A América Latina sob outro olhar

Primeira tentativa de uma rede de televisão latino-americana a TeleSUR tenta ser independente apesar de manter vinculo estatais. Já os EUA prometem oposição cerrada à iniciativa

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Primeira tentativa de uma rede de televisão latino-americana a TeleSUR tenta ser independente apesar de manter vinculo estatais. Já os EUA prometem oposição cerrada à iniciativa

Por Daniel Merli e Wilson Sobrinho

Abril de 2003. Em um palanque armado no centro da capital venezuelana, o presidente Hugo Chávez encerrava seu discurso em comemoração do Dia do Povo Heróico. Recém criado, o feriado do 13 de abril comemora a mobilização popular que levou o presidente de volta ao poder, após um golpe conjunto das elites, mídia e cúpula militar. Na saída, após um discurso de cerca de três horas, o presidente puxa pelo braço o cineasta e jornalista Tariq Ali, paquistanês de nascimento, mas criado na Inglaterra. Pede um encontro com o cineasta, para que lhe explique sua idéia, defendida durante um seminário, de criar uma “Al Jazeera latino-americana”.

Tariq Ali defendia em sua palestra uma comunicação independente dos grandes veículos situados na Europa ou Estados Unidos, “mas com qualidade inatacável”. Para ele, autonomia e qualidade eram as principais características da Al Jazeera, rede de tevê do Qatar que ficou famosa durante a Guerra do Golfo, trazendo informações não veiculadas por órgãos como a CNN.

Quase dois anos e meio depois daquela noite entrava no ar, via satélite para todo continente americano e parte da Europa, a Nueva Televisión del Sur ou simplesmente TeleSUR. Transmitido desde o último 24 de julho – mesma data de nascimento de Simon Bolívar–, o sinal pode ser captado por qualquer antena parabólica e pretende corrigir distorções históricas na auto-imagem dos latino-americanos.

“Nós, na América Latina e no Caribe, fomos acostumados a nos ver através de olhos estrangeiros”, compara Aram Aharonian, jornalista uruguaio radicado na Venezuela, diretor-geral da emissora. “Europeus e norte-americanos nos vêem em preto e branco, e este é um continente colorido”, disse em entrevista à Reuters.

“O primeiro projeto de mídia contra-hegemônico” de televisão na América do Sul, na definição de Aharonian, a nova emissora tem na integração continental sua principal meta. “A TeleSUR nasce de uma necessidade evidente da América Latina: contar com um meio que permita a todos habitantes desta vasta região divulgar sua própria imagem, debater suas próprias idéias e transmitir seus próprios conteúdos, livre e igualmente”, diz o texto de apresentação da emissora multi-estatal na internet.

Além do Brasil, onde tem uma correspondente, a emissora manterá repórteres na Argentina, Colômbia, Cuba, Bolívia, Estados Unidos, México e Uruguai. É a forma de garantir que 40% da grade seja formada por programas jornalísticos. Porém, mais do que mostrar o continente por um ângulo novo como seu slogan indica (“O Nosso Norte é o Sul”), a emissora busca parcerias em setores sociais que nunca tiveram espaço nas emissoras comerciais. Será uma mudança dramática, uma “reforma agrária” voltada para os satélites, já que os outros 60% da programação devem ser preenchidos por produções audiovisuais próprias e independentes, programas de TVs comunitárias, de universidades ou produzidos por organizações populares e sociais.

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O jornalista colombiano Jorge Botero, diretor de conteúdo da TV, acredita que exista uma gigantesca demanda reprimida de produtores audiovisuais no continente que encontrará pela primeira vez um espaço para a veiculação de suas produções. “Existem centenas de documentaristas e criadores de televisão que produzem um material muito original e que acabam frustrados por não ter oportunidades para chegar aos meios de massa. Tem uma geração inteira esperando. E nós queremos essas pessoas”, afirmou, em entrevista ao diário mexicano La Jornada, em fevereiro.

Para garantir a participação desses produtores e dar variedade e qualidade à programação, também foi criado, junto com a TeleSUR, a Fábrica Latino-Americana de Conteúdos (Flaco). É uma espécie de instituto para o “fomento à produção, divulgação e distribuição” de audiovisuais no continente. A idéia é reunir material de produtores independentes e de movimentos sociais e abrir-lhes as portas para a veiculação, seja na TeleSUR ou em “qualquer outro meio à disposição”. Há planos de transformar a Flaco também em uma produtora. Alcançando este objetivo em cinco anos, Aharonian diz que se dará por satisfeito.

“A longo prazo, poderemos vender este material, aumentando os recursos da TeleSUR”, planeja Beto Almeida, presidente da Tevê Comunitária Distrital e o representante brasileiro na diretoria da TeleSUR. “Mas não creio que chegue a garantir a auto-suficiência da rede”, admite. Ao ser perguntado sobre os planos de financiamento, Beto defende que a rede continue sendo financiada, em grande parte, por governos. “Se a integração latino-americana é meta de muitos países e em alguns está até na Constituição, trata-se de uma questão de Estado mais do que de um governo ou outro”, avalia. “Por isso, nada mais justo que uma parte do orçamento público desses países vá para o projeto”.

Conexão brasileira

No Brasil, a TeleSUR é retransmitida em alguns horários, por nove emissoras comunitárias, entre elas as do Distrito Federal, Recife, Niterói, Porto Alegre, Florianópolis, além da TV Rocinha, no Rio de Janeiro. Os canais comunitários de Belo Horizonte e Campinas negociam a retransmissão do sinal. Para quem não está em nenhuma dessas cidades ou não tem parabólica, a TV Comunitária do Distrito Federal retransmite a TeleSUR pela internet (www.tvcomunitariadf.com.br). “Nos primeiros dez dias de agosto, 5.600 pessoas já acessaram a tevê pela internet”, comemora Paulo Miranda, diretor da Tevê Distrital.

Desde que ouviu a sugestão de Tariq Ali, Chávez veio se empenhando pessoalmente na iniciativa. Até chegar a seu objetivo, em julho deste ano, o projeto consumiu um investimento inicial de algo próximo a 2,5 milhões de dólares. Cerca de 70% foi bancado pelo governo venezuelano, 20% pelo argentino e 10% pelo uruguaio. Participam ainda Brasil e Cuba, compartilhando programação e cedendo tecnologia.

“O Brasil já tinha um projeto de tevê internacional, que não vemos como um competidor, mas como uma parceria”, explica Almeida. Ele se refere à TV Brasil, canal internacional do governo brasileiro, reunindo TV Senado, TV Câmara, TV Justiça e a NBr, canal do executivo. “Mas o governo brasileiro vem participando, por meio da Radiobrás e Ministério da Cultura, cooperando com a produção”, afirma. Os dois órgãos do governo federal têm cedido alguns vídeos e documentários e têm feito apoio técnico.

“Independente sempre; neutra, nunca”

Para garantir que, mesmo financiada por governos, a TeleSUR mantenha sua autonomia, foi criado um Conselho Consultivo. Integram o grupo, entre outros, o espanhol Ignácio Ramonet (diretor do jornal Le Monde Diplomatique), o ator norte-americano Danny Glover, o escritor uruguaio Eduardo Galeano e o argentino Adolfo Perez Esquivel, ganhador do Prêmio Nobel da Paz. Entre os brasileiros, o escritor Fernando Moraes, o cineasta Walter Salles Jr. e Orlando Senna, secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura.

Eles são alguns dos responsáveis de zelar para que a TeleSUR cumpra o lema “Independente sempre, neutra, nunca”, criado pelo diretor de jornalismo da rede, o colombiano Botero. O Manual de Redação da rede também dita os mesmos parâmetros: “Nossas reportagens, crônicas e entrevistas devem incluir todas as fontes, opiniões e interpretações possíveis”. O documento também sugere cautela na descrição de fatos. “O uso de adjetivos é permitido quando o colocamos para fins descritivos, mas deve-se evitar totalmente quando o adjetivo adquire um tom qualitativo (como “a situação caótica” ou “o governo lacaio do presidente”)”, indica.

“Chávez estará na TV só quando for notícia”, garantiu Aharonian ao New York Times em maio. E com a renúncia de Andrés Izarra ao Ministério da Comunicação e Informação da Venezuela, o conselho editorial será totalmente formado por jornalistas, entre eles Aharonian e Jorge Botero, diretor de jornalismo. Completam o quadro Ana de Skalom (Canal 7, da Argentina), Beto Almeida (Brasil), Olvidio Cabrera (Cuba).

Não é de estranhar que toda essa movimentação esteja complicando ainda mais as nada amistosas relações Caracas-Washington. Era apenas o sinal de teste da TV que estava no ar quando o deputado republicano pela Flórida Connie Mack inaugurou os ataques: “Uma rede ao estilo da Al-Jazeera na América do Sul soa como se Chávez quisesse envenenar a mente de pessoas que desejam ser livres”. Três dias antes da inauguração da TeleSUR, Mack apresentou uma proposta ao Congresso dos EUA que pode dar início a uma guerrilha eletrônica entre os dois países. O projeto – aprovado no Congresso e que precisa ser submetido à votação no Senado — permitirá que, nas palavras do autor, os EUA iniciem “transmissões de rádio e televisão que provenham notícias acuradas, objetivas para a Venezuela”, para conter o “anti-americanismo” da TeleSUR.

“Não há nada mais perigoso do que um gigante desesperado”, respondeu o presidente Chávez, segundo a agência IPS, garantindo que, caso a medida seja aprovada, tomará medidas técnicas para neutralizá-la. Uma batalha semelhante ocorre entre Havana e Washington, com a Rádio e TV Martí, cujos programas são produzidos nos EUA e transmitidos à ilha caribenha a fim de desestabilizar a liderança de Fidel Castro.

Na estréia da TeleSUR, mais bombardeios. Um jornal conservador colombiano acusou a TV de fazer apologia ao grupo separatista Basco ETA através de uma de suas vinhetas. Segundo o jornal, uma jovem apareceria na tela cantando repetidas vezes a palavra “eta”. Izarra teve de explicar que se tratava da música “A Luz de Tieta”, de Caetano Veloso (o trecho em questão era “Eta, eta, eta, eta, é a lua, é o sol, é a luz de Tieta, eta, eta”). Em meados de agosto, foi a vez de Oliver North — militar norte-americano envolvido no caso Irã-Contras durante o governo Reagan — mirar na TeleSUR. Em um artigo publicado pelo diário conservador Washington Times, North disse que o “quase ditatorial” regime venezuelano tem garantido um “paraíso seguro” para que as guerrilhas colombianas dêem início aos seus ataques. “Quando o senhor Chávez não está competindo com Al Gore em criar redes de televisão, ele está ocupado aumentando o poderio de seu exército e fazendo compras de armas sem precedentes”.



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