Toques musicais

Dicas culturais Por Julinho Bittencourt   Muito mais do que duas almas gêmeas, Itamar Assumpção e Naná Vasconcelos amontoam um caminhão de diferenças. Mas também, e o...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 

Muito mais do que duas almas gêmeas, Itamar Assumpção e Naná Vasconcelos amontoam um caminhão de diferenças. Mas também, e o que é melhor, várias coisas em comum. Porém, não se deixaram enganar por nem uma coisa nem outra.
A reunião deles deu no disco Isso vai dar repercussão, que não deu quase nenhuma, apesar de merecer muito mais do que meia dúzia de comentários. É um disco de bolso um tanto aquém das possibilidades dos dois, mas mesmo assim muito, muito bom.
O disco tem por volta de meia hora de duração e tem jeitão de ter sido feito às pressas, na perna. Isso porque, todas as sete canções são de Itamar e os arranjos de percussão de Naná que, provavelmente, produziu muitos dos sons literalmente nas coxas, omoplatas, ombros e ossos mesmo.

Isso vai dar repercussão acabou sendo o epitáfio de Itamar, morto no ano passado. Um disco muito simples e ousado como toda a sua obra. Tem Paulo Lepetit com umas cordas virtuais aqui, o baixo ali, mais Bocato e seu trombone e ninguém precisava dizer mais nada. Quem tiver alguma coragem que ouça.

Arnaldo Antunes são muitos. Uns melhores, outros piores, mas todos ótimos. Os melhores Arnaldos são aqueles que estão mais próximos do próprio Arnaldo, aquele que deixou de ser titã e desencontrou dos tribalistas. O Arnaldo solitário, pai de família doidão, poeta concreto e compositor neo-jovem guarda. O Arnaldo, enfim, que acaba de lançar Saiba, um disco absurdamente lindo de tão estranho.

Arnaldo é capaz de tudo que puder provocar e derreter corações atentos e outros desligados. Faz arte na cultura de massa. Faz cultura de massa como quem faz arte. E afirma, desconcertante, logo de cara, em nome do humano, demasiado humano em “Saiba”, canção que já valeria qualquer disco do planeta: “Saiba: todo mundo foi neném, Einstein, Freud e Platão também, Hitler, Bush e Saddam Hussein, quem tem grana e quem não tem.”

Um detalhe pro final é o extremo romantismo do disco. Tudo é singelo e bonito, carinhoso, afetivo e escancarado todo o tempo. Sobra amor para todo mundo, desde as filhas, a mulher, os amigos e a humanidade. Arnaldo está com a corda toda, com sobriedade e excelência artística. E isso tudo sem abandonar a velha e boa inquietação de sempre.

Beto Guedes está de volta com Em algum lugar. Finalmente um disco de canções inéditas, depois de 13 anos. O último havia sido Andaluz. Nesse meio tempo ainda fez Dias de Paz, com regravações de antigos sucessos, que lhe rendeu um disco de ouro.
Para os fãs mais exaltados, a boa notícia é que o bom Beto, dos tempos do Clube da Esquina, está em perfeita forma, fazendo e interpretando canções bonitas, com sabor dos ventos e montanhas das Minas Gerais.

Há uma certa serenidade em Em algum lugar, que pode ser a única e sutil diferença em relação a seus discos anteriores. A inquietação de outros tempos dá lugar ao bom observador não-resignado. Está atento a tudo, respira com calma e sabe que tudo o que fizer, diante do que já foi feito, é lucro. E sobram moedas.

A ausência total de truques é o que dá essa dimensão à obra de Beto Guedes. Seus discos nunca foram feitos ao sabor da modernidade reinante. Após ouvir “Amor de índio” e “Em algum lugar” é difícil acreditar que os dois tenham mais de 25 anos de distância. Beto Guedes e seus companheiros do Clube da Esquina inventaram um som único, próprio, sem maquiagens e aberto ao mundo. Com uma postura artística consciente, o cantor e compositor se colocou com imenso respeito diante do seu tempo. E soube como poucos navegar para além dele.

Fábio Mentz toca fagote, piano, flauta, compônium, bânsuri e latofone. Apesar de veterano pelo Sul, no resto do país acaba de atingir o status de estreante, através do disco Cantigas, recém-lançado pelo selo Núcleo Contemporâneo. O disco, gravado de forma curiosa em duas etapas – uma ao vivo e outra com sons adicionais, quase um ano depois – salta fora de qualquer coisa que se ouve no Brasil hoje. É melódico, rola fácil, mas ao mesmo tempo muito bem-estruturado, rico em sons e informações.

Suas melodias dão a chave para os arranjos. Mentz está longe de ser o músico culto que empilha notas e as distribui de forma científica. São sons bonitos, claros e, alguns deles, muito gaúchos, melancólicos, próximos da “estética do frio”, termo inventado pelo compositor e cantor gaúcho Vitor Ramil. E por isso mesmo são também sons de aquecer e dançar, alegres e festivos.

Como curiosidade, vale lembrar que Fábio Mentz é também astrólogo e professor, além de estudar psicologia junguiana e mitologia. Um currículo notável, principalmente para um instrumentista e compositor do seu nível e formação, que tem o mérito de não perder o contato com o público.



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