Sob as asas do Falcão

Países invadidos pelos EUA ainda não chegaram à terra prometida da democracia e o governo norte-americano parece pouco preocupado com o destino desses povos

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Países invadidos pelos EUA ainda não chegaram à terra prometida da democracia e o governo norte-americano parece pouco preocupado com o destino desses povos

Por Thalita Pires

A política internacional norte-americana no século XXI parece estar reduzida a invasões sob pretextos pretensamente nobres. Faz-se a intervenção, sempre de forma violenta e, no caso do Iraque, sem a autorização da comunidade internacional. Não faltam promessas de dias melhores para… as vítimas. Os depoimentos de Amir Abdul Rekaby, iraquiano, e Sarah Saba, afegã, mostram a atual situação desses países que foram invadidos pelos EUA e seus aliados. Será que os ares da democracia já chegaram até lá?

O direito de decidir “Nós vamos derrubar o aparato do terror e ajudá-los a construir um novo Iraque, próspero e livre”. Com esse discurso, George W. Bush dava, em 17 de março de 2003, o ultimato a Saddam Hussein e aliados para deixar o país e garantia ao mundo que o Iraque teria todas as condições necessárias para seu desenvolvimento. Passado quase um ano, o regime ditatorial caiu, Saddam foi preso e humilhado pelos EUA e a prosperidade e liberdade continuam no campo das promessas.

Amir Abdul Rekaby, porta-voz da Corrente Democrática Nacional do Iraque (Condi), esteve no Fórum de Mumbai para mostrar que, apesar da vitória militar norte-americana, o país continua imerso numa baderna política para a qual ninguém enxerga saída. “O que os EUA fizeram foi muito mais do que tirar Saddam do poder: eles destruíram o que restava do Estado, privatizaram tudo”, explica.

Para reverter esse quadro, a Condi tenta congregar os iraquianos favoráveis ao fim da ocupação norte-americana sem o uso da violência. Esse trabalho é especialmente difícil por conta das divisões políticas do país. “Não posso dizer que todo o povo está representado, mas isso tem a ver com a realidade do Iraque, que tem muitas facções culturais e religiosas. Há apoio de diversas etnias e correntes do Iraque à coalizão anglo-americana”, explica Rekaby. “O apoio dos movimentos sociais internacionais, de quem participa e se envolve no Fórum Social Mundial, é crucial para nós. Ele é a base sobre a qual devemos construir nossas ações contra os EUA”, completa.

A Corrente vai realizar no Iraque um grande encontro com representantes de todas as partes do país. “Seria algo como uma assembléia constituinte, independente do poder americano, para unir todos os que mostram uma resistência legal à ocupação. Esta convenção será a única autoridade legítima para decidir o formato do Estado e da sociedade que queremos construir”, diz.

Diversos encontros preparatórios já foram realizados. Ocorrido em dezembro, o último reuniu mais de cem representantes de várias tendências. “Havia representantes de xiitas, de sunitas, de curdos, de nacionalistas, de esquerdistas, de islâmicos… Defendemos nossa proposta, mas procuramos uma alternativa para o país, que não pode vir de apenas um dos lados”. O ativista denuncia ainda que “o conselho de governo colocado pelos norte-americanos está tentando passo a passo se consagrar como realidade, como única opção. A imprensa americana tenta manipular as pessoas e o mundo dizendo outras coisas”.

Rebaky lembra que o modelo de democracia a ser implantado no Iraque não pode ser o ocidental. “Temos uma cultura e uma religião diferentes. Se queremos atingir a democracia, temos que dar ao povo iraquiano o direito de decidir sobre política, religião e mesmo sobre questões globais”, ressalta. Assim, o país tem uma chance de sair do impasse político em que vive desde a queda de Saddam.

Muito além da burca Após os ataques de 11 de setembro, o Afeganistão virou o alvo primeiro da fúria norte-americana. Além da caça aos terroristas, a ocupação teve como justificativa a libertação de um povo oprimido pela milícia fundamentalista Talibã. Numa sociedade marcada pelo extremismo religioso, uma das conseqüências da queda do governo autoritário seria o fim da opressão às mulheres.

No entanto, mais de dois anos após a queda do antigo regime, a realidade das mulheres e do povo de uma forma geral é quase idêntica à de antes da invasão norte-americana. Sarah Saba, representante da Revolucionary Association of the Women of Afghanistan (RAWA, Associação Revolucionária das Mulheres no Afeganistão), presente em conferências no Fórum Social Mundial, dá um depoimento onde afirma que “o Afeganistão não mudou de fato, especialmente na situação da mulher”.

Mesmo após o fim dos combates, a população se sente insegura em diversas localidades do país. “Em algumas áreas, a situação está até pior”, explica Saba. “No oeste, especialmente em Reda, é como no tempo do Talibã. Nada mudou, as mulheres tem de andar cobertas. O resultado é o aumento das tentativas de suicídio, especialmente entre as mais jovens”, completa.

As poucas mudanças sentidas no Afeganistão ainda carecem de bases mais sólidas, de acordo com Saba. “Algumas mudanças ocorreram, as escolas estão abertas, as mulheres podem sair na rua sem a companhia de homens, no entanto, quem garante isso não é exatamente o governo, mas sim a presença de mais de quatro mil soldados, os mantenedores da paz da ONU. Assim, fica difícil dizer que há qualquer tipo de mudança ou melhoria na condição de vida das mulheres”, diz.

Alguns locais do interior do país ainda estão sob controle do Talibã e, no geral, não há estabilidade política suficiente para garantir a liberdade de expressão dos afegãos. “Eles podem ser presos, mortos, torturados. Há duas semanas, uma jovem que protestou contra os efeitos da guerra foi agredida por fundamentalistas”, conta Saba. No entanto, ela acredita que essa visibilidade obtida pelo país pode ser a chance das mulheres conseguirem melhorar sua situação. “A pressão da comunidade internacional colocou a questão da condição feminina na pauta do país. De certo modo, está se tornando uma causa importante e nem mesmo os fundamentalistas podem ignorá-la”.

A ativista defende que um maior acompanhamento exercido pela comunidade internacional em relação ao país ajudaria a resolver parte dos problemas. “Ela deve manter os olhos no Afeganistão e não acreditar que tudo já se resolveu. O problema das mulheres não era só a burca e não é se livrando dela que a questão está resolvida. A situação é muito mais preocupante. Se a comunidade internacional quiser, e precisa querer, pode pressionar, parar de apoiar o fundamentalismo e começar a apoiar a democracia”.

thalita@revistaforum.com.br



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