A herança de Malcolm X

O líder, que completaria 80 anos no mês de maio, legou ao movimento negro idéias e ideais, mas principalmente espírito de luta e o exemplo de que o principal é não se curvar Por Nicolau...

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O líder, que completaria 80 anos no mês de maio, legou ao movimento negro idéias e ideais, mas principalmente espírito de luta e o exemplo de que o principal é não se curvar

Por Nicolau Soares

 

Quem é fã de quadrinhos certamente conhece a história dos X-Men, recentemente transformada em superprodução de Hollywood. O cenário é um mundo em que existem algumas pessoas com poderes extraordinários, denominados mutantes por terem em sua carga genética um fator X que os faz diferentes dos humanos normais. Por conta disso, muitos acreditam que eles são uma ameaça social e defendem que eles vivam apartados. No entanto, o professor Charles Xavier acredita que esse preconceito pode ser vencido e aposta na possibilidade de convivência pacífica dos mutantes com os demais. Para provar sua tese, Xavier forma o X-Men, reunindo pessoas que pensam como ele. Do outro lado, o também mutante Magneto não crê que a harmonia possa reinar e aposta que o confronto é inevitável. Por isso, se prepara para a guerra e não confia no resto da sociedade.
A história, criada na década de 60 por Stan Lee, é assumidamente inspirada no conflito pelos direitos civis que aconteceu naquele período nos EUA. Os negros lutavam para ter reconhecida sua condição de cidadãos e dois líderes se destacavam: Martin Luther King, pacifista e defensor da possibilidade de se estabelecer relações harmônicas entre negros e brancos, e Malcolm Little, que após sua conversão ao islamismo substituiu o sobrenome por um “X”. A opção simbolizava a perda de suas raízes africanas e o repúdio ao nome herdado da família escravocrata que comprou seus antepassados. Malcolm não acreditava na convivência defendida por Luther King. Ele considerava os brancos demônios que buscariam sempre submeter a raça negra, seguindo o pensamento da corrente islâmica liderada pelo profeta Elijah Mohamed, que passou a seguir na prisão.
Ainda hoje, essa é a face mais conhecida (não a única) do líder que mobilizou e influenciou milhares de negros na luta por seus direitos fundamentais e que completaria 80 anos neste 19 de maio. A influência de suas idéias e atitudes conseguiu ultrapassar seu momento histórico e as fronteiras dos Estados Unidos. Vários países africanos tiveram líderes influenciados por Malcolm e, no Brasil, da cultura hip-hop aos movimentos sociais ligados à questão racial, ele é nome garantido em qualquer discussão.
“Malcolm X faz parte do cânone do movimento negro. Sua autobiografia é um livro que todo militante deve ler”, afirma Paulino de Jesus Cardos, professor de História da África da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). “Muitas de suas idéias foram abraçadas pelas correntes principais do movimento”, afirma Abdul Alkalimat, professor de estudos africanos da Universidade de Toledo, nos EUA. “Isso pode ser percebido sempre que você vê uma reunião de negros no Congresso ou em qualquer outro nível da política”, conclui.
“Ele é fundamental pela questão de exaltar o orgulho negro, traz a idéia de que, quando agredidos, temos de responder”, defende Milton Barbosa, coordenador estadual em São Paulo e membro fundador do Movimento Negro Unificado (MNU).
“Até a década de 60, integração significava aceitação dos valores brancos. Mesmo a opção pelo islamismo é uma forma de rejeição ao ocidental europeu”, explica Cardoso. Como forma de combater essa assimilação subalterna, Malcolm passa a pregar o redescobrimento da cultura negra. “Para ele, enquanto o negro não utilizar seu próprio talento, tiver orgulho de sua história, se expressar pela sua cultura e afirmar sua individualidade, nunca vai poder ser completo”, afirmou o líder.
Tais idéias têm similitude com a de outros pensadores negros como o psicanalista indiano Franz Fanon, que viveu na Argélia e participou do movimento de libertação do país do domínio francês. Fanon escreveu livros que denunciavam os efeitos psicológicos do colonialismo sobre o homem negro dos países africanos. Outro que trabalhou o tema foi o líder sul-africano Steve Biko, que morreu na prisão em 73, após dias de tortura. Em sua tese da consciência negra, Biko defende que existiam três tipos de pessoas na África do Sul do apartheid: os brancos, em posição de dominadores, os negros, em posição de oprimidos e que devem se organizar para conquistar sua liberdade, e os não-brancos, negros na pele, mas que demonstram, por sua submissão ao status quo, que, no fundo, queriam ser brancos.
Essa postura de auto-afirmação deu origem a diversos movimentos, como os Panteras Negras e, de forma mais geral, o Black Power, com seus cortes de cabelo e suas roupas coloridas. “Nos anos 70, o debate que Malcolm mantinha com Martin Luther King se transferiu para o Brasil”, conta Renato Emerson dos Santos, professor de geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador dos Espaços Afirmados da instituição, criado para lidar com os ingressantes por cotas. “Passou-se a discutir a opção entre a busca da integração, no sentido de assimilação da cultura branca, e a radicalização da especificidade, buscando a afirmação de uma cultura própria”, completa.
Milton Barbosa participou desse momento e recorda a fundação do MNU, em 1978. “Nos anos 70, o movimento negro começa a se regorganizar após a ditadura ter praticamente acabado com movimentos anteriores, deixando apenas manifestações culturais marginais”, lembra. O MNU, com forte influencia de Malcolm X, foi lançado em 7 de julho de 1978, na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo. Naquela época, ninguém mais fazia manifestações no Centro da cidade, era muito perigoso por causa da polícia”, revela Barbosa. “Falamos com setores progressistas da igreja, com a imprensa e nos organizamos. Saímos da Barão de Itapetininga de braços dados, morrendo de medo de a polícia aparecer, mas a imprensa chegou antes, e eles não puderam fazer mais nada. Reunimos duas mil pessoas naquele dia”, orgulha-se.
No movimento hip-hop, face mais visível da cultura negra militante hoje no Brasil, Malcolm é referência obrigatória. Prova fácil é o número de rappers com nomes terminados em “X”. “O exemplo dele é o que mais influencia, passar de preso a liderança como ele fez”, afirma King Nino Brown, veterano do rap paulista e representante da Zulu Nation Brasil, que conheceu o líder pela biografia filmada por Spike Lee, mas depois buscou informações em livros. “Para mim, marcou bastante a cena do professor, dizendo que ele não poderia querer ser advogado por ser negro, deveria tentar ser carpinteiro ou algo assim. Faz pensar suas perspectivas dentro da sociedade”, completa.

Depois de Meca
As idéias de Malcolm não chegam ao Brasil em seu formato mais extremo. Dois anos antes de sua morte (em 21 de fevereiro de 1965, aos 59 anos), o líder mudou radicalmente sua linha de pensamento. O estopim foi uma viagem a Meca, um dos cinco deveres de todo muçulmano, onde teve a chance de conviver pacificamente com homens e mulheres de outras raças que seguiam o mesmo credo. “Depois de Meca, ele deixou de adotar um discurso em que se auto-exclui”, esclarece Paulino Cardoso. “Abandona o racialismo, a crença de que existem raças e que os brancos são opressores como um todo”, pontua. Isso não quer dizer que ele tenha negado suas posições anteriores, já que manteve, como ponto central, a necessidade da busca de uma afirmação dos negros enquanto povo. “Inicialmente, para Malcolm, a luta contra o racismo era a luta contra os brancos”, explica Hedio Silva Jr., pesquisador do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (CEERT). “Depois de sua transformação, a luta passou a ser contra as instituições, contra o Estado opressor”.
Mas se Malcolm mudou, muitos de seus seguidores não o acompanharam. Prova disso é a existência hoje, nos EUA, do grupo Malcolm X Grassroots Movement, sediado em Nova York. Entre suas propostas está a criação de um novo país, independente dos Estados Unidos, que reuniria os negros da nação, iniciativa que inclui uma Declaração de Independência de New African, nome do almejado Estado soberano.
Mesmo com todas as mudanças, X manteve até o final seu espírito de luta e o firme propósito de não aceitar a violência contra os negros. E é essa disposição que ativistas de todo o mundo reconhecem como sua principal herança, sintetizada em uma declaração dada por ele. “Não há nada em nosso livro, o Corão, que nos ensine a sofrer pacificamente. Nossa religião nos ensina a ser inteligentes, pacíficos, corteses, obedecer à lei, respeitar a todos; mas se alguém colocar a mão em você, mande-o para o cemitério. É uma boa religião. E ninguém se ressente desse tipo de religião, exceto um lobo que pretende fazer de você sua refeição… Não, preserve sua vida, ela é a melhor coisa que você tem. E se você tiver que desistir dela, faça com que as coisas fiquem quites”.

Para saber mais
Sobre Malcolm X: www.brothermalcolm.net e www.blackradicalcongress.org/
Malcolm X Grassroots Movement: www.mxgm.org
Zulu Nation Brasil: zulunationbrasil@terra.com.br



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