A Geração Fórum

Jovens embalados pela construção de um outro mundo dão vida e cor ao Fórum Social Mundial Por Italo Nogueira   Que marcas um evento da magnitude do...

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Jovens embalados pela construção de um outro mundo dão vida e cor ao Fórum Social Mundial

Por Italo Nogueira

 

Que marcas um evento da magnitude do Fórum Social Mundial pode deixar nos jovens que participam dele? Assim como os agitados anos 60 tiveram nos estudantes sua expressão maior, o FSM também desperta, na juventude, um sentimento de insatisfação com o status quo e o interesse por alternativas que possam levar ao almejado outro mundo. Sem a sisudez dos mais velhos e com uma esperança inabalável, essa “geração Fórum” dá um colorido especial ao encontro de Porto Alegre.

Eles estão por toda a parte dentro do Território Social Mundial, mas a maior concentração se dá no Acampamento da Juventude (AJ). Só nesse ano, o local abrigou 35 mil pessoas, sem contar aqueles que freqüentavam o AJ para participar das discussões, das festas ou que queriam apenas dar uma espiada. Igor Menezes, de 23 anos, era um dos acampados. Ele milita no movimento Juventude nas Ruas, que luta pela construção da Casa de Resistência de Cultura em Canoas, Rio Grande do Sul, para apoiar jovens que se interessam por atividades urbanas, como o grafite e o skate, além de procurar sensibilizar os moradores da cidade para a questão ambiental, a partir da criação de uma oficina de reciclagem. Em 2005, Igor voltou ao FSM para divulgar o projeto, atrair mais adeptos e trocar informações com outras entidades.
“Em 2003 vim mais pela curtição. Conheci o Juventude nas ruas, por intermédio de um amigo e me interessei pelo projeto” – comenta. O contato com essas iniciativas fez com que Igor se interessasse pela vida da sua cidade e pelas alternativas culturais que poderia oferecer. No entanto, suas preocupações não se limitam às necessidades locais. “Além de todas as nossas reivindicações, nós lutamos também contra o McDonald’s e pela Palestina livre.”

Há também quem vá ao Fórum somente para desfrutar a troca de experiências entre os participantes, sem participar de nenhum movimento ou organização. É o caso de Leo¬nardo Vidal, de 21 anos, estudante de História. “Não vou aos painéis do Fórum porque acho muita conversa. Quem mais lucra com o FSM são os comerciantes de Porto Alegre, que inflacionam tudo durante o evento” – critica. Por esse motivo, desde a edição de 2003, Leonardo sai de sua casa, em Florianópolis, e opta por ficar o dia inteiro no Acampamento. “Aqui nós temos mais convívio, mais prática política. Venho para descobrir como as pessoas vêem os mesmos problemas que eu”. Além da convivência, Leonardo divulga e vende sua pequena revista de arte, O Bobo.

E os jovens que participam do FSM já começam a dar sinais de que têm muito a dizer e, principalmente, do que reclamar. Mesmo sendo parte significativa dos participantes do evento, muitos afirmam não se sentir representados nos painéis do encontro e começaram a exigir mais espaço para dizer o que pensam sobre o mundo. No painel “Futuro do FSM”, realizado no Caracol Intergaláktico, Michael Hardt abriu a roda de conversas denunciando o que ele acredita ser uma “falsa democracia” do Fórum. Segundo ele, muitas das mesas discutiam infância, adolescência e juventude, mas esses segmentos tinham pouca ou nenhuma representação nas discussões. Na ocasião, diversos jovens levantaram a voz pedindo espaço na construção do evento e cadeiras no Conselho Internacional do FSM.

Se no espaço “oficial” os jovens ainda lutam pela sua participação, no acampamento o que se via era um verdadeiro território livre para falar o que se pensa. Atividades de diversos movimentos estudantis, partidos e entidades foram ali realizadas. Yo Un Ki, sul-coreana de 23 anos, foi a Porto Alegre divulgar as idéias do Partido Operário da Coréia do Sul e, principalmente, apoiar a marcha dos dias 19 e 20 de março contra a ocupação do Iraque. “Acredito que os jovens daqui e de todo o mundo têm força para lutar contra o capitalismo e a guerra. Essa ‘geração Fórum’ existe e vai lutar sim.”

“O Acampamento é a principal área de convívio do FSM. Durante o evento, as pessoas moram ali; de certa forma, elas precisam ter algum grau de compreensão com o próximo”, acredita Rafael Carvalho, de 23 anos, voluntário do Acampamento da Juventude nas edições de 2002, 2003 e também na desse ano. “O acampamento é essencial para quem vem ao Fórum porque é aqui que rola a integração da galera. Uma troca de culturas, idéias. Você pode encontrar gente do Peru, da Bolívia e conversar sobre os problemas do mundo”, resume Igor. “Essa galera que vem justamente para combater o capitalismo vai fortalecer-se. Ninguém vai entregar-se tão fácil. E tem também o Acampadinhos, onde ficam as crianças. Essa galerinha está, desde pequena, vivendo isso”, acredita.

Qual o potencial dessa “Geração Fórum”? Por enquanto, é impossível saber se, de fato, eles irão efetivamente ajudar a construir uma nova realidade. De qualquer maneira, fica a reflexão do historiador Immanuel Wallerstein que, quando questionado sobre a força desses jovens, comentou: “Volte daqui a 20 anos e respondo se essa geração mudou o mundo. Nós temos 50% de chance de fazê-lo melhor e 50% de fazê-lo pior. A construção do FSM contribui para a metade que quer o mundo melhor”.

italo@revistaforum.com.br

 



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