Suas opiniões são cirúrgicas

Drauzio Varella critica políticas públicas na área de saúde, educação e de combate à violência, defende posições corajosas e acha que está na hora de o Brasil começar a debater com mais profundidade certas...

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Drauzio Varella critica políticas públicas na área de saúde, educação e de combate à violência, defende posições corajosas e acha que está na hora de o Brasil começar a debater com mais profundidade certas questões do narcotráfico

Por Renato Rovai

 

Foi num banco da principal praça de Parati (RJ), numa manhã ensolarada de domingo, 3 de agosto, que aconteceu a entrevista que se reproduz a seguir. No dia ncerrava-se a primeira Feira Literária da cidade, da qual Drauzio Varella era um dos escritores convidados. A conversa foi relativamente curta, mas aguda. De maneira pausada e tranqüila, Drauzio criticou a Igreja Católica de forma contundente, disse que mudou de posição em relação à legalização das drogas e que hoje a defende, elogiou José Serra e repetiu por algumas vezes que sem controle efetivo de natalidade não há solução para o Brasil.

Drauzio tem 60 anos e um currículo respeitável. Formado pela USP, foi professor por muitos anos do cursinho Objetivo, dirigiu o serviço de imunologia do Hospital do Câncer (SP), deu aulas em várias faculdades do Brasil e em instituições do exterior e foi um dos pioneiros a tratar do tema da Aids no Brasil, ainda em 1985. É também o autor de Estação Carandiru, que está entre os dez livros mais vendidos do país praticamente desde o lançamento, em novembro de 1999.

Atualmente Drauzio conduz um quadro que trata de questões da medicina no Fantástico, na Rede Globo. Isso o tornou o “doutor” mais popular do país, mas não pasteurizou suas idéias.

Revista Fórum – Imagino que o senhor já falou disso muitas vezes, mas queria que resgatasse como é assumir a condição de escritor?

Drauzio Varella – Escrevi Estação Carandiru meio por vontade de escrever, de contar aquela história. E foi um sucesso de público grande. E quando se faz um livro de sucesso comercial grande, primeiro começam a publicar tudo o que você escreve, o que é um perigo. Fica muito fácil publicar, o que é, na verdade, o gargalo para um escritor. Você escreve, não publicam, escreve, não publicam, aí desanima. O fato de Estação Carandiru ter feito sucesso facilitou muito e me criou uma pressão interna para continuar escrevendo e contar outras histórias. E uma outra profissão. Hoje ganho dinheiro escrevendo, faz parte da minha rotina diária. Sempre estou pensando no texto que estou fazendo naquele momento, acho que como todos que escrevem, né?

Como o senhor tem dividido o seu tempo entre a medicina e o ato de escrever?

Minha primeira profissão é a medicina, sou basicamente médico. A medicina consome a maior parte do meu tempo. Mas, como trabalho muito, sempre guardo um tempo para escrever. Não chego a escrever diariamente, mas consigo nos finais de semana e desenvolvi uma concentração grande para escrever em lugares como aeroportos, avião, no meio de pessoas conversando… Não tenho essa necessidade de concentração. Tem gente que só consegue escrever em silêncio, recolhido, absoluto. Eu não. É lógico que em silêncio escrevo com mais facilidade, mas sou capaz de fazer o trabalho andar em condições normalmente consideradas desfavoráveis.

Além dessas duas profissões, e até por elas, o senhor acabou assumindo um papel na mídia.Tem inserções em rádio e agora está participando do Fantástico. Isso também chegou de repente, como a literatura?

Acho que fui meio arrastado. Comecei fazendo vinhetas sobre Aids em São Paulo, em 1985, no começo da epidemia. Foram essas vinhetas que se desdobraram e acabaram chegando até aí. Hoje essa é uma carga pesada de trabalho para mim. Até do ponto de vista pessoal gostaria de, sei lá, parar um pouco com isso. Consome muito tempo. Mas não me sinto no direito de parar. Acho que é um espaço foi aberto para um trabalho educacional, que a televisão não abre de um modo geral. Abriram para ser ocupado por mim. Se eu largar não vai haver outra pessoa que ocupe e isso vai ser substituído por outra coisa. Sinto-me na obrigação de fazer. Tenho muito prazer em fazer isso também, até porque é uma coisa que vem muito ao encontro do que minha geração pensava da medicina. Nós tínhamos sonhos grandiosos para o país. A gente pensava em fazer universidades, construir cidades, alfabetizar o país inteiro, desenvolver, criar uma sociedade mais justa. E grande parte dessa utopia não deu em nada, mas acho que essa consciência de levar a medicina para todos, para a população inteira, para mim é uma obrigação inerente a todo médico. É da atividade médica mesmo. E gosto muito de fazer, embora dê muito trabalho. Em televisão se perde muito tempo e eu não gosto de perder tempo.

A grande repercussão de Carandiru, o filme, também foi importante para colocar de novo em pauta o tema das prisões e para que se volte a discutir o papel do cárcere, o senhor acha que esse debate tem avançado?

O debate taí. Está dentro das casas, no meio das famílias. E nisso se o livro colaborou, se o filme colaborou, acho que a colaboração foi muito discreta. Os fatos reais são muito mais fortes. O que se vê nas cidades brasileiras hoje é que deixa as pessoas mais interessadas no tema. A contribuição do livro é que talvez faça entender melhor o que é cadeia, o que está escondido atrás dos muros. Talvez a curiosidade que as pessoas têm a respeito desse mundo explique o sucesso do livro. Agora, a realidade é tão mais forte do que a literatura que mobiliza as pessoas. Isso é que conta.

Em relação à Aids, como o senhor vê as políticas públicas e as campanhas educativas atuais?

Campanhas educativas em relação à Aids nós não temos. O que há é um programa de Aids com sucesso na parte de tratamento. Isso foi uma revolução, porque mudou completamente o panorama da doença. Surgiram remédios eficazes no combate à Aids e o Brasil passou a distribuí-los. Coisa rara em outros países. Nós temos coisas aqui inacreditáveis. Há países desenvolvidos que não fazem isso e nós fazemos. Isso teve impacto grande no tratamento da doença. Agora, o controle da epidemia envolve educação. E educação envolve distribuição de preservativos. Você precisa fazer isso chegar, porque é a única medida que temos para evitar a Aids. Além da abstinência sexual o que resta é o uso de preservativo. E isso é uma coisa complicada, porque embora tenha havido até certa boa vontade do Ministério em distribuir preservativo, eles chegam nos postos de saúde e a distribuição não acontece. Se pensar que você tem uma doença sexualmente transmissível, potencialmente fatal, é coisa séria. Preservativo deveria estar ao alcance de todo mundo, deveria fazer parte do dia-a-dia das pessoas como um artigo essencial, de primeira necessidade. Mas isso não existe. A sorte foram os remédios, porque tratando os doentes você diminui a quantidade de vírus produzidos e reduz, muito provavelmente, a transmissão do vírus. Isso teve impacto na transmissão, mas a parte de prevenção ainda é muito falha no Brasil.

O senhor acha que isso se deve a certo moralismo religioso?

Acho que sim. A religião católica, especialmente, tem postura criminosa nesse tipo de situação. Porque eles são contra o uso de preservativo. Isso é um crime. Especialmente num país como o nosso é crime. Porque expõe a vida das pessoas, coloca a vida dos outros em risco. Aí você vai dizer, bom, mas na hora de transar você acha que a pessoa vai dizer não vou usar a camisinha porque a Igreja não quer? Não é assim. Não é esse o raciocínio que a gente tem de fazer. É preciso pensar naquela cidade do Brasil, lá no meio do mato, onde chega aquele lote de camisinha que o ministério da Saúde manda e o prefeito não vai querer ficar contra a Igreja. Qual é o prefeito que vai querer chegar na escola pública e pegar os meninos e meninas de 11 e 12 anos e distribuir preservativo para enfrentar o padre? Esse é o problema. Qual é o deputado federal que vai querer ficar contra o bispo da região? Esse é o verdadeiro poder da Igreja. Então um veto da Igreja, desse tipo, é muito eficiente, porque o político local pensa, não vou me preocupar com isso, isso só vai me criar caso. Vai criar problema para mim. E aí o preservativo não chega na mão de quem deveria. Esse é o crime que a Igreja está cometendo em relação a isso. Eles deviam fazer o contrário. Dizer, isso deveria ser usado porque salva a vida das pessoas…

O senhor tem feito incursões pelo Brasil por conta de seu espaço na TV Globo, já vivenciou histórias assim?

Você vai para esses lugares mais distantes e ninguém recebe. As mulheres não recebem nem pílula. Ou recebem dois, três meses e aí falta. Recebem mais um mês e falta de novo. Então elas engravidam. É um descaso total, absoluto. Nós temos um programa de planejamento familiar maravilhoso no papel, que na prática é nada. E vivemos esse problema justamente onde aqueles que não podem ter filhos têm um atrás do outro. Começando aos 12, 13 anos de idade. Você vê isso dentro de uma cidade como São Paulo, meninas de 12 a 13 anos grávidas. Tem sentido uma coisa dessas?

Tem havido mudanças nas preocupações com saúde pública?

Acho que sim. Evoluímos muito com medidas simples. Tivemos impacto enorme na mortalidade infantil com duas medidas, o aleitamento e o soro caseiro, que é água com uma pitadinha de sal. Só essas duas medidas já mudaram praticamente tudo, tiveram impacto enorme na mortalidade infantil. Se a gente acrescentasse a isso uma orientação para que as mães lavem as mãos toda vez que tocarem na criança, quando forem alimentá-la, teríamos uma redução ainda maior. Isso é simples, uma questão de comunicar, dizer que se você lavar a mão com água e sabão e não levar as bactérias à boca da criança reduz grandemente o número de casos de diarréia, desidratação, tudo.

Em relação à área de saúde o senhor identifica no governo Lula alguma medida positiva ou negativa que mereça comentário?

Acho que é cedo ainda. Acho que o governo anterior teve o melhor ministro da Saúde da história do Brasil. Independentemente de qualquer ligação política, e eu não sou político e por isso fico bem à vontade para falar que o José Serra foi o melhor ministro da Saúde do Brasil, disparado. Quem é que se compara a ele, o Oswaldo Cruz, que saneou uma cidade? O Serra teve impacto mesmo na saúde pública, o programa de Aids, a questão dos genéricos, hoje uma realidade. Você vai comprar um remédio qualquer na farmácia e pergunta se tem o genérico. Isso mudou muito. Essa coisa de proibir publicidade de cigarro também. Antes nós convivíamos com campanhas para viciar criança pela televisão. Ele encarou, bateu de frente com os fabricantes, e hoje nossas crianças não vão ver mocinho laçando cavalo e acendendo cigarro na televisão. Isso não vai acontecer mais. Acho que precisamos de gente assim, de gente desse jeito. Você vê que curiosamente não era médico, não precisa ser médico. Acho até que ser médico atrapalha.

O senhor foi fumante por um bom período.

Quase 20 anos.

Essa mudança se deveu ao exercício do seu trabalho educativo ou foi uma decisão de foro íntimo?

Foi só pessoal. Quando você é usuário de droga, não pára de usá-la por uma questão política. Você usa porque depende da droga, não consegue viver sem ela. Só consegue ficar livre quando percebe que tá doente, que aquilo é uma doença que necessita vencer. A questão do cigarro foi assim. O cigarro é a droga mais difícil de parar. Não tem droga tão difícil.

O senhor falou de droga, queria avançar um pouco mais nessa questão. Como vê as políticas adotadas em relação às drogas, o senhor acha que está na hora de mudar alguma legislação?

Está na hora, acho que está na hora. Porque tá na cara que isso não deu certo. Não é verdade? Quer dizer, pode piorar, sempre pode piorar, mas veja o que está acontecendo hoje. Nossa política de combate às drogas, de jogar a polícia em cima das pessoas que traficam drogas, olha o que acontece na prática. Podia ser pior do que isso? Veja o que está acontecendo nas favelas cariocas, nas periferias de São Paulo. O tráfico está tomando conta de tudo, tomando conta da sociedade nessas áreas. Eu sempre fui contra a legalização, sempre achei que isso estava errado, que era um absurdo, que ia aumentar o consumo. Ainda acho que vai aumentar muito o consumo, mas tem de mudar isso, não deu certo assim. O tráfico é um poder hoje, corrompe. Corrompe a justiça, a sociedade inteira. E a função do Estado não é proteger o indivíduo contra o mal que ele possa fazer contra si. Isso não é função do Estado. Se fosse assim não poderia haver um prédio de vinte andares porque o cara poderia se jogar lá de cima. A função do Estado é proteger o cidadão contra o mal que terceiros possam realizar contra ele. Então o que nós fazemos no caso das drogas? Deixamos os cidadãos correrem o perigo do mal que os outros fazem contra ele para protegê-lo do mal que pode fazer a si mesmo. Não é esquisito isso? Você deixa uma família de pais trabalhadores morar ao lado de uma boca de fumo numa favela, controlada por traficantes e tendo de se submeter às ordens deles em nome de uma proteção do mal que essas pessoas poderiam vir a cometer contra si mesmas. Podia começar, sei lá, eu não tenho resposta…

Está na hora de começar um debate…

Tá na hora. Não sei como, talvez começando por liberar uma das drogas. Não sei bem. Não sei mesmo. Mas acho que tá na hora de conversar sobre isso. Pegar as pessoas que sabem, que conhecem, que têm experiência prática… Mas vai aumentar o consumo? Vai, paciência. Mas o dinheiro que é empregado no combate poderia ser revertido para o tratamento. Você vê uma coisa como o cigarro, na minha geração todo mundo fumava. Lembro do meu grupo no hospital, de estudantes de medicina. No sexto ano, éramos dez no grupo, nove fumavam. Éramos 90% fumantes. Hoje está mudando isso. Com o quê? Com campanhas educativas, proibindo anúncio na televisão, explicando para a molecada na escola.-

Ou seja, debater a legalização não é fazer defesa do uso nem do direito do usuário?

Essa questão da legalização é mal posta, porque em geral as pessoas que defendem são usuárias. E isso criou uma questão esquisita para quem tá de fora. Pensam: “ele tá querendo que legalize para poder comprar no bar da esquina e não precisar ir mais atrás do traficante”. Não se pode pensar assim. Tem de ser o contrário. O álcool, por exemplo, é uma coisa horrível, e parte da população brasileira é de alcoólatras. Na rua há pessoas embriagadas, encharcadas de álcool, jogadas na sarjeta e nós nos acostumamos. Proibir o álcool geraria o quê? Se proibissem você iria parar de tomar caipirinha? Iam surgir quadrilhas e quadrilhas dominando as cidades para controlar a distribuição do álcool. Então o que o Estado faz? Quer beber, beba. Quer cair na sarjeta, caia. Problema seu. Não é função do Estado protege-lo contra você mesmo. Então, quer fumar um baseado, fume. Quer passar o dia inteiro fumando um baseado e olhando para a Igreja, passe. Criar uma estrutura social de repressão ainda acaba com a polícia. Porque a polícia vai sendo corrompida. Os juízes, também, todo mundo. Temos de conversar, discutir, encontrar um caminho.

O senhor tem convivido com um lado bastante violento da sociedade e imagino que reflita sobre isso.

A violência não tem solução no curto prazo, pode esquecer. É a médio prazo, mas para que isso aconteça é necessária mobilização intensa da sociedade. No sentido de dar escola, que não é pôr a criança 3 horas numa ambiente de má qualidade. É dar escola mesmo. É dar assistência para que adolescentes parem de ter filho como hoje, quando uma menina engravida com 13 anos e aos 14 já é mãe. Você não teve empregadas adolescentes em casa? E um dia uma apareceu grávida? Isso acontece em nossa casa e a gente não interfere. De repente a empregada aparece grávida e aí você pensa, poxa está grávida. E aí se lembra de que a sua empregada tem vida sexual. A gente não pára 1 minuto para perguntar: quantos anos você tem? Sabe que pode engravidar? O que faz pra não engravidar? Ela engravida dentro da sua casa e vai como um bolo de neve. E as meninas da classe média, essas não engravidam… e quando engravidam, têm o direito de fazer aborto.

Que é outro tema em que a Igreja Católica…

Não só a Igreja Católica, muita gente… Na verdade, o aborto no Brasil existe. Só não é permitido para aquele que não pode pagar. Que não tem dinheiro. Isso tem de ser abordado, considerado problema fundamental do país para poder se organizar um pouco melhor. Em 1970, na Copa do Mundo, éramos 90 milhões em ação. Hoje somos 180 milhões. Só trinta anos depois. Ontem eu perguntei a uma jornalista da BBC, imagine se a Inglaterra tivesse em trinta anos duplicado sua população? O que aconteceria? Ela disse: “I can´t imagine” (eu não posso imaginar). E nós já tínhamos problemas sociais absurdos há trinta anos…

O senhor acha que não há políticas sociais que possam acompanhar esse crescimento populacional?

Não, não há. Esquece. Não dá. Você pega essas cidades pequenas e aí surge um bairro. O prefeito vai lá, faz uma escolinha, organiza pra uns 50, 60 alunos e ela dá conta. Daqui a pouco são duzentos alunos e depois quatrocentos. Em pouco tempo ele tem de fazer outra escola no bairro. O poder público vai a reboque o tempo inteiro, tapando buraco. Ou pára de crescer desse jeito ou vai ser difícil.

A violência também está vinculada a isso?

Sim e à qualidade da escola. Eu, na cadeia, com muita freqüência escrevo a receita do remédio, entrego e pergunto: “você sabe ler?” A resposta é: “um pouquinho”. Eu pergunto, você estudou? Eles respondem que só até a quinta série. O moleque faz até a quinta série e lê um pouquinho. Na minha geração, na quinta série, a primeira do ginásio, já tínhamos aula de inglês, francês, latim. Agora, esse menino chega na quinta série e sabe ler um pouquinho. O que é isso?

O senhor é cancerologista, gostaria de saber por que por mais que avancem as novas tecnologias, os novos medicamentos, novos tratamentos, cada vez mais o câncer parece ser uma doença incontrolável?

São muitas doenças diferentes numa só, fica muito difícil. Doenças de altíssima complexidade. Há uma grande quantidade de pesquisa, conhecimento básico muito bem desenvolvido, mas o resultado prático em termos de tratamento só agora estamos começando a ver. Tem muito tempo pela frente, isso não é para já. A chamada cura do câncer vai levar muito tempo.

O senhor está com algum novo projeto literário?

Estou escrevendo um livro sobre o impacto da possibilidade da morte na vida das pessoas. Esse é o tema. Vai ser baseado na minha experiência como cancerologista, mas está cru. Vai demorar ainda um ano para eu terminar de escrever



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