Software é poder

Um dos movimentos altermundistas mais avançados e que desafia a maior corporação do capitalismo modenro, o desenvolvimento de programas de computador livres é um caminho de emancipação para países e camadas sociais pobres Por Anselmo...

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Um dos movimentos altermundistas mais avançados e que desafia a maior corporação do capitalismo modenro, o desenvolvimento de programas de computador livres é um caminho de emancipação para países e camadas sociais pobres

Por Anselmo Massad

 

Em uma porta de loja de um pequeno centro comercial, um pingüim e um bisão, animal da família bovina, desenhados por grafiteiros como super-heróis, chamam a atenção. Acima deles, o título “Dupla dinâmica do software livre”. A cena pode ser vista fica no bairro de Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, região de periferia, em meio a alguns conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda, e a porta é do Telecentro Tiradentes, o primeiro dos 123 montados na capital paulista desde junho de 2001, de modo semelhante ao que acontece, entre outras cidades, em Porto Alegre (RS) e Belém (PA). São 11 computadores, rodando softwares livres (SL) à disposição da comunidade sete dias por semana, com horário marcado.

Leôncio Bento da Silva, de 20 anos, é voluntário do Telecentro e mora a seis minutos do local. Antes da inauguração do espaço, ele mal tinha mexido em computadores, mas tinha curiosidade de sobra. Depois de muitos acessos, fez cursos gratuitos de webdesign no local e agora procura emprego na nova profissão. “Depois que me formei no Ensino Médio, fiquei procurando alguma área para trabalhar. Como gosto de computador e aprendi a criar páginas de internet, vou tentar por aí”, conta Leôncio.

Enquanto ele explicava o funcionamento do local, outra monitora dava um curso básico do computador, explicando desde conceitos básicos do teclado e do mouse, até como são organizados os programas e arquivos. Duas das alunas mais aplicadas eram senhoras de cabelos grisalhos da região, mais interessadas em mergulhar no mundo da informática do que em interromper a aula para conversar com o repórter.

Ao encontrar cenas como essa, ao final da visita à cidade para participar do Congresso Internacional de Softwares Livres (Conisli), no início de novembro, o alemão Georg Greve, presidente da seção européia da Fundação do Software Livre (Free Software Foundation, FSF) ficou fascinado. “Os Telecentros são o melhor exemplo que já vi de transformações que podem ser feitas com softwares livres”, assegura. O projeto de construção de centros para inclusão digital está em debate no governo federal (ver pág. 12), o que coloca o Brasil em posição de destaque no universo dos SL, na avaliação do alemão e de grande parte dos ativistas.

A possibilidade de inclusão e criação de alternativas econômicas é uma das principais bandeiras do movimento que tem mais de 20 anos, mas vem ganhando cada vez mais espaço.

O trabalho com programas não-proprietários também mostra-se forte como alternativa para empresas e técnicos de informática. Um exemplo interessante é a Solis, uma cooperativa auto-gestionada, hoje com 30 pessoas na cidade de Lajeado (RS), que desenvolve programas licenciados sob a GPL e oferece suporte às empresas que optam por adotar seus aplicativos. A maior parte dos membros do empreendimento trabalhava na central de processamento de dados da Univates, onde, desde 1999, os computadores passaram a rodar com softwares livres.

Para gerenciar a trajetória dos estudantes, do vestibular à conclusão do curso, foi necessário desenvolver um novo programa adequado às necessidades da instituição. O novo software precisava ser livre, e daí nasceu o Sagu. Da necessidade de gerenciar o acervo das bibliotecas da universidade, veio o Gnuteca. Ambos são os carros-chefe da cooperativa, que também desenvolve aplicativos sob encomenda.

O Gnuteca tem uma peculiaridade, apontada por John Maddog Hall, presidente da Linux Internacional e um dos principais ativistas do SL, durante o Conisli. A licença de uso de um programa proprietário semelhante teria um custo na casa dos 20 mil reais, sem contar a adaptação e implementação. Na licença pública, o custo fica só por conta do serviço de suporte que, no caso da Solis, seria inferior a 25%. A diferença, para Maddog, dá um exemplo bastante específico do que pode representar a adoção de programas livres.

Além do custo Empresas como a Solis, milhares de programadores voluntários e de usuários comuns pelo mundo têm motivações mais amplas do que uma eventual economia em licenças. Os ativistas do movimento o abraçam muito mais por questões ideológicas. “Software é poder, é essencialmente como legislação, mas tem um agravante”, avisa Georg Greve. Para explicar, ele cita o professor da Universidade de Stanford, Lawrence Lassig, que estabelece uma diferença entre as leis que regem a sociedade e o código que determina o funcionamento de programas de computador.

Ambos regulam a sociedade, mas o último é mais eficiente, porque em última instância, as pessoas podem escolher desobedecer a uma lei por um bem maior, como salvar uma vida, justificando a ação depois. Com o código isso não acontece, não há como evitá-lo. “Com softwares proprietários, o único que tem o poder é quem o escreve. Os SL são importantes por dar a todos o mesmo direito de escolher a forma como vão moldar a sociedade, devolvendo à sociedade o poder de decidir sobre seus rumos”, aponta Greve.

O sul-africano Nhlanhla Mabaso, do Conselho de Pesquisa Científica e Industrial, coloca a discussão em outro patamar. “No contexto sul-africano, colocar apenas a questão do dinheiro seria um pouco como discutir a liberdade diante do apartheid com base em relações de custo-benefício”, compara. “Imagine se alguém lhe dissesse que o custo total de se manter o estado do apartheid era maior ou menor do que o de liberdade e democracia”, questiona.

A liberdade foi a opção na cidade de Munique, a terceira mais rica da Alemanha, onde a prefeitura decidiu em maio de 2003, migrar os 14 mil computadores para Gnu/Linux. Nas negociações com a Microsoft, os consultores conseguiram um valor nas licenças equivalente aos custos de instalação e treinamento dos funcionários para operar na nova plataforma. Eles não economizaram, mas entre um programa que poderia ser adaptado e modificado de acordo com as necessidades e que pudesse ser conhecido em cada detalhe pelos técnicos da prefeitura e um que não permitia nada disso, a opção foi pela liberdade.

Mas os usos dos SL podem ter outra dimensão em países pobres. Mabaso acredita que o modelo de desenvolvimento dos programas pode ser modelo para reorganizar o trabalho em países africanos. “Há um provérbio em latim que diz: ‘a necessidade é a mãe da invenção’. Para nós, isso quer dizer que onde há muita pobreza e carências, há também muitos inovadores, e os programas livres permitem criar saídas e opções que os países desenvolvidos não têm interesse”, avalia.

Milton Aineruhanga, da Rede de Mulheres de Uganda (Wougnet), que trabalha com a inclusão de mulheres em tecnologias de informação e comunicação, vai além. Ele acredita que os SL oferecem a possibilidade de levar países pobres a padrões internacionais, já que os softwares desenvolvidos para fins específicos dos países ricos podem ser adaptados. O crescimento do uso de computadores coloca nas escolas a possibilidade de transformação social nessa área. “Computadores estão sendo introduzidos nas escolas, criando apenas um exército de usuários não-programadores, porque não há acesso aos códigos da Microsoft. O acesso ao código irá estimular a imaginação das crianças a encontrar soluções para os problemas”, aponta Aineruhanga. Ele acredita que é possível fomentar a formação de programadores que serão responsáveis por empresas na área de informática.

O pesquisador Nagarjuna G., diretor da FSF da Índia, conta que no país apenas 65% da população é alfabetizada, ao passo que menos de 4% falam inglês. Ainda assim, nenhum sistema operacional proprietário se deu ao trabalho de traduzir sua interface para idiomas nativos do país. Isso levou os programadores – que Nagarjuna chama de hackers, “mas não crackers” – a se embrenhar na produção de um sistema operacional nessas línguas, o que já foi atingido. “Isso poderá ampliar drasticamente o acesso das pessoas ao computador.

Em um grande país como a Índia isso é muito importante”, aponta. Esforço semelhante é reportado pelo ugandense Aineruhanga no continente africano, para permitir o acesso de pessoas que não falam línguas européias.

Abra as janelas para o conhecimento

Para quem não usa computadores ou mal sai do básico, alguns dos termos são grego. Para outros, não-familiarizados com o movimento, cabem algumas explicações. Todos os computadores precisam de programas para funcionar.

Mais especificamente, de um conjunto de software que gerencie todas as tarefas realizadas pelo computador, incluindo o modo como outros programas irão funcionar. É o sistema operacional. O Windows, software proprietário da Microsoft, tem essa função e é o mais usado no mundo, em suas várias versões, mas está longe de ser o único e tampouco o melhor. As primeiras tentativas de se produzir um sistema operacional livre, ocorreu a partir de 1984, liderada pelo ativista Richard Stallman, em sua Fundação do Software Livre (FSF, em inglês). Era o Gnu, sistema semelhante ao Unix, um sistema proprietário dos mais estáveis. Ele criou um padrão de licença de uso dos programas, a Licença Pública Geral (General Public License, GPL), o que permitiu a criação de todo um conjunto.

O sistema estava quase completo, a exceção de uma parte. O software responsável por organizar cada um dos componentes físicos (o teclado, o monitor, as placas dentro do computador etc.), chamado de kernel, não estava pronto. Foi aí que Linus Torvalds, um estudante finlandês, desenvolveu um perfeitamente compatível com o restante do sistema operacional. O nome dado foi Linux. Pouco ou nada engajado em mudar o mundo dos softwares, o programador o escreveu pensando em seu próprio uso, mas decidiu lançar o kernel sob a GPL.

Se Stallman é pouco afeito a entrevistas e é apontado como centralizador por setores do movimento, Torvalds é mais hábil na divulgação. Talvez o pingüim (chamado Tux) seja também mais simpático do que o bizão do Gnu, ou Torvalds seja mais pragmático e menos político, mas o fato é que a linha menos engajada conseguiu cativar mais programadores jovens, abaixo dos 40 anos.

O resultado é que o sistema cujo nome seria Gnu/Linux, ficou mais conhecido pelo nome de uma parte do que pelo restante das ferramentas. Um outro sistema operacional, o BSD, desenvolvido na Universidade Berkeley, da Califórnia, nos Estados Unidos, também é livre, licenciada pela GPL e semelhante ao Unix, mas desenvolvido sob outros padrões.

A FSF baseia suas ações basicamente em quatro liberdades: a de executar o programa para qualquer fim, de estudar o código-fonte dos programas de computador e adaptá-lo a suas necessidades, a de fazer e distribuir cópias e a de melhorar os aplicativos e divulgá-los para o público para que toda a comunidade se beneficie.

É na questão da liberdade que mora um dos principais cismas do movimento. Em inglês, a palavra “free” é usada tanto para “livre” como para “gratuito”. Essa margem a mal-entendidos levou um grupo relativamente amplo, liderado pelo norte-americano Eric Raymond, seguidor da linha de Torvalds, a optar por outra terminologia. O livre deu lugar ao “código aberto”, em 1998.

Grande parte da imprensa quando trata do assunto, em geral por desconhecimento, não fazem a distinção, que é considerada menos grave para a OSI, organização bem mais recente, do que para a FSF. Enquanto a primeira restringe- se à cooperação técnica, a segunda se pensa como um grupo político, um movimento de direitos humanos, na definição de seu fundador. Russell Nelson, diretor da OSI, dá sua visão a respeito.

“Se você estiver alinhado às metas da FSF, vai usar apenas softwares livres não importa o que você tenha de abrir mão. Nossa meta é usar programas de alta qualidade, quer dizer, você vai buscar o código aberto porque têm uma qualidade melhor”, justifica- se. “Não queremos a liberdade às custas de todos os outros objetivos”. A respostas da FSF é que abrir o código não garante muita coisa, e a ambigüidade se manteria. Ter acesso ao código não garante que todos poderão usar o programa, melhorá-lo, distribui- lo etc.

O detalhe curioso, é que o principal avanço dos softwares livres está no modo de desenvolvimento solidário, colaborativo e descentralizado. Esse método de trabalho foi trazido pelo grupo do código aberto – chamado de modelo do bazar, em oposição ao centralizado processo de catedral, na comparação utilizada por Raymond para explicar o método. “A colaboração tem muito mais a ver até com as idéias do Fórum Social Mundial do que o simples discurso de liberdade”, opina Carlos Cecconi, programador engajado em dar consultoria a para que ONGs migrem para softwares livres. Vale dizer que o método foi adotado amplamente também pelo grupo de Stallman desde a década de 90.

Do ponto de vista prático do trabalho de desenvolvimento dos programas, as diferenças são menos relevantes. Na verdade, boa parte dos programas listados na página da FSF como livres, são também listados na da OSI. Apesar de a última aceitar outras licenças além da GPL, não há muitas diferenças técnicas, e ambos defendem a produção de programas com as mesmas permissões de usos, mas com ênfases políticas diferentes.

Em outras palavras, quando se trata de pôr a mão no código, a relação é puramente técnica. “Há pessoas de direita e de esquerda que trabalham como programadores voluntários, e ninguém pergunta sobre as ideologias de cada um na hora de colaborar, porque acreditam na necessidade de desenvolver programas livres”, aponta Greve.

Dependendo do local do mundo essa diferença é mais ou menos relevante. Na África, uma das tentativas de congregar todos os envolvidos no movimento põe os termos “livre” e “de código aberto” em seu nome, é a Fundação de Softwares Livres e de Código Aberto para a África (Free and Open Source Foundation for Africa, Fossfa). Em outras listas, é comum ver a sigla FOSS, referindo-se aos aplicativos produzidos pelos dois grupos. Mas a diferença existe e é a liberdade que pode estar em questão.

Sem clube do bolinha

É quase consenso de que elas são minoria dentro do movimento de SL. Mas fazem seu barulho e querem participar mais. Há uma série de grupos voltados para mulheres interessadas, programadoras ou não.

“Não se pode culpar o movimento pelo sexismo que existe em toda a sociedade”, avalia Sulamita Garcia, do LinuxChix. “A cada dia surgem novos episódios de discriminação e agressão pura e gratuita. Somos primeiramente avaliadas pela aparência, enquanto um homem é avaliado pelo seu trabalho”, lamenta. A norte-americana Erinn Clark, do grupo Debian-Women, acredita que a melhor forma combater o preconceito é conquistar seu espaço por meio do próprio trabalho. “Ao conversar com eles e criar uma reputação boa nas comunidades pode aliviar os sintomas mais rudes do sexismo e facilitar a inserção de outras mulheres, porque as pessoas não irão estranhar a presença de mulheres”, sugere.

Loimar Vianna, do Projeto Softwares Livres-Mulher, conta que boa parte das mulheres têm uma visão mais política, buscando projetos de inclusão. Ela é até um exemplo disso, já que não é programadora, mas adepta, defensora e militante dos SL. Outro projeto é o Debian-Women, um grupo de mulheres organizadas na rede Debian, uma das principais distribuições do Gnu/ Linux.

Os principais objetivos de todas os grupos de mulheres, o objetivo é muito mais trazer mulheres para a comunidade do que realizar projetos. Mas eles já começam a aparecer, como no caso do Telecentro Feminista, montado em Porto Alegre numa parceria entre Projeto Softwares Livres-Mulher e Coletivo Feminista Lua Nova, com o apoio da Unesco. Segundo Loimar Vianna, o Telecentro Feminista apóia cooperativas de mulheres a aproveitar recursos de informática de planilhas e documentos de texto no dia a dia dos empreendimentos, além de divulgar seu trabalho em páginas na Internet.



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