Transgênicos

Crônica Por José Roberto Torero   — Meu amor, dessa vez você se superou, este foi o jantar mais delicioso que eu já provei em toda a...

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Crônica

Por José Roberto Torero

 

— Meu amor, dessa vez você se superou, este foi o jantar mais delicioso que eu já provei em toda a minha vida!
— Querida, eu tinha de fazer algo especial para comemorar a data do nosso casamento.
— Dez anos de amor!
— E de muita felicidade!
— Carluís!
— Cecílvia!
— Carluís!
— Já chega dessa brincadeira, Cecílvia! Me diz o que você achou dos pratos.
— Puxa, nem sei por onde começar.
— Comece pelo começo: a entrada. Você gostou da salada?
— Deliciosa! O broconafre estava super apetitoso e a agriúcula deu aquele toquinho amargo que eu adoro!
— Fala do risoto de mandioqueijo.
— Ficou ótimo! Cremoso, leve… Um sonho! E pensar que tinha gente que criticava os trangênicos!
— Você não vai falar nada do assado?
— Foi o melhor que eu já provei. Como é mesmo o nome dessa carne?
— Padeiro.
— Padeiro? Isso é o que eu estou pensando?
— Claro que é: um híbrido de pato com cordeiro. A carne tem um pouco da consistência oleosa do pato e um tanto da tessitura fibrosa do cordeiro. Quando estava dourada, acrescentei umas fatias de batatanhame e folhas de alfacelga. Espero que você tenha gostado?
— Gostado!? Adorei! Ainda bem que tenho duas bocas!
— Ora, Cecílvia, não ficou tudo isso… Se bem que, enquanto eu estava ali preparando, até o nariz da minha nuca sentia o cheiro.
— Eu não disse? E a abaxanana flambada de sobremesa?! Divina! Onde você aprendeu essa receita?
— Passou outro dia na televisão. Aquele programa do rapaz que tem nariz de porco…
— O das ventosas?
— Não, o dos tentáculos. Ele sugeriu uma cauda de morangoiaba, mas da última vez que você comeu morangoiaba apareceram aquelas espinhas, não foi?
— Sim, no seio das minhas costas. Foi horrível! Puxa, que bom saber que você se interessa pelo meu bem-estar!
— Eu me interesso por muitas coisas em você, boneca.
— Se você continuar falando essas coisas eu vou ficar listrada de vergonha!
— Tudo bem, você fica linda de verde e rosa.
— Sabe de uma coisa, Carluís querido?, acho que esse jantar estava meio afrodisíaco…
— Esse era o plano.
— Seu malandrinho!
— E nem adianta fugir, querida, com minhas três pernas eu alcanço você num pulo.
— Fugir? De jeito nenhum. Eu vou é sentar no seu colo. Chega a cauda pra lá.
— Isso, agora me dá um beijo, querida, mas não estica a língua até o meu esôfago.
— !…
— !!!….
— Xi, Carluís, o que é isso?
— Ah, não…, de novo!
— Oh, meu Deus, aquela fuligem preta e fedorenta está saindo pelos seus poros!
— Droga! É sempre assim. Basta eu ficar excitado que…
— Você precisa ir ao médico.
— Eu já fui. Ele disse que é um problema com as guelras.
— Vamos parar por aqui. Lembre-se, querido: saúde é o que interessa, o resto não tem pressa.



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