Toques musicais

Dicas culturais Por Julinho Bittencourt   O filme Diários de motocicleta, de Walter Salles, além de todos os outros méritos já cantados e decantados, tem também o...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 

O filme Diários de motocicleta, de Walter Salles, além de todos os outros méritos já cantados e decantados, tem também o de trazer dois grandes compositores latino-americanos na sua bela trilha sonora. O primeiro deles, autor da banda sonora propriamente dita é o renomado compositor argentino Gustavo Santaolalla, ex-roqueiro que se especializou em trilhas para cinema e música instrumental. O outro é o uruguaio Jorge Drexler, autor da canção de encerramento do filme Al otro lado del Río.
Gustavo Santaolalla é considerado um dos formuladores da música pop argentina da década de 80, tendo como um dos seus confessos influenciados o cantor e compositor Charly Garcia. Foi líder da banda de rock folclórico Arco-Íris, que gravou 11 discos entre os anos de 1967 e 1988. Santaolalla toca vários instrumentos de cordas, inclusive charango e ronroco.

A música que fez para Diários de motocicleta atravessa a América Latina junto com Guevara e Alberto Granado. Sem jamais cair na tentação do épico, cria uma textura sonora bonita, repleta de fusões de ritmos e principalmente de timbres. Ao lado de pianos e sintetizadores, cajóns e violinos, Santaolalla executa seus instrumentos e tece sua rede discreta, multiétnica e extremamente peculiar. A música e o filme se merecem, se encaixam e formam um magnífico momento da cultura latino-americana.

 

Drexler é um excelente compositor e letrista contemporâneo uruguaio, que tem uma bela voz, além de bom violonista. Sua obra pode e deve ser observada também no recém-lançado Eco, sétimo disco de sua bem sucedida car­reira. Drexler tem canções gravadas por vários cantores da América Latina, inclusive o brasileiro Paulinho Moska, “La edad del cielo”, no disco Tudo novo de novo. Além disso, tem também vários prêmios e duas indicações ao Grammy latino. Em “Eco”, desfia um rosário de belas canções, com instrumentação simples, belas melodias e letras contundentes.

A canção título “Eco”, parte de uma idéia usada por Chico Buarque em “Futuros amantes”, do disco Paratodos, de 1992, que Drexler assume na capa de Eco, subscrevendo o verso “…futuros amantes quiçá se amarão sem saber com o amor que um deixei pra você”. Na do uruguaio, a intenção da transcendência aparece como um eco de outro tempo. E o disco todo parece ser feito de retalhos de vários tempos e lugares, que se unem pela urgência de humanidade e bem-estar.

São canções de amor pelo humano que, de forma singela e muito direta, nos jogam na cara o outro lado do absurdo. “Milonga del muro judio”, por exemplo, evoca no refrão “Yo soy un moro judío que vive con los cristianos, no sé que Dios es el mio ni cuales son mis hermanos” (sou um mouro judeu que vive com os cristãos, não sei qual Deus é o meu nem quais são meus irmãos). Dentro da beleza da música de Jorge Drexler, um compositor imprescindível, somos todos.

 

Adriana Calcanhoto todo mundo co-nhece. Adriana Partimpim é novidade. A primeira faz canções densas, para adultos. A outra canta para as crianças – inclusive as mais crescidas. Em comum, as duas têm o talento, enorme e generoso. Já com relação às desavenças, uma deixa a impressão de que foi ao fundo da alma, no canto mais escuro, e volta cheia de cores, enquanto a outra finge que nada na superfície, suave e alegre, mas também habita uma parte da escuridão.

O alter ego de Adriana Calcanhoto para canções infantis chega cheio de surpresas. De cara ela avisa que veio para ficar mesmo, com contrato por escrito e tudo o mais. Cada vez que Adriana Calcanhoto for fazer um disco infantil vai assinar assim, da forma como se autobatizou na infância. E no mais, o disco é um mergulho raro, delicado e muito, mas muito bonito, no melhor do universo infantil.

É daquelas obras raras que apostam na criatividade, na capacidade de invenção que as crianças têm e que deve ser não só preservada, como exercitada. Adriana Partimpim é tão vital à inteligência das crianças quanto é ao corpo um passeio no parque, um banho de sol, um mergulho no mar.

 

E por falar no mar, volta à cena Elis & Tom, o disco que traz a mais linda das canções em sua mais antológica gravação. “Águas de Março”, de Tom Jobim, é uma obra-prima gravada por uma verdadeira constelação de cantores ao redor do mundo. Ninguém, nunca, jamais, em tempo algum, conseguiu o efeito da dupla brasileira neste disco. A partir de um arranjo simples, com um quarteto básico e mais o piano de Jobim, ele e Elis fazem um dueto formidável, que apesar de sobrar espontaneidade, dizem as testemunhas, foi gravado e regravado à exaustão até tudo sair conforme o planejado.

Mas não é só de “Águas de Março” que vive Elis & Tom. O rosário de canções do maestro é desfiado em momento raro da voz da cantora. Talvez Elis nunca tenha cantado com tanta devoção, equilíbrio, enfim, com tamanha beleza. Havia uma admiração mútua ali. Tom considerava a cantora como a melhor do Brasil e estava receoso de cantar com ela. Elis, por sua vez, achava Tom o maior compositor e também estava amedrontada por interpretar o trabalho dele. Havia outro agravante: Elis sempre teve um jeito não-bossa-nova de cantar, derramado, telúrico. Os dois, é claro, estavam cobertos de razão e o disco deu no que deu.

No final das contas Elis e Tom faz aniversário de 30 anos da melhor maneira possível, com o som revitalizado em DVD áudio 5.1 DTS, no padrão que o mundo oferece hoje e, de lambuja, com duas faixas a mais: “Fotografia”, que vem em outra versão, e “Bonita”, que havia ficado de fora do original. Uma festa de genialidade para a nossa música.



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