A metafísica do pênalti perdido

Adoro o escritor austríaco Peter Handke. Mas só mesmo alguém que não entende nada de futebol pode escrever um romance intitulado A angústia do goleiro diante do pênalti. Ora,...

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Adoro o escritor austríaco Peter Handke. Mas só mesmo alguém que não entende nada de futebol pode escrever um romance intitulado A angústia do goleiro diante do pênalti. Ora, qualquer criança sabe que se há alguma angústia, ela é do batedor. O goleiro só tem a ganhar. O texto de hoje é uma reflexão sobre essa estranha expressão, “perder um pênalti“.

Para perder-se alguma coisa, supõe-se que nós a tenhamos. Mas quem tem o pênalti, desde o momento em que ele é marcado, é o goleiro. O goleiro é o dono do pênalti, mas só o cobrador pode perdê-lo. Perder o que não se tem, eis aí a tragédia do pênalti para o batedor. Quem já amou sabe do que falo. A partir do momento da marcação, o atacante recebe um presente de grego, um presente ao qual ele só pode, na melhor das hipóteses, fazer jus: confirmar o que todos esperam e fazer o gol. Ele só pode, se convertê-lo, ficar quites. Se não convertê-lo, estará em débito com o presente recebido, terá se mostrado indigno de recebê-lo: um mau recebedor de presentes, um ingrato. Não há angústia do goleiro na cobrança do pênalti. A verdadeira angústia é a do batedor: a angústia dos que só têm a perder.

Quem se lembra dos pênaltis convertidos? Ninguém. Só os pênaltis perdidos têm morada na memória. Quantos gols de pênalti terá feito o Zico? Dezenas muitas. Mas todos se lembram do pênalti perdido em 1986, contra a França. Convertido, aquele pênalti teria levado o Brasil às semifinais da Copa do Mundo. Não há jogador mais amado pelos atleticanos que Toninho Cerezzo, mas a memória mais marcante desse que tanto ganhou nunca deixou de ser o pênalti chutado quase nas arquibancadas na decisão de 1977, no fatídico 05 de março de 1978, de tão triste memória para todos nós que achamos que o futebol e o jiu-jitsu devem continuar sendo dois esportes diferentes.

Os italianos, coitados, são especialistas em reminiscências de penalidades máximas. Lembram-se de serem eliminados nos pênaltis das copas de 90, 98 e, claro, de Baresi, herói e grande craque da decisão de 94, zagueiraço que anulou Romário e Bebeto durante 120 minutos, chutando para o espaço, ironicamente, o pênalti que começou a entregar o tetracampeonato ao modesto escrete feijão-com-arroz de Parreira.

Dos pênaltis convertidos só nos lembramos por coisas alheias ao pênalti mesmo, como o milésimo gol de Pelé. Até nisso o pênalti foi irônico: aquele que marcou gol de tudo quanto foi jeito, de letra, de cabeça subindo na testada, de cabeça mergulhando no peixinho, de costas, por cobertura, de voleio, de bicicleta, de meio-voleio, espírita, de placa, além de quase todas as combinações possíveis entre eles, o gênio que fez mil duzentos e tantos desse momento único que não conhece nenhum outro esporte, pois ele, o Rei maior, teve que se resignar a marcar o milésimo de pênalti, arrastado, chorado, com o goleiro Andrada quase pegando a bola pelo rabo, quase humilhando o Rei ali na boca da butija, com o teatrão todo preparado já para a festa do seu gol mil. A bola entrou e o Rei escapou por pouco, como escapou tantas vezes, mas não eludiu o gostinho amargo de que o milzão foi feito ali, na obrigação protocolar do penal.



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18 comments

  1. aiaiai Responder

    Lembro de um jogador que há alguns anos disse q achava que não deveriam comemorar penaltis…que era obrigação. Só não lembro quem foi. Concordei totalmente com ele.

  2. renato Responder

    Itália foi eliminada nos penaltis quatro vezes seguidas: 90, 94, 98 e 2002, para em seguida ser campeã – nos penaltis – em 2006.

    E salve Evair, aquele que praticamente não perdeu penaltis, muito menos os importantes, tendo feito de penalti contra o Corinthians em 1993 e contra o Deportivo Cali na final de 1999.

    1. Bruno Stern Responder

      Em 2002, a Itália perdeu para a Coreia na morte súbita.
      E em 2008, a Italia voltou à sua agonia nos pênaltis na Eurocopa.

      1. renato Responder

        É mesmo Bruno, na morte súbita, depois de anularem um legítimo italiano.

  3. Milton Ribeiro Responder

    “O pênalti é o único gênero de execução em que o algoz pode tornar-se vítima.”

    Jorge Valdano.

  4. Leo Boechat Responder

    Excelente.

  5. Rafael Responder

    Lembraria de Palermo, da seleção argentina, notável apenas por ter perdido 3 ou 4 pênaltis em uma partida.

    E que bela frase: “O goleiro é o dono do pênalti, mas só o cobrador pode perdê-lo.”

    1. Idelber Responder

      Paraíba! Nem imaginava que você andava acompanhando esta bodega. Abração pra você e Mônica.

  6. Ricardo Oliveira Responder

    Como já dizia Neném Prancha: ” Penalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”

  7. Ricardo Oliveira Responder

    Como já dizia Neném Prancha: ” Penalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube” De fato só se perde o que se tem. E o que dizer de comentários como: ” ao bater o penalti o jogador acertou a trave ” acertou ?? Ele queria que a bola batesse na trave ?

  8. Luciana Responder

    Um prazer ler este texto. Sempre senti a o peso e a solidão do batedor. E sempre me solidarizo com aquele ar desamparado e o andar meio de lado dos que perderam pênaltis decisivos. Andam sempre por aí com um membro a menos. Aposto que coça, à noite. No mais, nunca sei que título é mais inspirado: À Sombra das Chuteiras Imortais ou A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto.

  9. Renata L Responder

    Eu tenho grande talento que,infelizmente, não sei como monetarizar: acerto, só de olhar prá cara do batedor, se o pênalti vai entrar ou não. Porque pênalti é aquela coisa que muito raramente depende do goleiro, como dito aqui(embora eu ache que ele se angustie, claro; não importa o fato objetivo mas o sentimento da hora) – e pela cara do sujeito já dá pra ver se ele se garante na batida ou se foi ultrapassado pelos acontecimentos. Tiro e queda.

  10. Nicolau Responder

    Genial o texto, e tão brilhantes quanto os comentários da Luciana e da da Renata L. “Aposto que coça à noite”…
    Um acréscimo sobre o Baresi: esteve machucado metade da Copa, voltou na final e jogou demais. Lembro claramente dele deitado no chão, após o jogo, e o massagista a lhe alongar a perna. A expressão de dor dele foi um negócio impressionante.

  11. JG_ Responder

    E pra mim, Baggio foi mais jogador que Romário, #prontofalei. Mas um único pênalti, e tudo o que ele representava, colocou injustamente o italiano um escalão abaixo do baixinho no reconhecimento histórico.

    E o pior, o universo, esse peralta, pra corrigir a injustiça cometida em 94, ofereceu a copa de 2006 para aquela horrorosa seleção italiana. E como se não bastasse, a Bola de Ouro de Baggio, por tabela cai nas mão de Cannavaro, e é lembrada hoje como a mais bizonha da história.

    1. Guilherme Levy Responder

      E desde quando Romário foi jogador?
      O baixinho é peladeiro, dos melhores que já que existiram.
      Quando passar, será centroavante titular no time onde Garrincha joga atualmente.
      Pronto, falei.

  12. JG_ Responder

    É como se o goleiro não existisse.

    Nas peladas de bairro, com dois chinelos como traves, não havia goleiro, mas havia pênalti, batido a cinco passos largos distante da “barrinha” (“mas e tamanho das pernas?”, esse é o espírito).

    A angústia do batedor era a mesma.

  13. fm Responder

    Concordando, na mesma decisão em 78 João Leite pegou duas cobranças.
    Mas é engraçado que todos se lembrem de pênaltis tão distantes no tempo, o Brasil foi eliminado à pouco da copa américa por errar quatro cobranças.
    A impressão que tenho é que pra que a angústia diante de um pênalti ressoe tem que ter algo a mais que um goleiro e um batedor. Tem que ter equipes com torcidas apaixonadas, campeonatos importantes com partidas decisivas e grandes jogadores que percam, ou não, penaltis.
    Por exemplo, ninguém se lembra quem perdeu os penaltis pelo São caetano na eliminação da equipe na libertadores de 2004 a dois jogos da final. Pra dizer a verdade, acho que ninguém nem se lembra que o São caetano disputou a libertadores.
    Talvez seja pelo mesmo motivo que ninguém tenha citado os 4 perdidos na eliminação do brasil. Faltou paixão, e a culpa não é do torcedor.

    1. Zé Carlos Responder

      Valdir Peres não pegou nada… chutaram 3 prá fora…. e o Galo foi vice campeão invicto e com 10 pontos a mais que o São Paulo. Não deixaram Reinaldo jogar a final.


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