Toques Musicais

Coluna de música de Julinho Bittencourt Por Julinho Bittencourt   André Abujamra lança seu primeiro disco solo. Trata-se de um estreante veterano, que já fez mais de 50...

346 0

Coluna de música de Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 

André Abujamra lança seu primeiro disco solo. Trata-se de um estreante veterano, que já fez mais de 50 trilhas para teatro, outras mais de 20 para cinema, gravou dois discos com a banda Mulheres Negras e três com o Karnak.

E agora segue só, com O Infinito do Pé. Nele, o compositor parte de células mínimas, idéias fragmentadas, colagens, sons do mundo, samplers e misturas. Através do tempo, André virou um craque no estúdio. Ouvir seus discos é mergulhar numa experiência sonora repleta de ousadias.

Dessa vez resolveu tecer comentários sobre o infinito. E, com participações e samplers dos filhos, das tias e do pai, mistura o tempo e sons em profusão com versos do tipo: “todo golfinho tem um pouquinho de tubarão, todo ateu tem algum tipo de Deus no coração, todo cordeiro tem um pouquinho de lobo, todo geninho tem um pouquinho de bobo”.

Enfim, o infinito de André explora todas as possibilidades do som gravado. Se arvora para além da música e invade o mundo dos sons e toda a sua capacidade. André é um grande músico que usa a mídia disco para derramar arte e humanidades. E tudo isso com muita beleza.

Ouvir Badi Assad é uma experiência única. Tem uma relação orgânica com a música. O que faz, a princípio, é tocar violão e cantar. Mas vai muito além. Cria e recria sons, coloca sua música a serviço de sua forma de vida, onde se inclui a alimentação, espiritualidade, relacionamentos, expressão corporal etc. No começo e no final de tudo estão sempre seu violão e sua voz. E é basicamente com estes elementos que ela faz em Verde. Passeia pelas várias tonalidades da Amazônia, suas variações de tons exuberantes e ao mesmo tempo delicadas, quase imperceptíveis. O disco abre com a participação do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado e termina com um belo e singelo dueto com Toquinho no violão. Entre estes dois momentos um turbilhão de brasilidade e delicadeza, música para todos.

Para quem mergulha na aventura que Verde propõe, o disco guarda surpresas muito boas. É simples e lúdico, porém novo, ousado e instigante. O som de Badi é jazz, é chique, mas poderia muito bem estar na novela das oito. Seria bem-vindo, aceito e plenamente entendido.

Zé Renato é plural. Depois de vários projetos, aparece num álbum de fado com sotaque brasileiro, como ele mesmo define. Trata-se de Navegantes, feito em parceria com o grupo de cordas português Trinadus.

Impregnado de melancolia e beleza, o disco é um de seus vôos mais incomuns e corajosos. Em muitos momentos parece brasileiro, em outros, português. O tempo todo se fixa nas duas coisas e segue sendo uma terceira, impregnado da alma que incorporamos de nossos patrícios.

O grupo Trinadus merece uma observação à parte. O trio de cordas português formado por João Mário Veiga (viola e arranjos), Paulo Parreira (guitarra portuguesa), Maria Balbi (violino) tem uma sonoridade rara. Ao mesmo tempo em que tocam o fado de forma tradicional, são músicos com acento moderno, contemporâneo.

Mas o disco segue com muito mais. Alternando canções brasileiras com fados, foi criado um mosaico de boas surpresas que não se limitaram a homenagens dos brasileiros aos portugueses e vice-versa. Tudo se condensa e se transforma em excelente música do mundo. Pelo menos um canto dele que nos é muito caro e familiar.

Vindo das bandas do Rio de Janeiro chega uma boa nova. Trata-se da banda Garrafieira que, direto das noites do bairro da Lapa, parte para um belo disco do selo Biscoito Fino. Segundo consta, a banda já é bem conhecida dos cariocas e chega ao primeiro disco com um som que por todos os poros transpira Rio de Janeiro, seus malandros, botecos e becos.

Numa brincadeira entre tradição e modernidade, a banda desfia um rosário de clássicos da bossa-nova e sambas truncados de compositores que nem bem haviam nascido nos tempos áureos da música de salão, como Edu Lobo e Chico Buarque.

E traz também algumas composições próprias excelentes. O resultado está mais para o jazz e para a música instrumental brasileira moderna. Garrafieira lembra muitas vezes a lendária Bossa Rio, de Sérgio Mendes, com pitadas da Black Rio. Uma das diferenças é que muito do que faz são canções. Todas interpretadas, e muito bem, por Mariana Bernardes.

A banda Garrafieira é formada por músicos excelentes, alguns veteranos, como Marcelo Bernardes e Darcy da Cruz e outros novos no cenário, como o guitarrista e compositor Gabriel Improta, que assina, em parceira com Aldir Blanc, Belmiro Y Aninha, uma das melhores canções do disco feita em homenagem aos violonistas brasileiros. Garrafeira é muito isso mesmo. Uma festa em homenagem à música e aos músicos brasileiros.



No artigo

x