A mídia na berlinda na América Latina

A mídia hegemônica latino-americana, concentrada nas mãos de poucas famílias oligárquicas, metida nas mais sombrias histórias de golpes militares e apoios a regimes autoritários e porta-voz da implantação do destrutivo receituário neoliberal na região,...

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A mídia hegemônica latino-americana, concentrada nas mãos de poucas famílias oligárquicas, metida nas mais sombrias histórias de golpes militares e apoios a regimes autoritários e porta-voz da implantação do destrutivo receituário neoliberal na região, está na berlinda e atravessa um dos períodos mais delicados de sua trajetória.

Por Altamiro Borges

 

A mídia hegemônica latino-americana, concentrada nas mãos de poucas famílias oligárquicas, metida nas mais sombrias histórias de golpes militares e apoios a regimes autoritários e porta-voz da implantação do destrutivo receituário neoliberal na região, está na berlinda e atravessa um dos períodos mais delicados de sua trajetória. O fim da concessão pública à emissora Rádio Caracas de Televisão (RCTV), concretizada à meia-noite de 27 de maio, coloca num novo patamar o debate sobre o papel dos meios de comunicação. A decisão soberana do governo de Hugo Chávez pode ter um efeito dominó no continente e, exatamente por isso, tem gerado a reação colérica dos “donos do capital” e dos “latifundiários da mídia”.
“Este é o último e triste capítulo da novela do autoritarismo na Venezuela. Só nos resta torcer para que o enredo não se repita no Brasil, por meio da TV pública que Lula se empenha em criar”, rechaça o yuppie Rodrigo Maia, novo presidente do DEM, o ex-PFL, também chamado de Demo. Já no pomposo evento da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), no final de maio, seu presidente, outro “mauricinho”, Daniel Slaviero, fez um discurso raivoso contra a decisão venezuelana e foi aplaudido pelos magnatas da mídia. A mesma reação hidrófoba é presenciada em outros veículos privados da região, que repetem o “pensamento único” das corporações midiáticas dos EUA, em especial da CNN e da Fox.
A decisão do presidente Hugo Chávez de aplicar os preceitos constitucionais sobre concessões públicas, é plenamente justificada. A RCTV é hoje um “partido da direita”, ativa participante da frustrada tentativa de golpe em abril de 2002 e envolvida em inúmeras irregularidades – sonegação de impostos, evasão de divisas, divulgação de pornografia, retenção das pensões de seus funcionários. A recente desclassificação de documentos do Departamento de Estado dos EUA comprova que vários de seus jornalistas recebem “propinas” diretamente da embaixada estadunidense em Caracas. Condoleezza Rice, secretária de Estado do presidente-terrorista George Bush, mantém correspondência direta com a gerência dessa emissora.
A RCTV é indefensável. Até os que a defendem são obrigados a reconhecer o seu papel ilegal e nocivo no golpe de 2002. O problema, para os “donos de imprensa”, é que o seu fim revela o caráter de classe e as podridões dessa mídia, que manipula informações e deforma comportamentos. O temor corporativo é que esse debate se irradie. O jovem presidente do Equador, Rafael Correa, já anunciou que reabrirá o debate sobre as concessões públicas no país. “A mídia é corrupta e mentirosa”, afirmou em recente discurso. Já o presidente Evo Morales condenou a “libertinagem de imprensa” existente na Bolívia. E até o presidente Lula, mais chegado numa conciliação de classes, resolveu bancar recentemente a proposta da criação de uma rede pública de televisão para se contrapor ao poder monolítico da mídia privada.
A mídia hegemônica, que se acha acima do Estado de Direito e que ainda goza da benesse da publicidade oficial, está temerosa. Nada mais natural. Nas campanhas eleitorais recentes na América Latina, ela tomou “partido” e fez campanha aberta em defesa de candidatos da direita neoliberal. Na Bolívia, mais de 80% do noticiário foi contrário ao cocalero Evo Morales. No Equador, ela é o principal porta-voz das forças conservadoras. Na Argentina, tem infernizado a vida de Nestor Kirchner. No Brasil, a TV Globo forçou a realização do segundo turno. Apesar dessa manipulação, ela é derrotada nas urnas pela “força do povo”. Nesse processo, cai a ficha até dos políticos mais pragmáticos e conciliadores. Em decorrência desse cenário, a mídia hegemônica, que se achava imune, está no banco de réus – para o bem da democracia!



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