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Resultado das eleições municipais indicam que, como principal partido de esquerda do país, o PT deve mudar sua postura em relação a diversos segmentos da sociedade Por Glauco Faria  ...

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Resultado das eleições municipais indicam que, como principal partido de esquerda do país, o PT deve mudar sua postura em relação a diversos segmentos da sociedade

Por Glauco Faria

 

Dez dias antes do domingo que iria decidir o novo prefeito de São Paulo, em uma feira livre de Pinheiros, bairro de classe média alta da cidade, militantes empunhavam bandeiras e distribuíam panfletos em favor da candidata Marta Suplicy. O ânimo não era dos maiores e uma cena pôde expressar bem o sentimento daquelas pessoas. Uma mulher, ao receber material de propaganda, resolve discutir com o rapaz que lhe entregou. São menos de cinco minutos onde ela despeja argumentos em favor da candidatura de José Serra, diante de um interlocutor impassível que não diz sequer uma palavra à eleitora.

Uma cena impensável em campanhas petistas do passado. Os simpatizantes do partido sempre foram caracterizados por promoverem debates onde quer que estivessem, seja em bares, faculdades, ônibus, filas ou na panfletagem propriamente dita. O militante da feira, assim como todos os outros no local, era pago e não dispunha da mesma vontade dos antigos petistas. Os profissionais foram uma característica não apenas na campanha paulistana, mas em várias outras cidades do país. Além de influenciar no resultado eleitoral dos grandes centros urbanos em que o PT conheceu suas maiores derrotas, a perda maior para o partido foi de boa parte dos formadores de opinião, sua base de sustentação histórica.

Os novos rumos do PT desencantaram e desmobilizaram boa parte dos militantes do partido e da esquerda brasileira e internacional. Com a chegada ao poder no governo federal e em importantes prefeituras, a práxis petista foi se tornando bastante semelhante à dos demais partidos e hoje alguns não conseguem reconhecer mais a esperança que movia sua extensa base. O que se viu foi uma desmobilização da militância, principalmente aquela oriunda do meio sindical, que se retraiu ou se sentiu traída pelas gestões do partido.

O cientista político Antônio Augusto Queiroz acredita que o eleitorado desses grandes centros quis mandar um recado para o PT. “As administrações petistas têm sido bem-sucedidas do ponto de vista administrativo, mas têm apresentado problemas de condução política”, afirma. Como exemplos, Queiroz cita os casos de Porto Alegre e Belém. “Na capital gaúcha, o candidato Raul Pont quis descolar sua imagem do governo federal, o que causou estranheza, além de ter desprezado o apoio do PTB antes da eleição”, sustenta. “Em Belém, a candidata do partido e o prefeito petista não se entenderam, o que prejudicou a continuidade da gestão.”

Outra característica dessas eleições é que, mesmo sem haver uma federalização generalizada, o eleitor de esquerda não perdoou o alinhamento automático de candidatos com algumas medidas constrangedoras tomadas pelo governo federal, em desacordo com posturas do passado. Isso foi fatal para a candidata Fátima Bezerra, em Natal, que se viu atacada pelos adversários por ter votado a favor do governo em questões como a Reforma da Previdência e o reajuste do salário mínimo. O candidato do PCdoB em Fortaleza, Inácio Arruda, também sofreu pesadas críticas por ter apoiado o PT federal nesses mesmos itens. “Essas posições do Inácio foram muito exploradas pelas outras campanhas e deram espaço para o crescimento da candidatura Luizianne, rejeitada pela direção nacional do PT”, esclarece André Haguette, professor da Universidade Federal do Ceará.

Ele acrescenta que a postura mais independente de Luizianne, defendendo as bandeiras históricas do PT, a ajudou em uma cidade onde parte da população está frustrada com o governo federal – o que não é de se estranhar, já que a expectativa da população era muito alta. Mesmo com a candidatura local de Ciro Gomes, Lula recebeu 54,5% dos votos no primeiro turno de 2002 e a fantástica marca de 88,32% no segundo turno na capital cearense.

Mudança de rumo Em um artigo publicado em maio de 2003, o filósofo Renato Janine Ribeiro fez uma análise do que diferenciava o PT do PSDB. A prática política do governo FHC em seus oito anos de mandato afastou o Partido dos Trabalhadores de uma aliança que era tida por muitos como natural (tanto que o PT, quando Lula tinha 40% de intenções de voto em 1994, esnobou as tentativas de acordo com os tucanos para a eleição presidencial).

Além de adotar uma política econômica neoliberal, o PSDB teria assumido, segundo Janine, como principal preceito a vertente republicana. Como forma de se contrapor, o PT era a agremiação que seguia a vertente democrática, que legitima o anseio popular por igualdade, “o que em termos práticos quer dizer que a enorme massa de sem-terra, sem-teto, sem-emprego vê nele as chances de ter mais bens, e de ser mais respeitada”. Para Janine, “numa sociedade complexa como a moderna, não existe mais um demos único, um povo como aquele com quem sonharam os românticos e os marxistas, mas uma série de pequenos demoi, de subpovos – sem-terra, feministas, gays, desempregados, funcionários públicos, comunidade acadêmica”.

No governo tucano, os interesses desses “subpovos” foram tratados como corporativistas, contrários à noção republicana de bem-comum, sendo que uma outra “corporação” foi eleita como privilegiada exclusiva: o capital financeiro. O PT chega ao poder representando as várias vozes desses grupos antes marginalizados e também daqueles que lutam por uma sociedade menos desigual. A pergunta que fica no ar é se, no dia-a-dia do governo Lula e de várias administrações petistas, isso se refletiu efetivamente, trazendo para o cotidiano a preocupação de empunhar bandeiras que sempre foram caras à esquerda. Será que os movimentos sociais e as organizações da sociedade civil conseguiram uma interlocução eficiente com o PT governista?

Em tese, o movimento sindical poderia estar satisfeito com o governo Lula, já que muitos de seus integrantes ocupam postos estratégicos na esfera federal e também em prefeituras do partido. No entanto, isso tem causado mais constrangimento entre um lado e outro e o bom trânsito esperado entre as partes não ocorreu. Carlos Ramiro, presidente da Associação dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp), relata que houve muitas dificuldades de relacionamento com administrações do PT.

“Propomos em vários lugares que fosse instituída uma comissão permanente de negociação entre o funcionalismo público e a administração, para não ficarmos dependentes da data-base, mas em poucos lugares ela saiu do papel”, lamenta. “É preciso que seja aberto um canal de comunicação mais forte com o meio sindical”, completa.

Ramiro afirma que, embora boa parte do movimento de trabalhadores esteja frustrada tanto com o governo Lula como com algumas prefeituras do partido, os antigos simpatizantes continuam dispostos a auxiliar o PT. “O problema nessas eleições é que a militância não foi chamada pelo partido”, defende. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, Jorge Nazareno, concorda com essa avaliação e acha que esses militantes terão que ser observados com mais cuidado pela direção. “Não se pode deixar em segundo plano quem sempre se dedicou espontaneamente à política”, acredita. “O PT deixou de lado essa massa que, mesmo com as dificuldades, no momento mais agudo foi às ruas para ajudar na campanha. O partido terá que reavaliar sua relação com esse pessoal”, opina.

Os movimentos sociais e diversas organizações da sociedade civil que sempre dialogaram com o PT também têm problemas no relacionamento com o partido no poder. “A marca petista de justiça social e de radicalidade democrática ficou um pouco de lado”, sugere Antônio Martins, jornalista e membro da Associação pela Taxação das Transações Financeiras e Ação Cidadã (Attac). “O desinteresse do governo federal em apelar aos movimentos sociais para promover transformações na sociedade, priorizando apenas os acordos no Congresso, dificultou o diálogo”, aponta.

Algumas decisões políticas também decepcionaram esses segmentos. “Nós da Attac e de outras organizações nunca desejamos conflitos com o governo e não esperávamos o rompimento com o FMI ou o calote da dívida. No entanto, o aumento do superávit primário, o baixo índice de desapropriações para fins de reforma agrária e o corte em alguns gastos sociais evidenciaram a não concretização do desejo de mudança”, conclui.

O sociólogo Silvio Caccia Bava, coordenador executivo do Instituto Polis, cita um exemplo do desencontro entre o governo Lula e as ONG’s. Em 2003, a administração federal chamou a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) para elaborar uma consulta ampla à sociedade civil em relação às prioridades do Plano Plurianual (PPA). “A associação, juntamente com a Inter-Redes, ouviu 2.170 entidades no Brasil inteiro e a expectativa era de que ela pudesse vir a discutir inclusive a alocação de recursos”, conta Bava. Entretanto, as próprias entidades que organizaram o processo reconheceram que a incorporação dos questionamentos principais da sociedade civil ao PPA foi quase nula, frustrando as diversas associações que fizeram parte da consulta.

Além dessa dificuldade de diálogo, formas de participação direta, que são marca registrada do partido, como o Orçamento Participativo (OP), não receberam a devida atenção de diversas prefeituras. Para se ter uma idéia da importância disso nos locais onde ele funciona plenamente, o candidato vitorioso à prefeitura de Porto Alegre, José Fogaça (PPS), em seu discurso da vitória, apressou-se em dizer que manteria o OP na capital gaúcha. “Ele criou o mote do ‘o que é bom, fica’”, observa o cientista político da UFRGS André Marenco.

O elemento da campanha da oposição mostra um dado interessante. Tanto em Porto Alegre como em outras cidades, como São Paulo, o PT tinha uma administração bem avaliada, mas não conseguiu assegurar a vitória eleitoral. “Em Porto Alegre, isso aconteceu pela incapacidade do PT de elaborar novidades. Apelou-se para o voto retrospectivo, que não basta para quem está há tanto tempo no poder”, acredita Marenco.

Na capital paulista, o governo Marta Suplicy tinha 48% de avaliação “ótimo e bom” e, dentro da grande margem de eleitores que considerava a administração regular, muitos tendiam a um balanço positivo. Para Antônio Augusto Queiroz, isso evidencia um julgamento do eleitor que também teria acontecido em outros centros urbanos. “Os cidadãos aprovam as políticas públicas promovidas pelo PT, mas condenam o estilo centralizador, sem dar espaço a outros grupos”, sustenta. Para o eleitor paulistano, tanto Marta como o vitorioso Serra seriam bons do ponto de vista administrativo, o que os diferenciaria seria o estilo. “Daí entra desde a análise da postura política até a conduta pessoal, aspectos que passam a ser os diferenciais para a escolha do eleitor”, completa.

Tudo indica que o PT terá que rever diversas posturas políticas. Até porque, ao contrário do que disseram, após as eleições, alguns membros da direção do partido, os resultados podem sim influenciar no próximo pleito de 2006, quando estará em jogo a reeleição do presidente Lula. “Se as eleições presidenciais têm um eixo absolutamente claro, os municípios têm importância reduzida no processo”, pondera Queiroz. “Em 1989 e 2002, tivemos o eixo da renovação e da ética, em 1994 e 1998 esse eixo girou em torno do sucesso e da manutenção do Plano Real. Em 2006, ainda não existe um eixo definido e aí as cidades de grande porte podem fazer a diferença nos resultados da eleição”, acredita.

E um revés em 2006 poderia ser fatal não apenas para o partido, mas para toda esquerda nacional e internacional que depositou nas esperanças de renovação. O Nobel de Literatura José Saramago expressou sua preocupação em uma entrevista dada à BBC, em setembro, se dizendo “um ex-fã de Lula”. “Aplaudi, apoiei, todos nós aplaudimos e festejamos a vitória (de Lula). Mas, neste momento, sou bastante crítico, sobretudo, com a política econômica, com esse acordo com o FMI que ele aceitou e que tinha uma condição fundamental que é o pagamento da dívida externa. Se isso se converte em prioridade, é claro que os problemas sociais vão ser postos em segundo plano”, afirmou o escritor português.

Segundo Saramago, questões importantes deixaram de ser prioridade, como “o plano Fome Zero, o problema da terra – que está sem resolver – e casos um pouco obscuros, como o do presidente do Banco Central, que é um pouco estranho”.

A desilusão do escritor português Saramago também encontra eco em outros pensadores do exterior, e é por isso que a responsabilidade do governo Lula só aumenta. A reflexão que o PT deve fazer a partir dos resultados das eleições municipais se torna relevante para toda a esquerda mundial e, principalmente, latino-americana, no momento em que o socialista Tabaré Vasquez venceu as eleições uruguaias, rompendo um bipartidarismo mais que secular. Lembrando de novo Saramago, fica para o partido um de seus preciosos ensinamentos: “O que as vitórias têm de ruim é que elas não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que elas não são definitivas”.

glauco@revistaforum.com.br

 



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