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Edição Eduardo Maretti Por   Paraíso  Moacyr Scliar Papai: o lugar é tão bonito – um vale verdejante entre altas montanhas – que você poderia, facilmente, identificá-lo como...

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Edição Eduardo Maretti

Por

 

Paraíso 
Moacyr Scliar

Papai: o lugar é tão bonito – um vale verdejante entre altas montanhas – que você poderia, facilmente, identificá-lo como o Paraíso; mas esta é a única indicação que vou lhe dar a respeito. Não tente, como de costume, bancar o espertinho e querer descobrir coisas, porque você não vai conseguir. Como não conseguirá me achar. O adeus foi definitivo.
Ah, sim, quanto à Árvore. É enorme. Daqui de cima a gente tem a impressão de estar em um outro mundo, um estranho mundo vegetal, feito de ramos, de folhas, de frutos, um verdadeiro labirinto verde, no qual é fácil se perder principalmente quando – meu caso – a gente quer se perder. Estamos suspensos entre o céu e a terra, sem visão do céu, sem visão da terra, sem visão de nada. Exatamente como queríamos. Queríamos sumir, e sumimos. Estamos aqui há – quantos dias, quantas semanas? – não sei dizer, perdi a noção do tempo, desde que o nosso guia, esse mesmo que se encarregou de botar esta carta no correio, foi embora.
Aqui estamos, papai, Guido e eu. Guido você não conhece, mas se conhecesse você o odiaria, você veria nele o demônio. E de certo modo ele é um demônio, um demônio sedutor que eu amo. Ele tem quase a sua idade; mas, diferente de você, não venceu na vida. Era um daqueles hippies dos anos sessenta, e continua a sê-lo. Um desclassificado você diria dele. Um maluco. Sempre quis viver na natureza e foi ele quem, junto com o guia, achou este vale. Foi ele também que achou a árvore. A nossa árvore, ele disse, quando a viu, e estava absolutamente certo. Nesta árvore fizemos o nosso ninho, o ninho do amor. Aqui em cima é só sexo, sexo, sexo. Nosso alimento são os frutos da própria árvore; frutos abundantes e deliciosos.
Não tente encontrar-nos, papai. Mesmo que você nos localizasse, o que é impossível, você não conseguiria nos convencer a descer, e nós não permitiríamos que você subisse. Há uma escada de cordas, aqui, que o guia deixou, mas não pretendemos usá-la e muito menos pretendemos deixar que você a use. Em seu próprio benefício, aliás. Para quem tem uma seqüela de acidente vascular cerebral uma escada dessas seria um perigo. Provavelmente você cairia e quebraria o pescoço. Isto se você nos descobrisse, coisa que não acon­tecerá.
Quer um conselho, papai? Esqueça-nos. Esqueça sua filha e o amante. Esqueça o paraíso, esqueça a árvore.Ah, sim, esqueça a escada de corda. Ou pense nela como a serpente, aquela que, na Bíblia, induziu Adão e Eva ao eterno pecado.

As palavras podres José Arrabal

naquela cidade havia, no coração da cidade, a estátua de um gigante, lá sendo como uma estrela de quatro pontas, estrela, indo três vezes por dia, o povo lá do lugar por ali se reunia, prestando mil reverências à estátua do gigante, continuando a viver neste ato secular transcrito num pergaminho por fios tão preciosos muito bem emaranhados, enredados e tecidos, que ele mais parecia um eterno pergaminho, rezando que se devia sempre reverenciar a estátua do lugar: e a sombra dessa estrela atravessando a cidade por toda de ponta a ponta como grande nuvem negra e todos pedindo nada, pra ela pedindo tudo, e tudo assim se passando com ninguém mais conseguindo o que se quer conseguir, na cidade a esperança das promessas do gigante e uns falando pra outros : não é tempo, não é vez, e outros falando ainda : não é bem ocasião, e a grande maioria num balançar de cabeças pruma frase, quando não, pra outra frase também : tudo à sombra do gigante, em tudo uma escuridão e ninguém mais se entendendo e o povo todo comendo, comendo e mais comendo : tudo à sombra do gigante : o gosto da frustração ; foi quando aí ele veio, montado no seu galope, gritando do coração, gritando pro quem de alguém : help me toquem help help me toquem help help me toquem help (e a praça no kirieleisson) : e o deixaram que ouvisse a canção do mesmo nome, por várias vezes ouvindo, por mais vezes só gritava : help me toquem help help me toquem help help me toquem help : e trouxeram mais canções de todo tipo canções, vinho, sal e formigueiro, tensão para o aventureiro à procura de uma estória por outra hestória viver, sendo como ele chegou : cavalgando, em seu cavalo, vindo aflito, cavaleiro, índio, amante, guer­reiro, só sendo assim que chegou por help me toquem help, e ninguém sabendo ao certo na verdade o que queria nesse jogo de palavras, jogo sem culpa por vida na morte, dele jogada : a cidade reunida lá na praça da cidade, essa cidade do Hum, nos braços somente o não e desses braços pra mãos, desvairio desvairado : (eu quero também da estória fazer hestória sem sina, sem essa carnificina dessa sina naventura : violando violeiro as regras desse lugar) : o povo todo na praça não vendo no seu destino o cavaleiro guerreiro : ah! se aparece minino, jovem príncipe encantado, bem nele, no seu distino, parava essa amolação : e ele fala não fala do que ele sente do ar : mas que estória você trouxe, que estória cê vai levar : fala o povo do lugar : e ele no cavalgar, cavalgar mais cavalgar : help me toquem help : tudo à sombra do gigante pousando nele o seu olho, e ele com seu olhar de olhar de ver olhar vê a estátua do gigante e o help talvez por lá : sendo aí que de repente, percebendo ser escuro embaixo dela o seu corpo a estátua escurecendo o seu eu por isso é meu é meu é meu e não vai ser nunca teu esse corpo viajante, esse peito, esses braços, essas mãos : já nele, ele, sendo então que percorreu mais ele seu cavalgar por help me toquem help pra com meu corpo gozar sem a sombra do gigante nunca mais me sombrear : (e a praça no kirieleisson) : vai ele pegando a corda, uma corda com que acorda acorde dele na mão : fazendo na corda um laço, no ar o laço um traço, no pescoço do gigante aperta a corda : acorde amante : e tudo no cavalgar : a corda lá no lugar, ele puxando pra cá, o gigante para lá, até que a corda rangeu : corda acordando o ar : (como é que vou te chamar, te dizer pra vir comigo, se o gigante ainda está lá : a corda no acorda o ar : help me toque help!) : e ele puxa outra vez, puxa pra lá e pra cá : dessa vez eu vou puxar mais forte do que o ar : e a estátua se contorce, o corpo grande cedendo o gigante assim tombando, caindo, se estatelando : o corpo se esborrachando, no chão da praça caindo, na praça do kireleisson : e a cidade ferida que mais ferida não há nessa gente escurecida por nunca mais se tocar : o gigante lá no chão, seu corpo de pedra um corpo, um corpo todo quebrado, pó de pedra retalhado : e todos lá na cidade nada de nada entendendo, sem a sombra se perdendo : (te convido pra viagem, viagem de coração, na barafunda dos braços, desses braços pressas mãos, essas mãos do desvairio, nas mãos seguro desvio por onde se vai passando, no caminho até os pés, pralém do ventre rachado dessa estátua das cidades : com o que eu vou contar como é que fui me encontrar, por isso que eu derrubei o gigante do lugar : sua sombra, na cidade, eu, querendo clarear em mim o que escureceu) : e da queda da estátua, do ventre suas entranhas, entranhas tão entranhadas da estátua esborrachada, destrincadas desse ventre, buraco desse destino de insólita esperança nessa história intestino : palavras e mais palavras e mais palavras palavras, palavras apalavradas por palavras mais palavras palavras assim saídas, saídas e assim jogadas, montoeiras de palavras, palavras empudoradas, pudorentas, fedorentas, palavras todas palavras na asneira das palavras, tudo palavra cifrada, vendida ou já comprada, troca troca com palavras nas entranhas dessa estátua, dessa estátua dessa lenda que se é triste, é engraçada, lenda jamais pensada, palavras amontoando em palavras montoadas, uma enchente de palavras, palavras todas dentadas, palavras tudo facada e a cidade inundada (a praça no kirieleisson), palavrio apodrecendo, palavras assim fedendo : mais eu não sei que fedelho, que fedentina de espelho essa estátua derrubou, diz a cidade assustada, já bem meio empalavrada de palavras soterrada, essa cidade perdida num blá blá blá que é de nada, nos grupinhos dos grupões, nos grupelhos dos grupais, gente que fala demais, no falando não dizendo : o povo da mascarada, por culpa sempre vivendo nessa cidade do Hum, do não ao sim para ti, e na cidade : palavras, em fedentina fedendo, e em tudo já sentindo, em tudo mais tudo sendo inundação de palavras : e o gigante lá no chão : palavras dele saindo, e o povo das palavras, nesse ar apodrecido de intimidades perdidas por ruas e avenidas : eu te quero, não te quero, te quero mais não te quero, no que eu quero o meu não quero, quero não quero quero, por palavras minha vida : sempre assim só fedentina desse ventre do gigante : a estátua lá no chão e o coração do rebelde, agora, já lá no ar : por cavalgar, cavalgar, cavalgar : e seus olhos começando a perceber as palavras formando só lodo grosso sobre os jardins da cidade, nos canteiros, nas calçadas, nas portas mais animadas (e a praça no kirieleisson) : os botecos mais perdidos, mesmo os bares de amigos, as palavras inundando, um lodo da cor do sangue do prazer fazendo mangue de palavras pelo chão, dois palmos de lodo então, três palmos de lodo então, no chão, todo um lodaçal, todo um lodo de palavras, nessa lenda dessa história se é que a minha memória não falha, não falha, não, essa asneira de palavras, uma grande montoeira, em tudo, tudo palavras e todos mais se vivendo só palavras mais valendo com isso representar, falar e matraquear, com tanta pose posar : e a cidade inundada com a fedentina no ar : promessas apalavradas, espere por esperar, pois quanto eu te quero dar e quanto mais te doar e mais te quero ensinar, gritar e conceituar com palavras coroar : eu não sei o que de mim mais você pode esperar (endiabradas palavras, palavras apodrecidas da praça no kirieleisson, palavrada apalavrada na teoria arrumada) e ele, lá, só no seu cavalgar e sempre mais cavalgar por help me toquem help para tudo eu perceber e mais tocar e sentir : (a cidade já sem sombras, mais ali só palavrada, uma cidade atolada) : e ele querendo ar pra dali se retirar, de lá deixando as porteiras : sendo então que percebeu que por toda a inundação, por todo o cheiro de asco no chão apalavrinhado, foi então que percebeu que ele sem cerimônia, feito criança de berço, bicho fera de caverna, não precisava temer o que era se perder : por todo esse lodaçal por palavras patinava, sendo aí que percebeu adonde ia chegar com a sola dos seus dois pés, patinando nas palavras : quando ele mais se sente já mascando essa semente por tudo o que acontecia

ele no seu dia a dia : (não havendo delegado, nem prefeito da cidade, padre ou autoridade que conseguisse impedir a inundação de palavras de mau cheiro alastrada) : e ele por cima delas com seus pés em patinado brincando feito um coelho, com palavras, e assustado : o pessoal da cidade nas palavras se atolando, no mau cheiro se afundando : ele nelas patinando feito brasa voadora, ele não querendo nada, só brincar de patinar mesmo que gritando help brincando de patinar na brincadeira voando : mais eis que então, de repente, cada dente nele vendo, vendo nele o diferente, um dedo mais de repente, outro dedo, outro dente, mais de uma porção de gente já começando apontar, já começando a marcar, já começando a culpar (só por ele patinar no lodaçal de palavras, nessa lavra dessa vida, na hora do dia-a-dia) seu mundo de fantasia : de repente e toda a gente já começando a gritar, no mais falar por dedar, endurecer, dedurar : e na frente essa semente, esse homem simplesmente assim então diferente, muito mais homem que gente, patinando nas palavras, mostrando seu coração, mostrando seus pés no chão : com fantasias brincando, no que se pode brincar, dizendo sem só falar, dizendo sem só posar: e ele, vivendo nele, transparente feito o ar, só querendo cavalgar, cavalgar, mais cavalgar, enquanto pede pro mundo : help me toquem help (em tudo uma brincadeira, mais quedê minha companheira, mais cadê meu companheiro no help me toquem help : só isso ele querendo), procurando no encontrar; mais dedos por cima dele, ele nele então já sente : é ele o diferente : e os dentes querendo ele : é ele é ele é ele, por essa culpa é ele, por essa culpa se armando a cidade reunida (a praça no kirieleisson) : por morte dele dá vida : começa então a corrida bem atrás desse rebelde as pessoas se atolando com palavras se falando por toda uma empulhação de promessas esperanças : nada delas, tudo não, cada qual sem cada um, nesse sonho de palavras tudo representação : sou o bom : mas não é não : eu quero a tua decência : minha vagem : minha bunda : vagabunda dessa imunda vagina de arribação : vai ser mais de todo mundo : da decência vai ser não : eu compro essa sacanona : essa é virgem : não é não : o outro é um sacanão : essa não tá à venda : a outra é só pra leilão : e tudo no quero o jogo, jogo da dominação : quem dá mais : eu não dou não : eu dou sim : toma um milhão : compro e vendo o teu cacete e te meto esse porrete : no mercado a fumaceira, atoleiro de palavras na praça do kirieleisson : e a cidade assim indo, perseguindo esse rebelde patinando sobre o não : as pessoas se atolando e ele no patinado, só indo por cavalgar, cavalgar, mais cavalgar e mais ir sem ter onde chegar : e ele no só querer do seu deixa acontecer pras mãos e por si buscar o estar de pé ficar, dessa lenda proutra lenda, no seu me toque encontrar o help me toquem help o help por que ele quer : e estórias vai contando, sem meias, peias ou ruas, pralém dalém muito além da grande perseguição dos dentes aos diferentes : ele só querendo alguém, alguém de quem sente o ar, e além, só patinar : help me toque help (e a praça no kirieleisson) : os dentes sempre afiados pra morder os diferentes : e ele, embora correndo, patinando em brincadeira, gritando pra quem ouvisse : que tal um de igual pra igual, cada um nu cada qual : e a praça, toda surda, só querendo abocanhar, abocanhar o rebelde, e os anos assim passando, sendo que, no tendo sendo, os dentes no atrás correndo, os filhos comprometendo por tudo mais na caçada de esperanças perdidas, promessas por outra vida e o massacre das sementes dos homens já diferentes : (às vezes chegando perto) : ninguém já sabendo mais o porquê dessa caçada, apenas abrindo os dentes para mais uma dentada no diferente a facada : e ele querendo nada, só patinar nas palavras e o help me toquem help nessa lenda, distrincada : um punhado de versejos, arranjos e mil solfejos, nesta estória já sem fim dos braços pra essas mãos pro resto do corpo inteiro, hestória do coração : e o gigante lá no chão, a cidade apavorada, a pedra na porta da estrada, só corre corre e mais nada : tudo tudo palavrada : e os corpos das pessoas, nessa corrida em vão pelo sonho desvairado no espelho dos trincados, do outro como eu então, a mordeção no rebelde : em tudo uma inundação, de esperanças tudo em vão : e a praça sempre perdida no kirieleisson perdida, sobretudo afogamento dos eus que não mais existem : e o rebelde patinando na procura da estrada desse estar do estar do ser, isso ele perseguindo, indo mais ido e assim vivido, dessa lenda, nesta estória, vindo atrás sua memória, o peso de sua história, a estátua lá no chão, sendo então muito difícil terminar essa caçada : pra ele, se sendo assim, mais valendo essa viagem, vadiagem patinada, nesta estória arrastada, desta lenda outra estrada, que não posso adivinhar :

Trecho do romance O Infinito de Pé



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