A famosa Práxis

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Esta é uma historinha do tempo em que eu trabalhava no Sesc, em mil novecentos e antigamente. Domênico, meu...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Esta é uma historinha do tempo em que eu trabalhava no Sesc, em mil novecentos e antigamente. Domênico, meu colega de trabalho e amigo, e eu. Ele sociólogo e eu geógrafo. Estávamos trabalhando numa pesquisa de folclore, no Vale do Ribeira, sul do estado de São Paulo, e fomos conhecer um pessoal que fazia uma cerâmica preta e vivia isolado, num quase quilombo, no município de Iguape, que fica no litoral, e de lá iríamos para Cananéia, outra cidade litorânea, procurar uns artesãos que faziam viola e rabeca. A estrada de Iguape a Cananéia fazia uma curva grande, por dentro do continente, e resolvemos encurtar caminho pela Ilha Comprida, pela praia. Estávamos numa brasília, do Sesc, e o Domênico foi dirigindo. Eu já tinha viajado um pouco de carro por praias e avisei o Domênico que ele deveria ir pela parte molhada pelo mar, em que a areia era mais dura, mas ele não me levou a sério. Ficou com medo e tentou ir pela parte mais alta da praia. O carro atolou na areia fofa, e não havia como sair dali. Tentamos um tempão, cavoucando com as mãos e tentando enfiar umas pedras debaixo da roda, mas não dava certo. Quanto mais tentávamos sair, mais o carro afundava e ficava preso na areia. A maré estava começando a subir e começamos a temer que ela chegasse até onde o carro estava atolado e complicasse as coisas de vez.
Lembrei que uns três ou quatro quilômetros atrás passamos por uma venda. Podia ser que alguns freqüentadores dela topassem ir ajudar a gente. Fomos juntos, caminhando até lá e conversando. Decepção: não havia nenhum freguês na venda. E o vendeiro era um velho, que, pra piorar, tinha um corte num pé, enfaixado com uns panos. Perguntei se ele não conseguiria arrumar alguns caras fortes pra ajudar a gente a tirar o carro. Ele gritou pra dentro de casa, saiu um menino, ele mandou o moleque ficar tomando conta da venda e falou:
– Vamos.
– Nós? – perguntei num tom indicativo de que não ia dar pé. Se eu e o Domênico não conseguimos nada, com aquele velho não ia fazer diferença.
– Precisa ir alguém comigo que eu não sei dirigir. O outro pode ficar aqui, se quiser…
– Ô, velho pretensioso – cochichei. Mas ele já estava indo e fomos atrás.
– São mais três quilômetros até lá de novo, mais três pra voltar aqui… Mas a gente não tem nada que fazer mesmo, vamos passear. O chato é esse sol na moleira – brinquei com o Domênico.
Lá chegando, o velho olhou em volta, achou um tronco, rolou até ficar rente à roda, saiu procurando e voltou com um pau forte e comprido. Apoiou esse pau em cima do tronco grosso, colocando a ponta dele na ponta do eixo, no meio da roda, e empurrou a outra ponta para baixo, levantando o carro na maior tranqüilidade, sem fazer força. Pediu que colocássemos folhas de palmeiras e pedaços de pau embaixo da roda levantada, e antes da gente fazer isso o Domênico soltou um palavrão e disse:
– Me dê uma alavanca e moverei o mundo.
Voltamos de carro até a venda pra deixar o velho, tomamos uma cerveja e demos uma boa grana pra ele. O Domênico não se conformava:
– A gente estudou, fez faculdade… Somos cultos, conhecemos teorias, lemos Arquimedes e acabamos aprendendo com um velho analfabeto como é que se usa o princípio da alavanca… F



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