Viva letra

Edição de Eduardo Maretti Por   Sentença muda André Dantas O aceno mal precisou se completar. Como quem evita companhia incômoda desviando o norte dos olhos, assentiu com...

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Edição de Eduardo Maretti

Por

 

Sentença muda
André Dantas

O aceno mal precisou se completar. Como quem evita companhia incômoda desviando o norte dos olhos, assentiu com serenidade e encaminhou-se para o lado de fora.
Lembrou-se, não por ela, mas pelo choque dos contrários, de como se julgava feliz ao tilintar da máquina de ponto, a ponto de trocar o ar gélido da agência bancária pelo afago quente da rua, todo fim de tarde. Sentia o calor dos outros ganhando forma e tato.
Oprimido pelo contraste que o silêncio agora provocava, encheu-se de estima… e medo. Não por ela, mas pelo encontro de contrários que eram. Teso como alguém que ao mesmo tempo é duro feito pedra e retorcido de frio, confundiu-se nos movimentos enquanto a aguardava. Atônitas pela falta de comando, suas mãos ansiavam por independer-se dos braços. Ora cruzados, ora em forma, os pés, não podia fingir o que queria. Quando finalmente decidiu assumir-se tombou.
Desconcertado, procurou ocupação. Recordou-se do que esperava. Como uma criança que mensura com exagero lugares que quando adulta reconhecerá menores, deuz-se conta que a imaginava sempre nua. Não entendia como, se o seu rosto tomava toda a cena, mas sabia-a nua, completamente. Se voltasse os olhos, no entanto, para as partes do seu corpo, via-as inchar, inchar, em demasia. Bunda, seios, coxas, barriga e mãos, o sexo não. Engolido pela imagem que lhe pertencia, fez o de sempre. Rosto franzido na tentativa de espremer os pensamentos, desviou o norte dos olhos como quem evita companhia incômoda.
Ciente da primeira dezena de minutos idos, ouviu de supetão a gargalhada infantil, como que implorando, me deixem, me falem, tal qual elástico. Podia ver os seus dentes à mostra, adivinhar para que lado estaria virando o pescoço, o movimento dos cabelos, a boca, sempre nua. Fez por onde esperar mais algum tempo, e não mais, o suficiente ainda para justificar um banheiro, na volta.
Lá dentro todos fingiam entender-se entoando o mesmo canto. Inebriados por uma comunhão apátrida, torciam para nada se acabar, o bar, o álcool, a canção, a noite e o açoite, que fornece o parâmetro do avesso da dor.
Nota de falecimento Renato Godinho

Meus amigos, todos, de longa e curta data.
O trágico aconteceu, e tenho de dividi-lo com vocês. Nesta manhã de fim de inverno faleceu o meu fiel celular, que me acompanha há três anos e tanto. Só agora me dou conta de que ele sempre dava um jeito de estar ali, humilde, operante e confiável como um cão, por mais que eu o maltratasse, atirasse por terra (por desleixo, nunca por despeito ou ira), esquecesse nos lugares mais exóticos, perdesse na multidão durante shows de rock. Com o perdão do trocadilho, nunca liguei muito pra ele, para meu maior pesar hoje. Ao fim e ao cabo, os freqüentes tombos acabaram-lhe custando a vida.
Ainda por cima me pesa na consciência o fato de que eu, quando percebi que meu celular estava moribundo (desligava sozinho às vezes, sem avisar), articulei de forma vil a sua troca por um outro, de outra companhia, um outrozinho qualquer que nem sequer alcançava seu nível cultural. O fato é que ele percebeu a traição e, na manhã seguinte à compra do novo celular, expirou em seu ninho na mesa de cabeceira e entregou ao infinito sua pequena alma digital. Que sua memória perdure.
Porém, meus amigos, perdoem-me o lugar comum, mas a vida continua, e a prova do eterno ciclo de criação e destruição que rege o universo é o meu novo celular, desajeitado, ignorante e pimpão aqui sobre a minha mesa. Todo esse anúncio de falecimento tem por objetivo, além de compartilhar a minha dor, o de divulgar o meu novo número.
É isso aí, quem quiser me encontrar, anote: (61) 8138-9XXX. Repetindo: (61) 8138-9XXX.
Muitos beijos e abraços a todas e todos,
Domith G.



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