A saga indígena no Brasil

Cidadania plena Por Helio Santos   Aqui, os índios tudo deram de si. Tal doação deve ser compreendida em uma versão maximizada. Há muitas indagações: deram ou...

321 0

Cidadania plena

Por Helio Santos

 

Aqui, os índios tudo deram de si. Tal doação deve ser compreendida em uma versão maximizada. Há muitas indagações: deram ou tomou-se deles? Como deveriam ser chamados? Índios nacionais? Índios brasileiros? Ou tão-somente índios? Atualmente, há quem, estupidamente, tente colocar os índios como se fossem contra o país. Isto é, espécie de estrangeiro que operasse contra o desenvolvimento. É fácil perceber que se está diante de um escárnio supremo. Não há como não se indignar diante da tentativa de metamorfosear os índios em estrangeiros!

Os Tupis, ao contrário dos Tapuias, são tidos como formadores da gênese brasileira. Teriam dado tudo: língua, trabalho e o ventre sagrado de suas mulheres que geraram os primeiros brasileiros e, finalmente, doaram, com a sua extinção, a sua própria existência enquanto povo. Sabe-se lá quantos séculos foram gastos para se construírem enquanto nação. Convenhamos, não é pouca coisa. À época do descobrimento, os índios somavam cerca de 6 milhões de almas. Há quem afirme um número muito maior. Antes de 1500, viviam nessas paragens mais de mil nações. Hoje, existem apenas cerca de 300 mil índios. Diminuíram de lá para cá cerca de 20 vezes! São, portanto, meio milênio depois, apenas 5% do que foram naqueles tempos. Sobreviveram pouco mais de 200 etnias. Essa matriz brasileira desapareceu, fisicamente, enquanto índio, tal como este é e foi conhecido. Aliás, muito mal conhecido e interpretado. Todavia, esse desaparecimento enquanto povo “migra” para dentro do brasileiro remanescente; que também é índio. Portanto, não termos desenvolvido, aqui, uma cultura de devoção aos índios foi uma grande falta.
Quando, nos dias atuais, os estudantes brasileiros se pintam (os “cara-pintadas”) exigindo mais patriotismo e probidade por parte dos governantes, tem-se a revelação de nossa ancestralidade indígena.

É a guerra contra algo que nos indigna. É o combate dos justos. Nessa trajetória de autoconhecimento na qual todos os cidadãos dessa terra devem empenhar-se, fica-se sabendo de onde provém essa nossa postura de integridade. Referimo-nos a uma ética natural, não escrita, a qual não se burla.

Nosso gosto pela água de rio e, sobretudo, de cachoeira; nossa paixão pelos banhos de todo tipo são “coisas de índio”. Esse hábito de higiene pessoal não é herança do “civilizado” europeu. Pelo contrário, este nem sempre foi um entusiasta da banheira.

A expressão “selvagem” significa ausência de regras e normas. Nesse sentido, não deve ser aplicada aos índios. Estes têm suas normas de conduta “escritas” onde conta – em seus corações. São regras que foram exercitadas, fielmente, provavelmente por milênios. Na terra-brasilis “evaporaram” com um patrimônio mundial sem-fim. Cerca de mil povos indígenas sumiram! Uma só dessas nações é suficientemente sagrada para não se perder. Os 6% do território nacional que hoje, oficialmente, pertence aos índios remanescentes não é um espaço tão vasto assim, considerando o que doaram. De início, os 94% que foram apropriados por todos nós. Depois, formaram parte significativa do que somos. Se por um lado o número de índios declinou, estes foram sendo diluídos em todos nós. Não só pela mestiçagem mas, sobretudo, por ela. Doaram ainda a falta de certeza que se contrapõe à “certeza” do homem branco, proporcionando-nos um equilíbrio ainda não decodificado em toda a sua dimensão pelos analistas da alma nacional.

As inúmeras mães índias – que cederam seus ventres para gerarem os filhos do homem europeu – são a raiz atávica do Brasil. Não só propiciaram a vida, mas foram ainda educadoras. São as Grandes-Avós de todos nós, a quem nunca cul¬tua¬mos. Tudo o que se devotar a elas é pouco.

Alega-se que a mão-de-obra indígena pouco teria colaborado para a formação econômica do Brasil. Esse posicionamento revela a mania ocidental de medir riquezas e coisas pela sua exclusiva dimensão material. Aliás, essa é uma das causas de tanta miséria de cunho material e moral. Do ponto de vista material, se nada devêssemos ao índio pelo trabalho que o português também não fez, tomamo-lhe o seu bem sagrado: a terra que viria a constituir-se em um continental país.

As epidemias, como a varíola, peste trazida pelo homem branco, chegaram a matar, por dia, mais de dez mil índios! Várias riquezas foram cedidas por eles; outras foram tomadas. Nesse inventário de doações e expropriações, há centenas de nações, milhões de vidas, filhos mestiços que alicerçam o país e mais de oito milhões de quilômetros quadrados de terras e rios. A magnitude dessa dívida não tem dimensão material, mas precisa ser reconhecida.

hsantos@revistaforum.com.br



No artigo

x