Uma aliança necessária

A experiência que vivemos em São Paulo demonstrou claramente que quanto, maior a afinidade com os interesses da comunidade mais pobre, melhores e mais eficientes são os resultados. Pois essa população identificou-se com as...

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A experiência que vivemos em São Paulo demonstrou claramente que quanto, maior a afinidade com os interesses da comunidade mais pobre, melhores e mais eficientes são os resultados. Pois essa população identificou-se com as políticas de educação transporte, inclusão digital, renda mínima e outras

Por Kjeld Jakobsen

 

O ano que se inicia é também o momento em que é ultrapassada a marca de mais de 50% da humanidade vivendo nas cidades. Este índice já é, em média, superior a 90% nos países industrializados do hemisfério norte e a 70% na América Latina e ainda inferior a 50% na África e Ásia. Este fenômeno está ligado ao processo de industrialização do Século XX e introduziu uma série de novos temas na agenda social em função das mazelas que os grandes e repentinos assentamentos urbanos têm provocado, particularmente em relação a renda, moradia, saúde, educação, meio ambiente, saneamento básico, transporte e acesso à água potável.

Esta agenda é compartilhada tanto pelo movimento social, mesmo que pontualmente, quanto pelos poderes locais, ao menos os progressistas, representados por prefeituras ou governos regionais. Inclusive, tem-se verificado que em função das políticas neoliberais de “Estado mínimo” e concentração de renda, aumentam as demandas sociais urbanas e diminuem os recursos para satisfazê-las.

Portanto, existe um interesse comum tanto em combater o neoliberalismo, quanto em buscar soluções para combater a pobreza urbana e desenvolver políticas sociais de amplo alcance. A experiência que vivemos em São Paulo durante a gestão Marta Suplicy demonstrou claramente que, quanto maior a afinidade das políticas públicas com os interesses da comunidade, particularmente a mais pobre, melhores e mais eficientes são os resultados, bem como os próprios desdobramentos políticos. Em 2002, Lula obteve pela primeira vez a maioria dos votos para presidente na cidade de São Paulo e agora, em 2004, a candidatura de Marta à reeleição obteve a maioria dos votos nas regiões mais pobres, onde a população identificou-se com as políticas desenvolvidas pela administração, particularmente na educação, transporte, inclusão digital, renda mínima e outras.

Sem deixar de lado aspectos importantes e até complexos nas relações entre partidos, Estado e movimento social, como o respeito à autonomia e aos papéis de cada um, há, no entanto, distâncias diferentes entre eles no tocante ao tipo de esfera de governo. O governo federal, por exemplo, tem mais poder que o municipal para resolver definitivamente as carências da população, mas tem maiores dificuldades para dialogar com os usuários. Já a esfera municipal está mais próxima da população e em melhores condições de discutir suas necessidades.

O papel do governo municipal de Porto Alegre na viabilização de quatro edições do Fórum Social Mundial é mais um exemplo dessa possibilidade. Na verdade, o neoliberalismo estimula o individualismo e beneficia uma minoria da população mundial ligada às corporações transnacionais e ao capital financeiro. A maioria da população encontra-se excluída desses benefícios e mesmo empresários, comerciantes e proprietários rurais de pequena dimensão são também vulneráveis aos movimentos do grande capital.

O desafio é justamente unir essa maioria e formar uma grande aliança social. Aliança não significa adesão e nem que todos persigam exatamente os mesmos objetivos. Mas é perfeitamente possível encontrar pontos comuns, numa conjuntura difícil, que permitam construir a parceria necessária entre o movimento social organizado, sociedade civil em geral, partidos políticos progressistas e governos, particularmente os locais, para enfrentar o neoliberalismo e as políticas multilaterais e nacionais que o sustentam. O Fórum Social Mundial é atualmente o único instrumento e espaço para promover este projeto de maneira arejada, progressista e sem sectarismos, inclusive com uma dimensão internacional.

Kjeld Jakobsen é atualmente presidente do Instituto Observatório Social e membro da diretoria do Instituto de Desenvolvimento de Cooperação e Relações Internacionais – IDECRI e foi Secretário Municipal de Relações Internacionais de São Paulo de 2003 a 2004, Secretário de Relações Internacionais da CUT de 1994 a 2003, tendo representado a central no Conselho Internacional do FSM.



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