A manipulação da moral

Para o professor Renato Janine Ribeiro, questões morais são manipuladas pela mídia e pela oposição, enquanto importantes escolhas políticas e econômicas ficam à margem do debate público

955 0

Para o professor Renato Janine Ribeiro, questões morais são manipuladas pela mídia e pela oposição, enquanto importantes escolhas políticas e econômicas ficam à margem do debate público

Por Glauco Faria

O brasileiro dá muita atenção às denúncias de corrupção, mas tem extrema dificuldade em enxergar e avaliar as opções políticas que um governante faz. Essa é a opinião do professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP) Renato Janine Ribeiro, diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Para ele, a opinião pública ainda não amadureceu o suficiente para perceber que as questões morais podem ser manipuladas pela mídia e pela oposição, tornando-se parâmetro principal para julgar-se um governo. “Isso cria um sistema, uma conturbação, uma indignação que é muito grande e que não corresponde necessariamente à verdade das coisas”, acredita.

Na entrevista a seguir, Janine fala a respeito da instabilidade política nos países da América Latina, do atual cenário brasileiro e destaca a importância de buscar-se o diálogo com o Poder Público por outras vias que não os partidos políticos. “Não estou convencido de que a gente deva continuar pensando a política a partir dos partidos. Acho que eles continuam sendo importantes, mas há outras formas de agir social e politicamente.”

Fórum — Essa situação de instabilidade do quadro político brasileiro, se considerarmos os últimos anos, não é exclusividade nossa. Há uma crise muito mais séria na Bolívia, houve tentativa de golpe na Venezuela, tivemos, na Argentina, três presidentes se sucedendo em um período muito curto. Há algo de comum entre esses incidentes?

Renato Janine Ribeiro — Existe sim. Estamos pagando o fato de que as ditaduras caíram na América Latina basicamente no momento em que as vacas se tornaram magras. Enquanto havia bastante dinheiro, os regimes ditatoriais se apropriaram dos recursos, canalizando-os para os setores historicamente privilegiados. O dinheiro começou a faltar em decorrência da crise do petróleo em 1973. Sintetizando os anos que seguiram, os regimes ditatoriais foram cedendo lugar a regimes civis que tinham entre suas “qualidades” a de socializar os prejuízos. É a velha coisa de que falava Celso Furtado: no Brasil se privatizam os lucros e socializam os prejuízos.

Então os regimes civis na América do Sul herdaram um legado pesadíssimo em dívida social, em dívida de dinheiro mesmo e não tiveram condições de saldar essa dívida, que é muito vultosa. Por conta disso, a partir de determinado momento da década de 1990, ocorre uma série de crises de governos eleitos pelo povo, mas que são derrubados. No caso do Brasil, isso ocorreu pelo processo legal, mas em outros casos foram formas extralegais, como a queda de De La Rúa na Argentina, de Fujimori no Peru, as duas quedas na Bolívia. Nesse ponto de vista, o plebiscito que manteve o Chávez no poder, embora eu não aprecie as suas políticas, foi um dado muito positivo, a única dessas crises de legitimidade que foi resolvida pelo povo em votação e não pela mídia ou pelas manifestações que, por legítimas que sejam, não se sabe se representam a maioria ou não. Acho que o ponto terrível nisso, seja em governos neoliberais como o de Fujimori (Peru) ou o do presidente Goni (Bolívia), seja o de De La Rúa, que estava mais à esquerda do que isso, é que todos eles não tiveram condições de quitar o débito social e isso deixa uma marca terrível. Ou você agrada os mercados, e aí aumenta o fosso social, ou tenta medidas de satisfação social, mas com isso afugenta o mercado e sua economia decai. É uma situação muito difícil.

Fórum — E tem como resolver essa dicotomia? Existe um meio termo?

Ribeiro — Em todos esses casos — e é triste dizer isso — a crise é estrutural e não conjuntural e depende relativamente pouco dos atores. Os agentes políticos podem fazer várias coisas sim, não é o caso de desanimar por completo, mas não dá também pra gente acreditar simplesmente na aparência, que é o que faz Condolleza Rice quando discute se o governo age democraticamente ou não. Isso daí é aparência.

Quanto ao caso brasileiro, é obvio que esses casos de corrupção que estão sendo denunciados, essas acusações, devem ser apurados com todo o rigor e quem quer que esteja envolvido deve ser punido, isso não há sombra de dúvida. Mas acho que o Brasil, infelizmente, fez um balanço insuficiente da destituição de Collor. Foi muito positivo tirá-lo do poder, pois Collor infringiu a lei e foi possível fazer isso rigorosamente dentro das instituições. Isso é muito bom, levou a uma série de movimentos em favor da ética na política, que foram positivos, mas teria sido preciso fazer o balanço disso e olhar com certo ceticismo também. Primeiro, Collor não caiu, a rigor, porque ele construiu a casa da Dinda. Caiu porque a sua política econômica fracassou e também por ser um outsider no sistema político. Quando entrou um insider, como Fernando Henrique, muito bem apoiado pelos agentes políticos tradicionais, e fez uma política como a de Collor, nenhuma das denúncias colou, não foram apuradas. Denúncias piores e com mais provas do que as que estão sendo feitas contra o governo Lula. A Folha tinha provas da compra de votos no caso da reeleição e isso não gerou CPI. Hoje, nós temos dizeres, rumores, no caso do mensalão e isso está a um passo de gerar uma CPI. São dois pesos e duas medidas.

Do ponto de vista da opinião pública, não houve o amadurecimento de perceber que as questões morais podem ser manipuladas e isso cria um sistema, uma conturbação, uma indignação que é muito grande e que não corresponde necessariamente à verdade das coisas. Há um certo mantra quando um governo não faz o que deveria fazer, que seria, em suma, quitar a dívida social e o comentário geral da população, seja o governo federal, estadual, municipal é: existe corrupção. O comentário não é “estamos pagando uma fortuna em juros”, que talvez seja o maior dispêndio do país. Ou se responsabiliza o gasto com funcionário público ou se responsabiliza a suposta corrupção. A explicação para todos os casos, para todo o déficit social no Brasil, se volta para a corrupção, fator absolutamente insuficiente para dar conta disso. Outras questões, como a inserção subalterna do país na economia mundial, são deixadas de lado. Com isso, passamos a ver uma discussão que se move no plano das aparências, mas que não afeta o cerne das questões.

Fórum — Como se dá essa manipulação das questões morais de que o senhor fala? Quem manipula?

Ribeiro — Basicamente a mídia, a oposição, que têm um papel muito importante, mas isso não aconteceria se nós não estivéssemos em uma sociedade que deu à moral um papel preponderante. A sobrevivência simbólica do brasileiro tem que ver com moral. Quando você pega um criminoso, ele te dirá que tem uma ética própria, peculiar, que admite, por exemplo, o Hildebrando Pascoal serrando gente com moto-serra enquanto um estuprador é assassinado na cadeia. Uma ética muito curiosa, mas isso é um bom significante do fato de que as pessoas, de certa forma, ancoram sua dignidade na afirmação de que têm uma ética própria, não necessariamente a mesma pra todo mundo. Em função disso, qualquer apelo ético, qualquer discurso que denuncie, que afirme que os bens deveriam estar com quem pratica o “bem” é extremamente popular no país. Esse discurso é fruto também de uma falta de prática política, de uma falta de educação sobre as relações sociais que acaba prejudicando muito o país. Não basta dizer que é a mídia ou o tucanato ou a oposição. Há um elemento forte na sociedade que responde a isso, uma predisposição.

Fórum — Podemos dizer, por exemplo, no caso do Collor, que ele foi eleito devido a uma questão moral e caiu também por conta dela?

Ribeiro — Sim, caiu, mas o país deveria ter dito: nós não queremos mais corrupção, mas também queremos fazer o balanço do que foi esse experimento neoliberal, se serviu ou não, em que medida serviu. Se tivéssemos refletido a respeito dessa experiência, haveria críticas melhores, pois aquelas feitas a FHC eram basicamente morais, assim como as críticas ao Lula. Com isso, perde-se o essencial, quer dizer, dever-se-ia criticar o Fernando Henrique pelas opções que fez e Lula também pode ser criticado pelas escolhas que adotou. O peso de vinte mil ou trinta mil reais por mês é pequeno se comparado a essa questão muito maior que são as escolhas que um governante faz e, por outro lado, as escolhas que o povo faz.

Fórum — A sociedade consegue enxergar essas opções?

Ribeiro — Não. Isso tudo é extremamente mascarado. Primeiro, há um sistema educacional ruim, daí que as pessoas têm dificuldade. No Brasil temos uma crítica automática ao governo, mas uma crítica em termos morais e pouco conseqüente. Fala-se na corrupção, nos altos custos e, se olharmos de perto, notamos que não é por aí que o dinheiro vai para o ralo, o grande problema que atazana o país é o problema da dívida e dos juros que por ela são pagos. Isso sangra o país. Mas isso não é visível, não é comentado.

Fórum — Essas denúncias de compra de votos não mostram uma grande fragilidade dos partidos políticos? O que evoluiu nos partidos políticos no Brasil desde a redemocratização até hoje?

Ribeiro — Essa pergunta é muito difícil, porque, em primeiro lugar, há um consenso muito grande entre os cientistas políticos a respeito da fragilidade dos partidos. Não sou cientista político e não concordo necessariamente com a idéia de que a via por excelência para se ter uma democracia forte é por meio dos partidos. Acho que em um tipo de sociedade como a que vivemos hoje, pós-moderna, os vínculos são muito mais instáveis, muito mais modificáveis. Então esses vínculos significam que a gente passa a ter muitas maneiras de relacionamento social. O partido é uma delas, mas existem ONGs, agrupamentos outros que participam. Não estou convencido de que a gente deva continuar pensando a política a partir dos partidos. Acho que eles continuam sendo importantes, mas há outras formas de agir social e politicamente.

Nós vivemos em um tempo passado, quando a política era vista como fulcro das relações sociais em uma direção democrática. Hoje temos muitas condutas que, aparentemente, não são políticas, mas que definem uma diferença significativa na qualidade de vida e o lado curioso é que o Brasil é muito atrasado do ponto de vista de uma política moderna, ou convencional, se quiser chamar, e muito avançado na questão dos costumes. É um país em que aquilo que tem a ver com afeto, com os costumes, até de uma maneira pouco refletida, avança muito, ao passo que aquilo que tem a ver com a posição, uma visão francesa ou mesmo argentina, chilena, da política, que passam uma educação e por um debate cívico constante, é muito fraco. A política no sentido moderno está em crise no mundo inteiro, mesmo nos lugares tradicionais da democracia como França, Inglaterra e Estados Unidos. Na França, nas últimas eleições presidenciais foi para o segundo turno presidencial um racista. Os Estados Unidos foram governados quatro anos por um presidente que perdeu a eleição. Nesse sentido, pode-se dizer que isso é mais avançado que a política brasileira?
Temos uma crise da política baseada nos partidos e nas instituições e é uma crise mundial. E você tem sinal de outras demandas, outras formas de entrada das massas na sociedade. Há duzentos anos que elas estão ingressando onde não era o seu lugar e a cada etapa nova desse processo temos significações muito novas. Houve um momento em que as massas quando entraram na vida pública significou, por exemplo, o avanço do anarquismo; houve um momento em que significou os partidos totalitários, nazista, fascista e comunista, porque eram massas incultas, sem cultura política.

Hoje há massas que não se pautam pela leitura, pela teoria das escolhas racionais, mas que se manifestam mediante e em grande parte pelos mass media, os meios de comunicação de massas. Isso quer dizer que o papel da televisão se tornou fundamental para entender as massas. A televisão é positiva? Acho que não, mas também não é totalmente negativa. As novelas da Globo insistem há muitos anos na igualdade entre homem e mulher. O discurso não é tão bom quanto o de uma feminista de carteirinha, só que atinge dezenas de milhões de pessoas. Então, a televisão é um novo espaço público se você considerar que o é fora da agenda política propriamente dita. Nessa agenda ela é paupérrima. Na igualdade das mulheres ela é forte, no respeito aos homossexuais ela é muito forte. Na questão do preconceito de cor ela é mais fraca, porque é muito difícil quebrar o preconceito de cor sem mexer na estrutura de classes e aí a TV não quer e não pode.

Fórum — O senhor acha que a crise pode significar uma mudança na relação entre o PT e o governo?

Ribeiro — É possível que sim, mas acho que tudo isso é um momento de amadurecimento, o PT está tendo que enfrentar algo diferente do que está acostumado, mas é preciso que ele seja capaz de redimensionar algumas demandas de governo. O partido, mesmo no governo, ainda tem um discurso de oposição, que não pode se manter perpetuamente.

Fórum — O fato de uma das principais bandeiras do partido, a ética, ter sido atingida, pode ferir a imagem do partido de forma definitiva?

Ribeiro — Por enquanto, toda a esquerda sai enfraquecida. O lado positivo é calcular o que o governo pode reequacionar para ter novas posturas. Por um lado, a crise é bem vinda porque pelo período que ainda falta de mandato pode-se fazer uma revisão dos equívocos e melhorar diversos pontos. Mas não podemos nos enganar, a situação não é positiva, embora possamos fazer uma reviravolta. Ninguém está ganhando, pela primeira vez em muito tempo toda a esquerda está na defensiva.

O PT muitas vezes transformou a ética na questão única, deu muito espaço para esse discurso que se funda em termos morais que acaba sendo negativo para ele próprio, quando validava toda suspeita como se já fosse uma condenação. Com isso, o partido deixou sua imagem afetada, já que abriu espaço para o que está acontecendo hoje.

Fórum — A crise pode alterar o relacionamento do governo com parte da esquerda que se mostrava insatisfeita com o tratamento recebido, como alguns movimentos sociais? Eles podem passar a ter mais voz?

Ribeiro —   Talvez algumas posições governamentais possam ser revistas. Mas o fato dos movimentos sociais tomarem a defesa do governo não significa que eles poderão “cobrar a conta” mais à frente, por exemplo, mudando a política econômica que é muito difícil de ser modificada. Esse é um ponto que nós estamos tendo muita dificuldade. Hoje, há uma pressão muito forte para tentar inviabilizar o governo. Dá para tentar resolver muitos pontos, mas não estou otimista.

Fórum — Essa crise da política tradicional que o senhor menciona não vem também acompanhada de uma crise não da democracia, mas do conceito de democracia?

Ribeiro — Não sei se é crise, mas você tem várias redefinições. Primeiro, a palavra democracia se ampliou muito, pode ser aplicada em várias condutas que não tem nada que ver com o poder do povo. Podemos, por exemplo, falar de um professor democrático, um patrão democrático, um pai democrático, para alguém que não foi eleito para essas três funções. Então, o que quer dizer democrático? No caso, quer dizer bom, uma pessoa que respeita o outro. À palavra democracia passaram a ser conotados inúmeros valores positivos. É muito raro, depois da Segunda Guerra Mundial, alguém usá-la no sentido pejorativo. Mesmo quem a ataca usa algum termo como “democratismo”, que seria uma pseudodemocracia. Nesse caso, não se está atacando a democracia, mas um sucedâneo fraudulento dela. Mas há um risco também de as palavras se tornarem vazias, como a palavra cidadania. Ela hoje se aplica a tanta coisa que corre o risco de ficar imprecisa. Democracia, por exemplo, hoje inclui os direitos humanos, mas há certos direitos humanos que se opõem à democracia. Se considerarmos, por exemplo, que a propriedade é um direito humano e esse direito é ilimitado, certas pessoas sem responsabilidade social pela propriedade se tornam um problema para a democracia, fundam uma desigualdade aguda. Nesse caso, o que é democrático é que o direito à propriedade entre em contato com outro conteúdo importante que é o primado do povo ou direito humano à vida digna.



No artigo

x