Simples e inovador

Técnicas facilmente aplicáveis e de alto impacto social ajudam a promover a inclusão no Brasil e em diversos países Por Thalita Pires   Diversos especialistas afirmam que...

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Técnicas facilmente aplicáveis e de alto impacto social ajudam a promover a inclusão no Brasil e em diversos países

Por Thalita Pires

 

Diversos especialistas afirmam que a tecnologia desenvolvida pela dinâmica econômica atual acaba se revertendo em bem para toda a humanidade. Evidente que se trata de um falso raciocínio, pois, na medida em que o sistema econômico garante suporte à lógica de patentes e às reservas de mercado, ele proíbe o acesso de enormes contingentes humanos à qualidade de vida. Em contraponto a isso, têm surgido iniciativas no mundo inteiro que buscam oferecer soluções baratas, simples
e que se contrapõem ao mercado. São as chamadas tecnologias sociais, um novo conceito e que efetiva importantes transformações para
diversos segmentos da população que estão privados dos direitos mais básicos.
Um exemplo clássico de tecnologia social é o soro caseiro. A mistura de água limpa, sal e açúcar, usada em todo o mundo para tratar crianças com vômitos e diarréia tem as características básicas do conceito: é simples de preparar, faz uso de saber popular, pode ser ensinada facilmente e é reaplicável em qualquer
lugar. Além disso, seu potencial para resolver um problema grave e antigo – a desidratação – é tão grande que fez e ainda faz parte de diversas campanhas governamentais de esclarecimento aos cidadãos.
No entanto, para levar o rótulo de social, uma tecnologia não precisa ser tão simples
como o soro. Soluções mais elaboradas fazem parte dessa categoria, que ganha cada vez mais importância no Brasil. Para atualizar o conceito de tecnologia social e trocar experiências nacionais e internacionais a respeito
do tema, foi realizada em São Paulo a I Conferência Internacional de Tecnologia Social, em novembro de 2004. Governo, comunidade
acadêmica e sociedade civil se reuniram para discutir estratégias de aplicação dessas que podem se tornar uma grande alternativa de desenvolvimento
no país.
“Há anos desenvolvi com vários companheiros a idéia de que a tecnologia social deve
ser usada em larga escala, que elas precisam virar políticas públicas. Temos algumas que podem resolver problemas seculares do nosso
povo”, assegura Luiz Gushiken, ministro de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica. “As cisternas, por exemplo, ajudam a resolver a antiqüíssima questão da seca de forma simples e barata”, exemplifica. Historicamente, as tentativas de usar a tecnologia em favor da sociedade se iniciaram na Índia, no final século XIX, pelas mãos de Mahatma Gandhi. Ele dedicou-se à popularização da fiação manual, equipamento anteriormente usado apenas por uma elite produtora,
e que acabou se tornando uma forma de combater a injustiça social e a sociedade de
castas que perdura até hoje naquele país. Esse
movimento de usar tecnologia desenvolvida no âmbito do capitalismo para fins sociais foi denominado pelo Ocidente, anos mais tarde, como apropriação de tecnologia. Posteriormente, a mesma prática também foi adotada na China. Mas o que faz uma tecnologia social ser diferente das inovações feitas dentro da atual
dinâmica econômica? “As técnicas capitalistas trazem consigo seus valores e os reproduzem.

O conhecimento em ciência ou tecnologia produzido em uma sociedade excludente tende a reproduzir esse padrão”, explica Renato Dagnino,
professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. Elas servem apenas para empresas privadas que, obviamente, lucram muito com isso. Também não permitem controle direto pelo produtor e
demandam a figura de um chefe, colocando os trabalhadores à parte do processo decisório. Já as tecnologias sociais pressupõem o envolvimento
da comunidade, estimulando a participação
de pessoas que sempre foram excluídas.
O envolvimento das pessoas que efetivamente
usarão as técnicas no dia-a-dia é uma
das características mais caras às tecnologias sociais. “Elas devem ser pensadas como um processo desenvolvido pelos atores que vão utilizá-la”, explica Luís Fumio Iwata, diretor de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil. “As tecnologias sociais são justamente aquelas que promovem inclusão e diminuem
a injustiça. Isso implica transferência social, que não vai acontecer com técnicas totalmente alheias à comunidade”, afirma Paul Singer,
secretário de Economia Solidária do governo federal. “Podemos até levar informação, mas ela deve ser aplicada pelos protagonistas da comunidade”, acredita.
O diretor do Departamento de Arranjos
Produtivos Locais para Inclusão Social Francisco
Hercílio considera, porém, que o desenvolvimento da técnica não precisa acontecer somente com a participação da comunidade,
mas pode vir de centros de pesquisa de universidades.
“Se a tecnologia for socialmente
responsável, basta. Por isso buscamos parcerias
com a extensão universitária”, aponta.
Assim como podem resolver problemas, as
tecnologias sociais são importantes por não
trazer conseqüências nocivas em função de
sua aplicação. O desenvolvimento tradicional
em áreas como a indústria e a agropecuária
deu-se com a utilização de técnicas que, se
por um lado trazem acúmulo de capital, por
outro aumentam o desemprego e a desigualdade.
Outro efeito colateral é a degradação
do meio ambiente, que acontece até hoje com
pouquíssimos limites. A aplicação de técnicas
sociais, que são sustentáveis e causam a menor
agressão possível ao meio ambiente, é um
dos caminhos para melhorar a qualidade de
vida em todos os lugares do mundo.

Tecnologia social na prática
Da Índia, berço do movimento de tecnologia
social, também vêm alguns dos melhores
exemplos internacionais de como esse conceito
pode ser bem-sucedido. Lá existem diversas entidades
que fomentam essas iniciativas, como a
Honey Bee Network, rede que agrega centenas
de projetos desenvolvidos no país, desde os
mais prosaicos, como o descascador de coco,
até alguns mais complexos, como uma bomba
caseira de água. “Várias inovações podem ser
desenvolvidas se as pessoas tiverem oportunidade”,
acredita Anil K. Gupta, da Honey Bee.
“Para fomentar essas iniciativas, são necessárias
campanhas que ajudem a desenvolver novas
idéias e também incubadoras para sustentar
o seu desenvolvimento”, completa.
Bons exemplos de projetos que usam tecnologias
sociais podem ser encontrados tanto no
Brasil como em outros países. Aqui, apesar da
pouca tradição no assunto, já existem exemplos
bastante interessantes. Um deles é o projeto
Mandalla de irrigação alternativa. Ele foi
criado para acabar com o desperdício de água
na irrigação de pequenas lavouras, especialmente
em regiões secas. A técnica usada para
atingir esse objetivo é muito simples. A lavoura
é organizada em círculos concêntricos: na
parte de dentro estão as culturas que demoram
mais a se desenvolver e nos círculos mais
externos estão as que serão colhidas antes. A
irrigação é feita por meio de mangueiras perfuradas
para encaixes de hastes de cotonetes,
posicionadas em círculo, acompanhando a
plantação. O fato de serem perfuradas faz com
que todas as plantas sejam regadas ao mesmo
tempo, com a mesma quantidade de água que
seria utilizada com uma mangueira tradicional,
que só rega uma pequena parte por vez.
Essa idéia simples e barata está colocando
de volta no setor produtivo agricultores que
sofriam com a seca. As mandallas já foram
implantadas em 22 municípios da Paraíba e de
Alagoas e, atualmente, a Fundação Banco do
Brasil, em parceria com Sebrae e o Ministério
da Integração Nacional, está reaplicando a
tecnologia da mandalla em mais de 90 municípios
do país, nas microrregiões do Araripe,
Jequitinhonha, Cariri, Xingo, Vale do Urucuia
e aldeias indígenas do MS.
Outra iniciativa é o Instituto do Bambu, criado
em 2002 por meio de uma parceria entre
a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e o
Sebrae. A entidade desenvolve diversos projetos
sobre o uso do bambu. Lá ele serve, por
exemplo, como alternativa para materiais de
construção convencionais. Essa é uma tecnologia
pioneira desenvolvida pelo Instituto, cujo
princípio é usar o bambu como malha estrutural
para construções. O resultado é uma edificação
ecologicamente correta e muito mais barata que
as construídas com tijolos e cimento. Enquanto
o custo de uma casa tradicional é de R$ 428 por metro quadrado, com a nova tecnologia isso cai
quase pela metade: são apenas R$ 225.
Além disso, o material usado é bastante
próximo das comunidades beneficiadas e os
trabalhadores aprendem a construir, tornandose
mão-de-obra qualificada na região. A primeira
construção foi entregue em novembro
em uma comunidade de Alagoas e marcou o
início do processo de transferência dessa tecnologia
para as comunidades de Cajueiro, Coruripe
e União Dos Palmares.
As possibilidades de uso do bambu não
param por aí. A planta também é usada para
fabricação de instrumentos musicais, móveis
de baixo custo, compósitos para a indústria de
móveis, peças decorativas e até para a obtenção
de energia, através do aproveitamento da
biomassa e do seu uso como carvão.
Outro bom exemplo de utilização das tecnologias
sociais é o projeto de aquecedores solares
de baixo custo. Seu idealizador, Augustin
Woelz, contou com poucos apoios, vindos de
algumas empresas e, principalmente, de sua
família. Passou dez anos melhorando o projeto,
fundou uma ONG, a Sociedade do Sol, e
trabalhou muito até chegar, em 2001, ao produto
final. O aquecedor que ele desenvolveu usa
materiais de baixo custo e a montagem é simples,
pode ser aprendida por qualquer pessoa.
Seu intuito é substituir parcialmente a energia
elétrica usada em domicílios pelos chuveiros.
O pesquisador fez questão de não patentear
o invento. “A minha idéia ao desenvolver o
aquecedor era espalhá-lo por todo o país, especialmente
para famílias de baixa renda. Não
fazia sentido patenteá-lo”, explica.
Com o projeto pronto, Augustin tem agora
como desafio implantá-lo em larga escala, o
que ele considera a parte mais complicada.
“As pessoas têm medo de mudar. Acham que
mesmo em time que está perdendo não se mexe,
pois senão vão perder ainda mais”, conta.
“Tenho dentro do projeto alguns aquecedores
para serem doados para entidades sociais, mas
elas não querem, acham arriscado implantar
algo novo”. Woelz aposta na distribuição gratuita
de manuais disponíveis no site www.sociedadedosol.
org.br, complementado de apoio
tecnológico oferecido individualmente aos
usuários pela Sociedade do Sol.

Benefícios
As vantagens da aplicação das tecnologias
sociais de forma massificada são muitas e, de
fato, problemas sérios já encontram solução
com algum desses inventos. Ela está relativamente
disseminada em algumas áreas como
saúde, agricultura e meio ambiente. Não estão,
entretanto, devidamente integradas entre
si para causarem mudanças significativas. Os
fatores mais importantes que impedem a aplicação
delas são a falta de recursos estatais e a
inexistência de conectividade entre as diversas
iniciativas.
O investimento governamental brasileiro
em relação ao tema nunca chegou perto do
montante necessário para alcançar resultados
mais significativos. Segundo Gushiken, esse
cenário tende a mudar com o atual governo.
“Haverá muito empenho para a aplicação das
tecnologias sociais e quero envolver todo o
governo nesse debate”, salienta.
Os recursos do governo são fundamentais
para a difusão do movimento. “O processo
de mudança social supõe um investimento
governamental enorme, afinal, 50% da população
do Brasil é marginalizada”, diz Renato
Dagnino. “Achar que é possível fazer
isso sem aumentar a participação do Estado
é ingenuidade”, garante. Mas se investimento
financeiro ajuda, não é garantia do sucesso
da implantação das tecnologias sociais. “Só
dá pra virar política pública se o processo for
compreendido de fato”, diz João Furtado, da
Universidade de São Paulo.
A interligação entre as diversas iniciativas
de tecnologia social já começa a existir,
embora de maneira incipiente. Desde 2001,
a Fundação Banco do Brasil agrega em um
portal informações sobre projetos que passam
por sua avaliação, com o objetivo de dar voz a
experiências que, isoladas, não tinham possibilidade
de ampliação.
A idéia agora é construir uma rede mais
abrangente de conhecimento em torno do
tema. Para tanto, está sendo desenvolvida a
Rede de Tecnologias Sociais, a RTS, que vai
armazenar e pesquisar exemplos de projetos.
“A rede vem para buscar a melhor forma de
articular as iniciativas. Ela pretende possibilitar
o debate a respeito da necessidade de
articular experiências, porque há muito isolamento
e uma rede traz conectividade”, explica
Jacques Pena, presidente da Fundação
Banco do Brasil. “As TS não devem ser necessariamente
um objeto tangível. Mudanças
nas relações sociais, profundas a ponto de a
sociedade poder mudar e resolver problemas,
também fazem parte desse conceito”, lembra
João Furtado.

A criação da Rede de Tecnologias Sociais
Rede de Tecnologias Sociais: escala para os projetos

Na I Conferência Internacional de Tecnologia Social foi lançada
também a proposta de criação da RTS – Rede de Tecnologias Sociais, integrando as diversas experiências já desenvolvidas na área e possibilitando a transferência e
apropriação de formas alternativas e sustentáveis de produção, além de sua aplicação em larga escala. A rede ajudaria a divulgar não apenas as tecnologias sociais, mas
também valores como desenvolvimento
sustentável, transformação social e ação comunitária, efetivando a emancipação de diversos segmentos excluídos da população brasileira. “Vamos juntar essas
tecnologias para alcançar o tão desejado desenvolvimento social”, espera Eduardo Campos, ministro de Ciência e Tecnologia. O projeto de criação da RTS começou
a ganhar corpo em julho de 2004 a partir de discussões que envolveram
vários setores do governo federal e instituições não governamentais.
À frente da idéia estiveram a Fundação Banco do Brasil, o Ministério
da Ciência e Tecnologia, a Finep – Financiadora de Estudos e
Projetos, a Petrobras, o Sebrae e a Secretaria Especial de Comunicação
da Presidência da República. A implantação da RTS já está em curso com a formação dos grupos de trabalho e o projeto do portal RTS na internet, sendo que ela deve estar em plena operação a partir do mês de março de 2005. “A rede vai permitir que possamos dar escala aos projetos, ajudando a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Afinal, há pressa para resolver os problemas do país”, acredita Jacques Pena, presidente da Fundação.



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