Toques musicais

Dicas culturais Por Julinho Bittencourt   Pouca gente sabe, mas nada foi tão criativo e bem realizado, durante a década de 80 quanto o Grupo Rumo. Era...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 

Pouca gente sabe, mas nada foi tão criativo e bem realizado, durante a década de 80 quanto o Grupo Rumo. Era completamente inusitado, novo e referenciado em clássicos da canção brasileira. Todos os seus discos acabam de ser relançados, pela primeira vez, em CD. Uma festa para os poucos fãs paulistanos e uma possibilidade infinita de novas descobertas para a garotada de todas as idades. As reedições foram feitas pelo selo Palavra Cantada, de Paulo Tatit, guitarrista do grupo, e tem distribuição pelo selo Eldorado.
O que está escondido por trás desses seis discos do Grupo Rumo ainda está pra ser descoberto. É música de alta qualidade que ainda hoje conserva o frescor, a novidade e o experimento. Tiveram o mérito também, ao contrário de vários de seus companheiros da “vanguarda paulistana”, de realizar produtos bem acabados, com qualidade sonora e ótimas capas. A impressão que deixa hoje é que cor­reu no tempo certo, enquanto todo a indústria andou pra trás.

Como também corre para o futuro o notável e corajoso Água de Beber, terceiro disco do Quarteto Maogani, pela Biscoito Fino. O objetivo do grupo, plenamente alcançado, é mostrar a fonte em que bebeu, e também um pouco do que produziu, o maestro e compositor Antônio Carlos Jobim. Água de Beber leva o sobrenome de Jobim e Suas Fontes.
O resultado sonoro é impecável e novo, um Jobim reciclado, com sons de um Rio que o maestro habitou e transformou, e que agora o quarteto traz de volta. Sons com sabor de coisa antiga, dentro de uma linguagem muito moderna.
Além da música de Jobim propriamente dita, o quarteto vai buscar as influências do compositor: gente por quem o próprio maestro, em vida, declarou sua paixão. E o grupo se atém a seis nomes pra lá de ilustres: Radamés Gnatalli, com Canhoto, Ary Barroso e a sua Morena Boca de Ouro, Custódio Mesquita e o sucesso Mulher, Villa-Lobos com Canto do Sertão, das Bachianas Brasileiras n.º 4, Pixinguinha com Desprezado e por fim seu inseparável parceiro Vinícius de Moraes, que, poucos sabem, era também um excelente melodista. E a prova está na bela Valsa de Eurídice, do musical Orfeu da Conceição. A valsa tem uma ótima versão com Baden Powel. O Maogoni encontra as tintas dos mestres e faz a sua própria, muito boa também.
Uma das peculiaridades de Água de Beber, do Quarteto Maogoni, é a total falta de concessão. O disco é pensado do começo ao fim, sem nenhum truque. Em vários momentos, como em Canto do Sertão, beira o cerebral. A ousadia na criação de texturas, harmonias e outros sons não tem limites. Não há nada que pareça banal ou repetitivo. É muito bonito e bom de se ouvir, fluido.

E ainda na música instrumental brasileira, há duas coisas muito interessantes e que, por si só, já fazem valer a pena o disco Música das Nuvens e do Chão, do bandolinista Hamilton de Holanda. A primeira delas é que se trata de um músico precoce, espontâneo e com um talento muito raro. A outra fica por conta do som que faz. Numa seara em que predomina o tradicional, Hamilton inova o choro sem mudar, adulterar e muito menos banalizar o ritmo.
O disco apresenta uma variedade de clássicos e canções novas. Vai de Cartola a Djavan, brinca com os modernos Piazzolla e Egberto Gismonti, desmonta Baden Powel e convida amigos e colegas para a farra. Participam do disco o gaitista Gabriel Grossi e o violonista, também virtuoso e precoce, Yamandú Costa. Além deles, o multiinstrumentista Hermeto Paschoal colaborou batizando o CD com uma canção sua e tem declarado aos quatro ventos que Hamilton é o maior bandolinista do mundo. E deve ser mesmo. Ou está muito próximo disso. O fato é que a música que toca salta aos ouvidos de forma única, e não é de hoje.
O clima entre a banda e seus convidados é muito relaxado e propenso ao improviso. Entre diversos momentos de um disco excelente de ponta a ponta, vale destacar Céu de Brasília, bela e tortuosa melodia do mineiro Toni­nho Horta, Ponteio, de Edu Lobo e Capinam numa interpretação ampla e livre, além da própria Música das Nuvens e do Chão, excelente melodia de Hermeto pela gaita de Grossi. O disco é de outro planeta.

Exatamente como algumas coisas ou pessoas que, por várias razões, parecem mesmo não ser deste mundo. Algumas pela graça e genialidade, outras pela estranheza ou pelas duas razões. Neste João Gilberto in Tokyo parece que foram juntadas várias delas, ou seja, o próprio João e sua platéia, os japoneses. Ele, o gênio absurdo e abusado, e eles, o único público com disciplina suficiente para fruir como se deve – ou pelo menos exige o protagonista – a sua música, o seu encanto. E deu no que deu. João fez o melhor disco ao vivo de sua carreira em show memorável, no qual não se ouve uma mosca ou suspiro durante os acordes e canções. Apenas aplausos entre os sons, de maneira breve e entusiasmada, para ao final terminar com uma ovação de 20 minutos.
De fato, em João Gilberto in Tokyo há algo estranhamente inédito, melancólico e límpido, que se processa nos seus sussurros e notas, e no violão magistral, como o que ele lança mão de uma só vez, com muita sim­­plicidade, de todas as suas invenções. O resultado é um registro comovente, repleto de honestidade e genialidade artística.



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