Romper a cadeia da pobreza

O presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, Sérgio Amadeu da Silveira, é um dos principais formuladores do progra,a de inclusão digital Por Rodrigo Savazoni  ...

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O presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, Sérgio Amadeu da Silveira, é um dos principais formuladores do progra,a de inclusão digital

Por Rodrigo Savazoni

 

Sociólogo por formação, Amadeu tem capitaneado as discussões que tornaram o Brasil uma referência mundial na utilização do software livre. Não à toa, portanto, foi a principal fonte para a matéria de capa da edição de novembro da revista Wired – a bíblia norteamericana da cultura digital. O texto procura explicar os motivos que tornaram o Brasil – um país “supostamente” inexpressivo no cenário tecnológico internacional – atraente para os amantes das tecnologias da informação e da comunicação. E aponta a gestão de Amadeu, ex-coordenador do programa de telecentros da prefeitura de São Paulo (que atinge hoje 400 mil pessoas), como um dos motivos. Nesta entrevista exclusiva à Fórum, Amadeu defende que a inclusão digital deve ser tratada como política pública e mostra como a tecnologia pode ser um instrumento de transformação social.

O que está impedindo que o programa brasileiro de inclusão digital, mais especificamente o projeto Casa Brasil, saia do papel? Primeiro, há uma resistência cultural. As pessoas acham que o mercado vai fazer a inclusão digital. Essa é uma visão muito ingênua. Não dá para fazer um programa como o Casa Brasil com o mercado. Ele vai incluir e garantir a cidadania digital para três milhões de brasileiros, abrindo novas possibilidade de profissionalização, de apropriação cultural e de veiculação cultural das comunidades – por isso, ele é barato. Outra dificuldade grande é transformar a inclusão digital em política pública. Se o mercado tivesse condições de inserir as pessoas na sociedade da informação, ele já teria feito porque isso daria muito dinheiro. Ele não consegue fazer porque é, por si, só excludente. O Brasil é um país com alta concentração de renda onde a maioria das pessoas não têm computador nem linha telefônica em casa. As pessoas mais pobres, quando têm a linha telefônica, não têm condição de pagar, por isso está se reduzindo no Brasil o número de estações de telefonia fixa. As pessoas não têm renda. O mercado não vai resolver o problema.

Num país como o Brasil, em que nem o problema da fome foi resolvido, por que transformar a inclusão digital em política pública? Como é que se rompe a cadeia que reproduz a pobreza? Rompe usando o que existe de mais avançado: com tecnologia da informação. Não é ensinando simplesmente um curso de pedreiro. Pode ensinar, mas melhor ainda se puder ensiná- lo a ser programador. Mas mesmo ao pedreiro, é preciso ensinar a usar um e-mail, a ter habilidade de se comunicar em rede, com velocidade, armazenar, processar. Ele tem esse direito. E isso vai ocorrer onde? No telecentro, na Casa Brasil. Quem banca isso, o mercado? Não, o mercado pode apoiar de forma suplementar, mas não tem condição de fazer aquilo que é papel do Estado. Numa sociedade que é desigual, é preciso equilibrar as coisas, aplicar recursos públicos para resgatar a população mais carente de uma situação de carência permanente e leválos a uma situação de autonomia.

Isso foi feito em São Paulo? O programa vai seguir a mesma lógica que se seguiu na prefeitura paulista, de beneficiar regiões de baixo IDH? Sim, foi isso o que foi feito em São Paulo. Agora, em âmbito federal, vamos começar nas áreas onde há maiores problemas sociais, que são as periferias dos grandes centros urbanos. Também vamos mesclar com cidades pobres, porque se avaliou que é bom levar o programa para a área rural. Mas onde o jovem está sendo recrutado pelo tráfico de drogas, onde o jovem está desempregado, sem opções, não é na zona rural, é na periferia dos grandes centros urbanos. A falta de cultura e o desprezo pela vida aumentam a violência. A Internet é uma novidade para essa moçada que encontra seu espaço, seu nicho, sua minoria ou sua maioria – não importa. Aconteceu muito na periferia de São Paulo. A moçada começou a se ligar com gente que nem mora no Brasil. Ganhou o mundo da melhor forma, que é aquela que liberta, e não a que escraviza. A rede abre um caminho. É como no filme Guerra nas Estrelas, você sai do lado oculto da força e vai para o lado da luz (risos). Temos condição de fazer isso com o programa Casa Brasil. Agora vai depender do Congresso Nacional e da vontade política do Executivo.

Essa vontade política existe? O governo é difícil. Mas eu acho que estamos na metade da gestão e ainda não fizemos um programa de inclusão digital digno do governo Lula. É a hora certa de fazer. Se perder essa oportunidade não faz mais. Serão coisas menores, sem escala, sem condição de criar sinergia, de acoplar outros projetos.



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