Safra de sonhos

A sem-terra Amélia Borges Pereira tem os pés no chão ocupado e o pensamento expresso em trovas e versos, nos mais de 20 livros escritos à mão prontos para publicação Por Maria Angélica Ferrasoli e...

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A sem-terra Amélia Borges Pereira tem os pés no chão ocupado e o pensamento expresso em trovas e versos, nos mais de 20 livros escritos à mão prontos para publicação

Por Maria Angélica Ferrasoli e Fredi Vasconcelos

 

O aviso da irmã soou como uma ameaça para a Amélia menina: “Será que você não sabe que os poetas todos morrem de tuberculose?” A frase veio logo depois que escreveu o primeiro verso na escola primária, aos nove anos, numa redação pedida pela professora, sobre uma casa de pau-a-pique. Mas o efeito da advertência, embora causasse medo, durou pouco pela necessidade de expressar-se. “Quando tô com a ‘maré baixa’ escrevo coisa feia. Quando estou muito feliz, escrevo coisas bonitas.” Mas sempre escreve.

E, pela vida afora, a necessidade de botar no papel o sentimento iria acompanhar Amélia Borges Pereira, hoje com 60 anos e uma animada integrante de acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), em Batatais, (SP) e autora de mais de 20 livros. Todos inéditos. Todos em cadernos escritos à mão e com uma caligrafia e um domínio das palavras surpreendentes para quem não teve a chance de estudar além da quarta série do ensino fundamental. Só um deles, o poema A Volta da Escrava Agripina, conta com 895 estrofes.

Mas o que a menina Amélia ainda não sabia, e nem sua irmã poderia atinar, era que o tempo lhe daria combustível suficiente para não deixar faltar inspiração. Não que a vida tenha sido assim tão diferente da grande maioria dos pobres mortais (ou mortais pobres). Nascida na roça, em Minas Gerais, onde o pai tinha um sítio e não conseguia manter a família, ela se mudou ainda jovem com a família para o Paraná, em busca de vida melhor. Lá se casou e teve quatro filhos. Abandonada pelo marido, acabou mudando de novo, dessa vez para Ribeirão Preto, interior de São Paulo. “Já faz tantos anos, ele já morreu… Não vale a pena lembrar essa história”, afirma.

É bem possível que de alguma forma ela a tenha escrito em seus múltiplos cadernos de anotar o pensamento – ali estão poemas, histórias infantis, de terror e de motivação religiosa. Mas ao mesmo tempo em que escrevia, Amélia teve de cuidar da sobrevivência, dela própria e das crianças. “Quando vim para cá, trabalhava vendendo alfafa. Pegava o ônibus, ia até o Paraná e trazia os caminhões.” Com isso construiu casa, montou um barzinho, depois um mercadinho (que fechou por causa da grande concorrência), começou a fazer salgadinhos. “Foi assim que estudei os filhos”, conta. Dos quatro, um se formou advogado e resolveu acompanhar a mãe no dia da ocupação da terra para cuidar dela.

Aí já está uma pista de que o papel de vítima não combina com Amélia. Diz que a opção de morar sozinha no acampamento foi dela, para não incomodar ninguém. “A gente sempre mandou em casa, vai para a casa dos outros e não manda mais. Quando meu último filho casou avisei que ia para o asilo. Eles (os quatro filhos) quase me lincharam quando falei isso”, conta, sem conseguir esconder a pontinha de orgulho de mãe. “Então decidi: se não vou para o asilo, vou para o Movimento dos Sem -Terra”.

A opção entre o acampamento e o asilo, embora pareçam caminhos tão diferentes, tem uma explicação: a vontade de continuar sendo útil. “No asilo eu ia mesmo era pra ajudar, porque ainda posso fazer muita coisa. Aqui, se a gente conquistar a terra, nunca mais volto para a cidade, porque sem terra não sei viver. Onde estou planto alguma coisa, faço horta, mexo com a terra… E tudo com muito amor”, assinala. Ela conta também que na cidade plantava em terrenos vazios perto de sua casa. Agora, no acampamento, ajuda numa horta comunitária que já produz verduras para o consumo de todos.

E ainda sobra energia. No feriado do dia 7 de setembro deste ano, Amélia garantia que sim e descarregava disposição na cozinha, certamente uma das mais bem “equipadas” e arrumadas de todo o acampamento, em área separada e com fogão a gás, preparando uma bela macarronada e outras delícias para a filha, o genro e a netinha que foram lá almoçar.

Versos, trovas e… teimosia Mas essa mamma típica, que “não queria dar trabalho pra ninguém” e que reconhece o gênio difícil de quem não admite ser mandado, talvez não tenha se dado conta do quanto a literatura tem comandado sua vida. São 23 livros contabilizados e inúmeros versos e trovas dispersos, tudo à espera de leitores. Em muitos dos poemas, Amélia, católica, destaca a importância da fé para um mundo melhor, enaltecendo a figura de Nossa Senhora, a mãe de Jesus Cristo. Em outro escrito, lembra que teve inspiração espírita. E em outro ainda, desanca os padres pedófilos, “esses malvados”. E de alguns quer distância: “Esse verso aí eu fiz, mas não gosto”.

O que tem lhe dado gosto nos últimos tempos é o desafio feito por um dos coordenadores do MST desde que descobriu o talento da assentada: contar, em cordel, a história desses sem-terra. “Ela está fazendo um verdadeiro diário”, comemora Emes Lopes, que participa da coordenação regional do movimento. Ele só não gostou muito do “caráter personalista” que dá início ao texto, quando Amélia relata a proposta e seu autor, sem esquecer nem características físicas, como os cabelos com tranças estilo rastafari do moço.

Mas lá está também a noite fria de junho em que os sem-terra chegaram à grande área do Estado na qual funcionara uma unidade da Febem e ocuparam a terra. Plantaram as barracas de lona preta, semearam o espaço com sua esperança distribuída em 98 famílias, quase todas com origem roceira. Fundaram o acampamento Iraci Salete Strozake, nome dado em homenagem a integrante do MST que morreu atropelada, tipo de acidente freqüente entre os sem-terra, quase sempre acuados entre a rodovia e o latifúndio (por sorte, este não é o caso do acampamento, afastado da estrada e já com alguma infra-estrutura como água encanada e banheiros das antigas instalações da Febem).

No cordel-diário, a autora cita também outros acampamentos da região, como o poeta e ator Mário Lago (o que diria ele desta Amélia?) e o Sepé Tiaraju – em homenagem ao mítico guerreiro guarani que defendeu os Sete Povos das Missões, no Sul do Brasil, em 1750, quando a Espanha decidiu trocar a terra pela colônia do Sacramento, que pertencia aos portugueses. E da luta que se alimenta da necessidade, sonho e teimosia. “Na terra, se trabalhar/ A fartura vem na porta”, lembram os versos de Amélia, que gostaria de vê-los frutificar em edições impressas. “Até tento guardar dinheiro para poder publicar”, conta.

Enquanto isso não ocorre, ela vai enfrentando o dia-a-dia com seus companheiros acampados e outros tantos de ficção. “A gente que gosta de escrever não tem solidão. O personagem conversa, tem aparência. Só vou parar de escrever quando morrer”, anuncia. A sem-terra que em poema imagina o amor “na ponta dos dedos” já sabe que o espalhar ao vento em ações e palavras talvez seja a melhor maneira de garantir uma boa colheita. Ainda que, às vezes, os poetas até possam sofrer de tuberculose.

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