Viva letra

Paulo Lins, Nelson de Oliveira e Tania Lima A partir deste número, Fórum dedicará este espaço à publicação de textos inéditos de ficção (contos e trechos de romances), crônicas e poesia. Os critérios para...

270 0

Paulo Lins, Nelson de Oliveira e Tania Lima A partir deste número, Fórum dedicará este espaço à publicação de textos inéditos de ficção (contos e trechos de romances), crônicas e poesia. Os critérios para a escolha serão pautados pela qualidade dos originais. Para abertura, trazemos nesta edição um trecho de O Plano de Marlon, próximo romance de Paulo Lins, autor de Cidade de Deus; o conto Exploradores, da coletânea Ódio Sustenido, ainda em preparação, de Nelson de Oliveira, contista vencedor dos prêmios Casa de Las Américas (1995), Fundação Cultural da Bahia (1996) e duas vezes o da APCA (2001 e 2003); e o belo e sensível conto O Quintal, da estreante Tania Lima.

Por

 

Exploradores
Nelson de Oliveira

Escutei um estalo atrás de mim. Depois, o crepitar de passos furtivos. Magda debruçou-se sobre o meu ombro a fim de olhar o que é que eu estava escrevendo. “Que é que você está escrevendo?” Virei-me, quando ninguém esperava que me virasse, e olhei nos seus olhos. “Eu te amo” disse-lhe, cada sílaba parecendo uma bolinha de sabão. Todos os que estavam ao redor da fogueira riram. Como podiam rir, se nem ao menos falavam a minha língua? Nesse continente esquecido pelo Criador o único ser vivo capaz de me entender era Magda, repórter do Liberation e minha assistente.
“De que é que estão rindo, negros idiotas?” gritei em indoneojavanês, se é que esse idioma existe. “Estão rindo de você. De quem mais?” “Só porque te disse ‘Eu te amo’?” “Não. Porque seu caderno está pegando fogo.”
O caderno, a jaqueta, as calças, todo o meu corpo pegava fogo. Levantei-me, praguejando contra Deus e o mundo, e corri na direção do lago. “Maldita floresta.” Enquanto atravessava o espesso matagal, abrindo caminho com as próprias mãos, minha roupa ia se desfazendo nos galhos e espinhos. Antes mesmo de chegar ao lago o incêndio já estava completamente dominado. Menos ruim. Voltei nu e furioso. Tirei de dentro da mochila um facão e, jogando terra na fogueira, gritei: “O mangô ibi nagô.” O que na língua deles deve ter significado: “Já passa da meia-noite. Amanhã teremos de caminhar trezentos quilômetros até a aldeia mais próxima. Calem a boca e tratem de dormir, antes que eu lhes corte fora a genitália”.
Em seguida, peguei Magda pela mão e conduzi-a para o interior da minha barraca. Ela acomodou-se dentro do saco de dormir e fez sinal para que eu fosse me juntar a ela. Um homem é capaz de atravessar o Atlântico a nado, por um momento como este, pensei comigo mesmo. Mas creio que me demorei muito com os meus próprios e impróprios pensamentos, pois assim que entrei no saco a minha assistente já ressonava profundamente.
Fora, nenhum ruído. Nem mesmo os pernilongos ousavam nos incomodar. Acabrunhado, não consegui dormir. Doía-me a cabeça, os ossos. Decidi, talvez tão-só para ocupar a mente, pensar um pouco mais no que deveria dizer quando fosse chegado o grande momento: o encontro com Livingstone. Pus-me a ensaiar durante toda a noite:
“Doctor Livingstone, oh! doctor, I’m waiting for this moment for a long time.” Não. Suplicante demais. Melhor não usar o sobrenome. “Doctor, this is a small step for a man but a huge leap for mankind.” Grandiloqüente demais. Melhor com o sobrenome. Vamos lá, tente não parecer demasiadamente tolo. “Doctor Livingstone, that’s the most important moment of my whole life.” Servil demais. Quem o velho pensa que é? Cristovão Colombo?
Magda acordou, o rosto amarrotado de sono: “Durma-se com um barulho desses. Qual é o problema agora?” “Você. O problema desta vez é você. Não sei onde eu estava com a cabeça quando concordei em sair à procura do velhote. Por que não tentamos descobrir coisa que o valha? A nascente do Nilo, por exemplo. Já lhe disse isso um milhão de vezes.” “Não sou obrigada a ficar ouvindo tais absurdos. Fica com o teu saco de dormir. Vou pra minha barraca” Empurrou-me de lado e saiu. Pouco depois, antes que eu tivesse tempo de fechar o zíper da entrada, ei-la de volta, apenas cabeça e sorriso: “Mais uma coisa: vista-se. Carbonizada, sua bunda está mais ridícula do que a de um babuíno.”
Os trezentos quilômetros transformaram-se em mil. Por um erro de leitura dos mapas, sem querer acabamos atravessando o continente de costa à costa. Ao ver o Índico onde deveria, pelos meus cálculos, estar o Atlântico, decidi recuar imediatamente, antes que os carregadores percebessem o engano. A viagem de volta foi dramática. As chuvas e as doenças quase nos levaram à loucura, a trilha teve de ser aberta a golpes de facão e, o pior, durante uma caçada fui atacado por um javali que, apesar de atingido por vários tiros, antes de morrer conseguiu quebrar-me um braço.
Compadecida de minha má sorte, Magda, uma noite, tornou a se oferecer a mim. Todavia, quando eu já estava prestes a possuí-la, meu corpo foi tomado mais uma vez pelo fogo. Em chamas, pulei e corri para fora da barraca.
“Maldição.” Um dos carregadores tentou me ajudar: “O ibi nagô mangô.” Não entendi, mas aceitei como: “Não pragueje, senhor. Só faz aumentar as labaredas.” Afastei-o com um safanão. Como dizer-lhe que não estava praguejando? Como dizer-lhe que por trás dessa simples interjeição escondia-se toda a verdade? Uma maldição ancestral, poderosa, que me fazia queimar sempre que o mais intenso dos desejos principiava a vicejar dentro de mim, pairava sobre a minha cabeça.
De madrugada, como não conseguisse conciliar o sono, sentei-me numa pedra e me pus a escrever. “O feitiço de um pajé macololo é capaz de perseguir um homem por toda a eternidade. Não se entregue a noites de prazer e luxúria com sua filha, sem antes passar pelos ritos de iniciação da tribo.” O sol começava a despontar. Não existe visão mais bela, em parte alguma, do que a do sol nascendo numa savana africana. “Maldita filha. Malditos ritos.”
Magda surgiu de repente, tirou o diário das minhas mãos e, após ler a última anotação, jogou-o na minha cara: “Cafajeste. Você me disse que eu era a primeira. sacana, mentiroso. Com a tua própria filha?!”
Magda e eu levávamos conosco, além de víveres, barracas, cobertores, medicamentos, armas, munição, barcos, tecidos e peles — estes dois últimos para negociar com os indígenas —, e uma boa garrafa de champanhe. Esperávamos brindar com Livingstone assim que o encontrássemos. Apesar de completamente perdidos, algo nos confortava: a notícia de que um velho homem branco estaria vivendo numa pequena aldeia do Tanganica. Depois de enfrentar duas tribos de traficantes de escravos e uma rebelião dos carregadores, vimo-nos com apenas vinte e seis homens. Avançamos, subindo pelo rio Zambeze, cruzando o lago Niassa e contornando as cataratas Vitória. Próximo às muralhas da China, retrocedemos.
Na pequena aldeia do Tanganica, um homem muito velho, de aparência doentia, veio ao nosso encontro. Parecia ser europeu, como nós. Veio cheio de excitação, apoiado numa muleta. Saudei-o efusivamente: “Doctor Livingstone, I presume?” Meus carregadores caíram na risada. Instintivamente apalpei minhas roupas. “Por que riem, esses idiotas, se nem ao menos estou em chamas?”
O velhote, cheirando tão mal que nos obrigava a tapar o nariz, não ligou nem para as risadas nem para o meu inglês claudicante. Compreendendo apenas o nome “Livingstone”, apertou minha mão e começou a chorar. Entre lágrimas, falou-me, creio que em protocântabro-pirenaico, ou em sinolígure, se é que tais línguas existem: “Ö nagô ibi mangô.” Puxei Magda pelo braço: “Consegue entender o que ele diz?” “Um pouco. Creio que ele…” O velhote, para nossa surpresa, interrompeu-a, abandonou a muleta e se dirigiu a mim, escandindo as sílabas como a própria rainha Elisabeth II não teria feito: “Sinto dizer isso, mas há dois meses nosso estimado doutor Livingstone, se me perdoam o eufemismo, foi desta pra melhor.”
“Grande notícia! Morto, e há dois meses!” Chutei poeira em todas as direções. Mordi as próprias mãos, já que não podia morder as de meu interlocutor. “Idiota, idiota, idiota. Sou a maior das cavalgaduras. Algo me dizia que estávamos perdendo o nosso tempo.”
Magda, na certa para contornar a situação, perguntou-lhe se ele ou alguém de sua gente já havia visto, ou ouvido falar sobre o caudaloso rio de águas escuras dos egípcios. Quinhentos quilômetros ao norte, foi o que o velhote nos disse. Partimos no dia seguinte.
Um dos carregadores — acho que o mesmo que havia tentado me ajudar, quando do último incêndio —, aproximou-se, puxou a minha manga e me fez uma pergunta. Não entendi patavina. Magda ouviu pacientemente o que o carregador tinha a nos dizer. Em seguida, me explicou: “Ele quer saber por que tanto trabalho pra se descobrir um rio, que nada mais é do que um pouco de água em movimento?”
Os quinhentos quilômetros transformaram-se em dois mil. Por um erro de leitura dos mapas, acabamos atravessando novamente o continente. Ao ver o Índico onde deveria estar o Atlântico, decidi recuar antes que os carregadores percebessem. A viagem de volta foi, como da vez anterior, dramática. As chuvas e as doenças quase nos levaram à loucura, a trilha teve de ser aberta a golpes de facão e durante uma caçada fui atacado por guaxinins, que, apesar de atingidos por vários tiros, antes de morrer conseguiram quebrar-me uma perna.

O Quintal
Tania Lima

O prenúncio de chuva inunda meu espírito de inquietação e o aprisiona de apreensão, emprestando-lhe o peso de um fardo. As ramagens, galhos e folhas da árvore situada na área central do quintal, que da janela investigo com os olhos imprecisos pela semi-escuridão, agitam-se numa coreografia hipnótica. Tento, em luta desigual, me desvencilhar da atração a que me submete o quintal e afasto-me resoluta da janela que emoldura o quintal.
A convicção de não poder contra o poder da chuva amarra meus membros em impotência e mergulha meu peito em sufocação, e assim debilitada volto à janela para alimentar meus pulmões. E então aspiro o passado camuflado com o cheiro da grama molhada pela chuva diagonal, que já cai no quintal. Impalpáveis e encharcados fragmentos de história espalhados pelo quintal. Sem memória, e com a imaginação à solta, vou me apropriando do passado que não é meu e que é de todos nós, sem ser egoísta e unicamente de ninguém.
Para além do quintal, transposto o muro, a imensidão; o infinito inalcançável. O abandono da solidão em liberdade onde fervilham bilhões de lembranças sem datas, impregnando as ruas vizinhas de melancolia, ganhando as avenidas, triunfando nos bares em boemia, cheirando a álcool, a cigarro e a perfume de cravos e maracujás maduros; indo, embriagada e aliada ao vento noturno, levantar esvoaçante a saia da senhora que passa, e descobrir nas flácidas coxas frias incontestáveis vestígios da mocidade passada e irremediavelmente perdida. Sobre os ombros recurvos, o peso dos anos; e sob o semblante, em lugar da tranqüilidade de quem aprendeu a não dar tanta importância aos assuntos mundanos, sinais da mesma angústia antes e eternamente experimentada. Em homenagem a ela, chorosa, a chuva de novo cai; impiedosa a lhe martelar nos ouvidos: por que te deixaste envelhecer, mulher?
À mercê da chuva, agora serena, eu e o quintal, ambos devastados pela chuva. Incrédula, nele vejo, tomando forma na quase escuridão, a imagem de três meninos incólumes debaixo da chuva que é presente e incapaz de molhar o passado. Louca, esgotada, sem tempo e em vão estendo a mão através da janela, querendo voltar ou querendo trazê-los, nem sei… Só sei que inexplicavelmente sinto saudade.

O Plano de MarlonPaulo Lins

No último Carnaval em Lídice, fizemos um baile à fantasia na birosca da Marlene – a única do local –, tomamos três caixas de cerveja, matamos um garrafão de pinga mineira e até rolou um churrasco no sábado. A mãe dela leva aquela vidinha normal o ano todo, mas ninguém aqui da favela sabe o que essa santa mulher de 48 anos é capaz de fazer nos quatro dias de folia. Nesse Carnaval, Luís foi pra Paraíba e Lindaura pra Bahia. Ele fica o tempo todo com a família. Ela, essa carioca, filha de baianos, fica com a família no primeiro dia, depois some com os amigos. Lindaura, que é pacata, vira o capeta durante o resto dos dias. Só quer saber de cerveja, nem leva o celular, vai atrás de qualquer trio e sua força sexual vai aumentando gradativamente. A bicha vai ficando doida, sai pra rua quase nua, dorme de três a quatro horas por dia. Quer dar pra todo mundo do Ilê, já trepou com aquele amigo do Bujão lá no Campo Grande, transou com o irmão do Douglas na Praça da Sé com o dia raiando, se meteu numa suruba na casa da Olinda no Rio Vermelho. E sai gritando pelas ruas na madrugada:
– Como eu sou feliz!
Luís gosta mesmo é de saber da política local, das fofocas e de pescar. Ir pra Jericoacoara com a família é trato feito pra sempre. Ficar na casa da filha do irmão mais velho é graça dos deuses. E vai de barco, puxa rede, limpa peixe, frita e come, bebendo cachaça com limão. Dorme na areia da praia até a maré encher toda, daí até de noitinha a sua vida é o mar.
Hoje eu decidi que vou arrumar emprego fixo. Tô com a porra do aluguel atrasado, tem quase três dias que só como miojo e bebo suco de laranja. Carlos, que mora comigo, se mandou pra Ouro Preto com o grupo de teatro, falou que ia depositar na conta da Cristina, mas até agora nada. O seu telefone só dá fora-de-área. A minha grana só deu pra pagar água, luz e quinze contos de créditos no celular pro final de semana. Fico sempre dentro da área pra não perder ne­nhuma chamada, falar tudo com todas e, se marcar, é gol. Também fico a fim de voltar a estudar; ia, além do emprego, procurar escola, mas parei na casa do Valter pra ouvir um som e estou aqui até agora. Fumamos dois baseados logo de manhã, ele fez uma sopa de ervilha, depois passamos duas músicas que a gente não estava acertando no show. Ele deixou um galo comigo. Semana que vem, vai me passar uns alunos dele. E agora me fala:
– Amigo, não vai bagunçar, vou deixar a casa na tua e na do Carlos, sacou? Só não deixa atrasar a luz, gás e telefone e toma conta do Mauricinho. Bota a comidinha dele, se ele ficar doente, corre pro veterinário. Toma conta da casa na moral.
– Tu vai passar quanto tempo lá?
– Pelo menos um ano eu tenho garantido, a gente vai se apresentar em umas trinta cidades da Europa. Vai ser muito bom!
– Pode ficar tranqüilo que o teu gatinho vai ficar sob todo cuidado.
Fiquei impressionado com a devoção pelo Mauricinho. Tinha certeza que era homossexual aquela obsessão por gatos. Cocô de gato pra ele era ração comida por aquele bichinho tão limpinho, como ele mesmo falava. É muito raro um cara de trinta e cinco anos ter gato, isso é coisa de criança, mulher e viado. Homem tem cachorro, papagaio, e só. Eu, de início, carregava o gatinho no colo, meus amigos também tinham carinho com o bichano, mas, agora que se acostumou com a falta de seu dono, ele fica na dele e a gente na nossa. Nunca ficou doente, já andei me estressando com ele e dei até uns cascudos sem ninguém ver. Depois disso, às vezes, ele me olha e sai correndo.
A casa era numa rua sem saída, perto do Guimarães, com um quintal maneiro, cheio de árvores, assim ó! Uma casa antigona, reformada, de frente pra Botafogo: quatro quartos, dois banheiros com banheira, uma sala grandona, pé-direito altão. E a cozinha é como? Grandona também, com três portas pros fundos, onde tem uma piscina de trinta metros. E ainda tem vagabundo aí que diz que Deus não existe.
Cristina gostava de escrever na cozinha lá de casa no verão. À tarde, sempre entrava um noroeste forte e o sol demorava a se pôr. Ela tinha encucado com a vida de Aloysio, tinha achado outros documentos no Arquivo e só falava disso. Esse pessoal que faz mestrado fica realmente chato pra caralho. Às vezes, a gente fala sério com a maluca, e a maluca fica olhando lá pra longe, dá um estalo e fala à vera. Fazer o quê? Deve ser muito chato ser inteligente. Eu que não consigo ficar mais de dez minutos lendo qualquer porra. (Romance – trecho)



No artigo

x