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dicas musicais de Julinho Bittencourt Por Julinho Bittencourt   Vanessa da Mata chega ao segundo disco que, dizem os entendidos, é o grande teste para os iniciantes....

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dicas musicais de Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 

Vanessa da Mata chega ao segundo disco que, dizem os entendidos, é o grande teste para os iniciantes. Se for mesmo, ela está aprovada com folga. Essa Boneca tem Manual, a começar pelo título, é um excelente álbum de inéditas com algumas regravações muito boas também. A primeira, que tira o ouvinte da cadeira logo de saída, é Eu Sou Neguinha, canção clássica de Caetano Veloso. O som da matogrossense radicada em São Paulo, sempre repleto de violões e sons acústicos, cede espaço para o pop de bom gosto, inventivo e repleto de frases musicais inusitadas e mínimas.

Mas logo em seguida ela volta ao seu som, que nos remete ao primeiro disco, e depois retorna ao pop e segue assim alternando até o fim. A razão para esse namoro com guitarras e sons despojados talvez seja a presença do produtor Liminha, o lendário ex-mutante e parceiro de Gilberto Gil, entre outros tantos. Liminha abraçou o projeto de Vanessa com tudo, inclusive assinando quase metade das canções do disco em parceria com a cantora e compositora.

As canções de Essa Boneca tem Manual são praticamente monotemáticas. Todas falam de amor, do cotidiano de quem ama e conseqüentemente de seus sonhos. Ela busca e descobre histórias ricas e divertidas do nosso pequeno dicionário amoroso. Tudo isso construído sob o manto de muito boa música.

Ouvir Rosa Estevez cantar é um prazer e era privilégio somente dos freqüentadores dos bons bares de São Paulo. Finalmente chega às lojas seu primeiro disco, Néctar. O repertório é formado por um montão de compositores desconhecidos, amigos e gente próxima que ela admira e resolveu gravar. O caminho mais longo e difícil, porém agradável e surpreendente para quem busca novidades.

Os arranjos e a produção ficaram por conta do ótimo pianista Beto Bertrami e o que se ouve é a música brasileira urbana típica de São Paulo, com seus sambas quebrados, harmonias elaboradas, modas e violas invertidas, violões acústicos e ritmos dobrados. Sobre a massa sonora simples, enxuta e muito bem executada, passeia a voz de Rosa, com destreza, muito suingue e alegria.

Néctar é a realização de um sonho, um objetivo definido há muitos anos. Mas parece muito mais. É resultado de trabalho maduro, bem pensado e elaborado, coisa pronta e profissional. Fruto de uma carreira que já existia para poucos e agora se abre ao grande público. O disco traduz a todos o mesmo prazer que sempre tivemos em ouvi-la. Mas, com seus conceitos, vai muito além disso.

Foi finalmente relançado em DVD o programa Ensaio, da TV Cultura, que tem a participação de Elis Regina. Ela é uma artista rara, motivo de orgulho e glória para os brasileiros. No entanto, neste programa dirigido por Fernando Faro na década de 70, a coisa se torna comovente. Difícil definir de outra forma. Por todas as razões que se possa imaginar e pela principal delas, que é o talento explícito, mostrado de uma forma como poucas vezes se pôde ver.

Elis, em 1973, quando gravou o programa, havia acabado de lançar seu disco que temOriente e Ladeira da Preguiça, de Gilberto Gil, Folhas Secas, de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, várias canções da dupla estreante João Bosco e Aldir Blanc entre outras tantas. Seu relacionamento, tanto musical quanto afetivo com o pianista e arranjador César Camargo Mariano estava no começo. Era uma fase de muita ousadia artística e relaxamento musical, que se refletia na serenidade da foto preto e branca da capa.

Ela discursa pausada e muito francamente sobre sua carreira, a música e os compositores que gosta, suas preferências e inclinações. Durante todo o tempo supera sua timidez, sempre à mostra com sutilezas que a câmera busca nos seus dedos das mãos retorcidos e no olhar perdido. Quando canta o assombro inunda o vídeo. É tudo verdade mesmo. Elis foi afinação e equilíbrio, tempo e espaço, som e silêncio, intuição e aprendizado. A maior de todas as cantoras.

O filme documentário Outros (Doces) Bárbaros, de Andrucha Wadington, que acaba de ser lançado em DVD, é primoroso. Nele o diretor registrou as duas apresentações dos Doces Bárbaros, em 2002, em Copacabana, no Rio, e no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e os seus respectivos ensaios.

Andrucha disse que se inspirou no documentário Simpathy for the Devil – One Plus One, de Jean Luc Goddard, feito em 1968, durante as gravações da canção homônima dos Rolling Stones. De fato existem semelhançasaqui e ali e as diferenças estão basicamente nos personagens. Assim como o diretor francês, ele consegue captar com maestria o jeito de ser dos nossos baianos.

Em dois momentos Gilberto Gil canta canções que havia acabado de fazer e, o que é melhor e mais curioso, fica por conta da reação dos amigos, deslumbrados diante da beleza de suas obras. Principalmente a marcha-rancho Outros Bárbaros, feita por ele para celebrar o reencontro, depois de 25 anos. Andrucha filma Gil mostrando a composição, mostra reações e, finalmente, a apresentação no palco. Mostra, enfim, a obra em movimento.

O diretor teve o mérito de captar a alma dos qautro em ebulição, em pleno exercício da criatividade. À noite, depois do show, todos perfilados nas cadeiras do avião comentam feito meninos o que se passou. Estão exultantes, felizes da vida, assumindo alguns erros e celebrando o acerto geral. A impressão que fica é que ali se dá o balanço de tudo. E com muito ainda por vir.



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