Virada à esquerda

Depois de Lula, Kirchner e Chávez, o favorito nas eleições uruguaias, Tabaré Vázquez, pode tirar o governo uruguaio das mãos da direita, que controla a política num bipartidarismo que existe desde a independência Por Fredi...

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Depois de Lula, Kirchner e Chávez, o favorito nas eleições uruguaias, Tabaré Vázquez, pode tirar o governo uruguaio das mãos da direita, que controla a política num bipartidarismo que existe desde a independência

Por Fredi Vasconcelos

 

No poder desde 1828, ano da independência em relação à Espanha, os partidos Nacional (Blanco) e Colorado podem, pela primeira vez, perder as eleições presidenciais no Uruguai. Pesquisas feitas no começo de setembro, cerca de 50 dias antes das eleições de 31 de outubro, indicam que o candidato do Encuentro Progresista Frente Amplio, Tabaré Vázquez, de uma coligação que une comunistas, socialistas e a centro esquerda, tem 52,5% dos votos, contra 34% de Jorge Larrañaga (blanco) e 11,5% de Guillermo Stirling (colorado, candidato do atual presidente).

Esta não é a primeira vez que Tabaré, médico oncologista eleito em 1990 como intendente (prefeito) de Montevidéu, disputa as eleições presidenciais com chance de vitória. Ele foi candidato em 1994 e em 1999, tendo terminado o primeiro turno como vencedor, com 38,95% dos votos, contra 31,84% de Jorge Batlle (colorado). No segundo, as posições se inverteram, com Batlle ficando com cerca de 1,1 milhão de votos (51,59%) e Tabaré com 972 mil (44,07%), principalmente por causa dos votos do interior, já que o candidato do Frente Amplio ganhou na Grande Montevidéu.
Neste ano, as chances de Tabaré são maiores, reconhecidas até pela Casa Branca, em Washington, que parece não se sentir à vontade com a eleição do quarto presidente, digamos, mais à esquerda – com uma postura crítica ao modelo neoliberal – na América do Sul (ao lado de Hugo Chávez, Lula e Néstor Kirchner), e busca prevenir-se.

A poucos dias das eleições, o governo uruguaio fechou um pacto para “proteger” investimentos dos Estados Unidos. Entre as salvaguardas está a permissão para que empresas norte-americanas processem o Estado uruguaio caso se julguem prejudicadas por mudanças em legislações ambientais, sanitárias ou traba­lhis­tas, mecanismo similar ao que foi implantado no Acordo de Livre Comércio Nor­te-Americano (Nafta). Lá, empresas que se sintam prejudicadas têm suas queixas analisadas por comissões de arbitragem externas ao Poder Judiciário dos países.

O acordo bilateral, firmado em 7 de setembro, foi negociado por Robert Zoellick (classificado em 2002 como “o sub, do sub, do sub”, pelo então candidato à presidência Lula), e é parte das “relações carnais” que o atual governo estabeleceu com os Estados Unidos, em detrimento do Mercosul. O acordo ainda será votado pelo Congresso dos dois países, mas, caso aprovado, pode criar barreiras para a prioridade ao Mercosul defendida por Vázquez.

Proer Uruguaio A defesa dos interesses internacionais não é novidade no governo Batlle. Exemplos claros foram as muitas medidas para “proteger” as empresas adotadas durante a crise bancária por que o Uruguai passou nos últimos anos. Numa delas, ainda pouco explicada, foi feito um acordo secreto com os três principais acionistas do Banco Comercial (JP Morgan, Dresdner Bank e Crédit Suisse).

Depois de o banco quebrar, foi anunciada uma operação de socorro em que os sócios estrangeiros aplicariam mais de 100 milhões de dólares para salvar a empresa. Porém, essa “capitalização” foi, como se descobriu mais tarde, um empréstimo ao governo uruguaio em que se garantiu aos três sócios a possibilidade de retirar o di­nheiro a qualquer momento sem interferência da Justiça ou do Banco Central e pelo qual o Uruguai aceitou pagar juros de mercado. Em síntese, os três bancos estrangeiros salvaram uma empresa pela qual eram responsáveis repassando todos os riscos e a conta para o governo.

Além dessa operação, descoberta quando os termos do acordo secreto foram divulgados na Internet, o socorro aos bancos uruguaios consumiu outros bilhões de dólares do orçamento do governo, ainda não calculados. E isso em meio a uma crise econômica que levou, desde 1998, a uma queda de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), à duplicação do desemprego – cujo ápice foi de 20% no fim de 2002 –, à deterioração de 30% no valor dos salários e ao aumento da desigualdade (hoje, um terço dos uruguaios vive abaixo da linha de pobreza). No começo de 2003 o PIB ainda caiu 7%, começando a se recuperar no segundo semestre, o que levou a um crescimento de 2,5% no ano. A tendência se mantém em 2004, principalmente por causa do crescimento da Argentina e do Brasil e da valorização das commodities exportadas.

Mas essa recuperação parece não se refletir nas eleições, tanto que se fala na renúncia do candidato da situação, Guillermo Stirling, que desistiria antes do primeiro turno caso as intenções manifestadas em pesquisas eleitorais caíssem para baixo dos atuais 11%. A renúncia é negada pelo candidato, mas tratando-se de uma elite há tanto tempo revezando-se no governo entre blancos e colorados, Tabaré pode esperar por manobras desesperadas pelo poder.

Veja trechos do pronunciamento do candidato do Frente Amplio, em reunião com empresários brasileiros na sede da Fiesp, em setembro, a que Fórum teve acesso. Ficou clara sua intenção de buscar investimentos brasileiros e de dar garantias de que a transição será feita com a manutenção de regras e contratos. Outro ponto de destaque foi a defesa do fortalecimento do Mercosul, com o qual se comprometeu e disse ser essencial. Para isso propôs a criação de um parlamento do mercado comum.

Eleições As eleições que acontecerão em 31 de outubro são decisivas para nosso país. Por um lado, estará um Uruguai antigo, solitário e ligado a seu próprio passado e resignado ao futuro, que se apresenta como inexorável a seus atuais governantes. Por outro lado, há o projeto de desenvolvimento produtivo sustentável que os progressistas uruguaios têm como estratégia de país, que pode ser sistematizada em cinco grandes áreas. Em primeiro lugar, temos o Uruguai Social, porque a maior riqueza de um país é sua própria gente e em nosso país aproximadamente um terço da população vive em condições de pobreza e desamparo social. Em segundo, temos o Uruguai Pro­­dutivo, já que para conquistar uma agenda de desenvolvimento sustentável o país precisa reorganizar sua economia, estabelecer regras do jogo claras com o mercado, requalificar o valor do trabalho, gerar empregos, produzir, competir e vender. Além disso, há o Uruguai inovador que, para produzir, competir e vender no mundo atual, precisa incentivar a educação, a investigação científica, os avanços tecnológicos e as inovações, a criação de novas ferramentas, processos e produtos, criação de novos bens, novos serviços e maior bem-estar. Em quarto lugar, cremos na sociedade, no Uruguai democrático. Não ig­­no­ra­mos sua complexidade e seus conflitos, mas não os dramatizamos, e sim apontamos caminhos para articular um futuro comum da sociedade uruguaia. Talvez, ao fim e ao cabo, a razão da política e a responsabilidade dos governos seja gerir o presente, adiantar-se ao futuro e, sobre todas as coisas, acompanhar as pessoas para fazer uma nação. Por fim, há o Uruguai integrado à região e ao mundo. Ne­nhum país poderá lucrar com a solidão. Tampouco ignoramos a complexidade dos processos de integração, mas assumimos a integração regional como uma verdadeira estratégia de país.

Confiança A chave de qualquer ambição de futuro, de qualquer programa de desenvolvimento é a confiança. A gravíssima crise que castiga nossa sociedade, e cujas conseqüências infe­lizmente não será fácil consertar, teve como componente fundamental um déficit de confiança. Perda de confiança num projeto de ­país da imensa maioria da sociedade, dos agentes econômicos, dos investidores, dos empresários e de todos nós que compomos o corpo do país.

Crise econômica As dificuldades atuais no Uruguai obedecem a uma combinação de circunstâncias externas adversas, entre elas a desvalorização da moeda brasileira, a crise argentina, a queda das commodities e também os flagrantes desacertos de sucessivos governos nacionais – tais como a expansão fiscal durante o ano eleitoral de 1999 e a manutenção de um déficit fiscal elevado, a demora em processar um ajuste de câmbio e a incapacidade de conter a corrida bancária durante o primeiro semestre de 2002. Tudo isso junto com fragilidades estruturais como a crescente dolarização da economia, a ausência de redes de segurança no sistema bancário e a persistente disfuncionalidade entre crescimento do gasto público e seu reduzido impacto sobre a produtividade.

Parlamento do Mercosul A criação de um Parlamento do Mercosul é uma decisão política fundamental, e esse tema deve ser discutido em profundidade para possibilitar a articulação das agendas sociais, políticas e econômicas presentes e para completar o processo de integração assegurando a transparência e a democratização.

fredi@revistaforum.com.br



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1 comment

  1. aeeeeeeeeeeeeeee Responder

    iisso é uma merda


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