra são importantes porque estão fazendo algo. As perspectivas para o futuro estão nessa linha.

Pressão para o lado de cá
É preciso mudar o modo de organização da sociedade e de participação dos indivíduos. No caso do Brasil, se os movimentos sociais e de massa, articulados da maneira adequada, pressionassem o governo o tempo todo, poderíamos ver Lula assumindo posições radicais baseado nas pressões vindas de baixo. O capital não hesita em pressionar o governo, interna ou externamente, com o FMI e o Bird. E o povo fica terrivelmente desapontado. Na Europa, os partidos social-democratas se tornaram neoconservadores. É uma crise estrutural do capital – não cíclica como em outros momentos – que traz consigo uma crise estrutural da política. Na Inglaterra, há muito tempo, quando havia uma eleição, 90% ou 95% da população participava. O mínimo era 85%. Hoje, o patamar não chega a 23%! Os políticos não podem ignorar isso indefinidamente.

Revolução
A transformação por meio da revolução é certamente do que precisamos. As revoluções passadas, mais cedo ou mais tarde, tornaram-se muito fracas, porque foram incapazes de estender os objetivos das mudanças. As metas não podem ser apenas políticas, restritas ao Estado que só legisla. Quem controla a sociedade é o capital – a partir de seus interesses. Entretanto, na crise estrutural do capitalismo – já há 35 anos sem sinais de saída –, a intervenção política pode ser apenas o primeiro passo. O que precisamos é de uma revolução social, mudanças contínuas na sociedade. O capital não será facilmente superado, porque está em toda parte. O grande desafio de se erradicar o capital é um processo profundo de mudança que só pode ocorrer se os movimentos sociais de massa for capaz de criar uma alternativa real. É a revolução de verdade, que leva muito mais do que uns poucos dias. Em três dias e a autoridade do Estado é tomada, mas os trabalhadores seguem para as mesmas indústrias, os camponeses para as mesmas condições semi-escravas e nada muda. Mudança exige muito mais do que esse primeiro passo. Uma lei que expropriasse os expropriadores mudaria o metabolismo social? O capital só pode ser erradicado pelo trabalho de todos.

Crise estrutural
Atingimos o estádio de crise estrutural do capitalismo. O sucesso político aqui ou ali, como ocorreu em diversos países, não conta muito, mas promove apenas pequenas mudanças marginais. Os problemas são de estrutura. Alternativas reais precisam ser criadas para que as pessoas possam tomar decisões por si mesmas, e não por imposição, seja da política, seja das estruturas econômicas. Se o Estado é tomado, o capital permanece nas estruturas materiais da sociedade, domina a cultura, a ideologia e mesmo as igrejas. O que pode ocorrer é a dimensão política facilitar em vez de impor obstáculos – como fazem hoje – para o desenvolvimento dos movimentos. Passos radicais podem ser tomados, mas a mudança contínua, essa revolução social, leva vários anos e não poucos dias. E só será concluída se muitos grupos diferentes da sociedade estiverem em ação. O objetivo dos movimentos sociais deve ser tomar o poder em suas áreas de atuação, em diferentes campos, senão, nada muda. Por exemplo, o MST seria responsável em seu campo, pela agricultura, por cooperativas, pela produção etc. A não ser que se possa generalizar isso, não como peças isoladas aqui e ali, mas de forma coordenada e planejada de modo horizontal para amplificar o alcance dos planos da sociedade.

Origem da crise
Os EUA, com menos de 10% da população mundial, consomem 25% da energia fóssil e produzem 25% da poluição do mundo de maneira irresponsável. Imagine o mesmo modelo de consumo e desperdício que existe nos EUA para os 1,3 bilhão de chineses, por exemplo. Isso bastaria para a destruição total do planeta. Os EUA têm um consumo irresponsável, poluem nesse grau e sabotam todos os esforços de se introduzir elementos de controle. No Rio, em 1992, ocorreu a primeira tentativa de controle dessa insanidade, e todo tipo de promessa foi feita. Eu escrevi naquele tempo – está em Para Além do Capital – que nada aconteceria, e de fato nada ocorreu. Desde então, tivemos o acordo de Quioto e os americanos continuaram sabotando. Podemos continuar nesse caminho? É vital conscientizar as pessoas desses problemas e contradições e de que podem fazer algo a respeito deles – as pessoas são muito eficientes juntas. Precisam ter consciência do perigo que há no horizonte e de que podem intervir ativamente no processo de mudanças com muita eficiência, se estiverem organizados.

Agarrar o tempo pelo pescoço
Não podemos esperar pelo tempo adequado, porque ele nunca está a favor. Temos que agarrar o tempo, pelo pescoço se necessário, para que seja usado em favor da humanidade. Hoje o tempo é usado pelo capital. Marx tem uma bela expressão: Nós como indivíduos somos carcaças do tempo. O capital precisa do tempo para seus próprios propósitos de lucro. As mudanças podem e devem ser iniciadas hoje.

Para além de Marx
Marx continua sendo o pensador mais próximo de nós. Há outros que seguiram seus passos, como Rosa Luxemburgo, Lênin, Antonio Gramsci, Georg Lukács. Mas todos reconhecem a importância de Marx. Muitas de suas idéias são absolutamente vitais hoje. Ao mesmo tempo, temos de perceber que ele morreu há 121 anos e muito de hoje ele desconhecia, nem poderia imaginar, como a autodestruição da humanidade – para a qual temos não apenas os instrumentos, mas as pressões econômicas também –, ou a destruição total do ambiente. Não há uma linha em Marx sobre isso, porque não estava nos horizontes daquele tempo, mas hoje estão.



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