A voz da favela

Localizada no Complexo da Maré, a Escola Popular de Comunicação Crítica iniciou suas aulas em setembro, com a proposta de construir uma nova comunicação a partir do ponto de vista dos moradores de comunidades...

490 0

Localizada no Complexo da Maré, a Escola Popular de Comunicação Crítica iniciou suas aulas em setembro, com a proposta de construir uma nova comunicação a partir do ponto de vista dos moradores de comunidades populares

Por Karine Mueller

 

Nos anos 80, a música Alagados, do Paralamas do Sucesso, retratava o símbolo da miséria nacional: os moradores das palafitas localizadas no bairro da Maré, Rio de Janeiro. Aos poucos, as pessoas foram transferidas para construções pré-fabricadas, formando o Complexo da Maré. Hoje, com cerca de 132 mil habitantes que vivem em 16 comunidades, o local acaba de inaugurar seu primeiro curso de comunicação.
Iniciativa do Observatório de Favelas, organização não governamental que atua há cinco anos no local, a Escola Popular de Comunicação Crítica tem o apoio do Ministério da Educação (MEC) e conta com parceiros como a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Sindicato dos Jornalistas do Rio, o Canal Futura, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraj) e outros. As aulas tiveram início no último dia 5 de setembro e os alunos são jovens oriundos da Maré e de outras seis comunidades populares: Manguinhos, Alemão, Parada de Lucas, Vigário Geral, Mangueira e Jacarezinho. Durante um ano, os moradores dessas localidades vão passar por uma formação intensiva nas áreas de fotografia, vídeo e comunicação integrada (rádio, internet e jornalismo impresso).
Marcio Blanco, 29 anos, cineasta formado pela UFF, é o coordenador e professor de Audiovisual da Escola. Ele explica que o curso busca, além da formação técnica e teórica, construir alternativas de comunicação e cultura a partir do ponto de vista das comunidades populares. “O curso não quer somente fazer uma formação técnica, mas também política, despertando nos alunos um olhar crítico sobre a comunicação, principalmente aquela que tem como objeto as favelas”, explica. “Durante as aulas, estaremos provocando uma série de questionamentos sobre os motivos que, ao longo de cem anos de história, cristalizaram essa imagem negativa do lugar onde eles vivem”. A maioria dos selecionados tem o ensino médio, já que a Escola foi construída em cima do modelo de curso de extensão universitária. Os que não concluíram o ensino médio manifestaram características importantes para produzir comunicação popular.
Um dos 45 alunos que faz parte dessa primeira turma é Bruno Aguiar Celestino, de 18 anos. Apesar da pouca idade, o estudante acumula um histórico de liderança invejável a qualquer jovem de sua comunidade, o Morro dos Mineiros, no Complexo do Alemão. Concentrado nas aulas e nas falas dos professores, ele não perde a oportunidade de manifestar sua opinião. Crítico, ele afirma que quer trabalhar com um jornalismo que passe informações de forma verdadeira e não manipulada. “Engolimos muita coisa que passa na televisão sem analisar. E quando acontece perto da gente, percebemos que aquilo não era bem verdade”, reflete. “Por meio da Escola, quero produzir um jornal na minha comunidade que ofereça às pessoas oportunidades de emprego, lazer e cultura. Também espero ajudar na ampliação da rádio comunitária que já existe lá”, conclui.
Alexandre Santos Lourenço, 34, instrutor de informática, vive perto da Escola, em Nova Holanda, na Maré. Apesar da dura rotina de trabalho, ele não falta às aulas que acontecem à noite, de segunda à sexta-feira, com três horas de duração. Ele pretende adquirir bastante conhecimento prático na área de comunicação multimídia. “Espero que a Escola gere veículos de comunicação nesta comunidade, de forma a rompermos um pouco essa mistificação que há entre a favela e a cidade.”
Mostrar a cidade como algo único, e não segregado, também foi um dos principais motivos que levou Silvana Gomes da Silveira, 28, agente de saúde, a procurar a Escola de Comunicação Popular. “Quero esclarecer às pessoas da minha comunidade os seus direitos e deveres, e assim fazer que elas assumam o compromisso de querer mudar nossa realidade”, esclarece. “Pretendo trabalhar isso através da comunicação impressa, escrita.”
Vestida com o uniforme de outra escola que também freqüenta, Monike Andrade Rangel, 19, está prestes a se formar em educadora. Ela dá aulas para crianças em um jardim de infância. Na Escola Popular, ela quer conjugar as áreas de educação e comunicação para levar mais informações à sua comunidade, no Complexo do Alemão. “Quero ajudar minha comunidade a ampliar seus conhecimentos e se socializar mais. As pessoas que vivem lá estão muito restritas ao mundo delas”, opina.

Espaço popular versus cidade

O projeto político da Escola Popular de Comunicação Crítica não é produzir uma comunicação de gueto ou de resistência. “A proposta é costurar a cidade, ou seja, não pensá-la como partida, mas em um contexto plural, onde a diferença não seja vista como desigualdade”, explica André Esteves, jornalista e mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Ele coordena a parte de Comunicação Integrada do curso e participou de todo o processo de formulação da Escola. O grande desafio de uma escola popular, de acordo com ele, é trabalhar na perspectiva de uma outra comunicação na cidade do Rio de Janeiro, que não seja aquela pautada pelos meios formais. O jornalista pontua que o próprio nome, Escola Popular de Comunicação Crítica, vincula diretamente à idéia de território, periferia e olhar crítico. “Ao mesmo tempo em que queremos disponibilizar à comunidade uma comunicação que leve em conta o cotidiano local”, acrescenta. Ele informa que a Escola já tem um financiamento do MEC para elaborar uma série de quatro documentários de 30 minutos, que discuta a visão do cotidiano da periferia. “A idéia é produzir o documentário junto com os alunos e a partir da visão deles”, completa André.
Jailson de Souza e Silva, geógrafo, professor universitário e coordenador geral do Observatório de Favelas, afirma que a Escola tem a intenção de olhar a cidade como um todo. “Não queríamos uma escola de comunicação popular feita para os pobres, o povo da favela, mas construir uma comunicação a partir do olhar da favela, da periferia”, ressalta. Partindo desse pressuposto, o projeto foi construído com instituições diversas, incluindo universidades públicas e privadas. O geógrafo enfatiza que, tradicionalmente, a universidade brasileira se formou em um padrão muito intelectualista, dialogando muito com o Estado e seus pares e pouco com a sociedade. “Articular diferentes sujeitos com a competência teórica de conseguir interpretar de formas variadas os meios de comunicação e a realidade social que a universidade carrega, pode criar um movimento muito forte”, argumenta.
Já o escritor, professor e jornalista Muniz Sodré, que participou da concepção e construção da grade curricular da Escola, lembra que o curso não é um curso regular ou normal de comunicação. “É uma atividade de extensão que se destina a formar cidadãos com potencial crítico”, conceitua. “É muito importante que esses moradores de periferia percebam o quanto a mídia os representa mal”, avalia.
Em relação à construção da grade curricular, o jornalista destaca que o principal eixo foi a Leitura Crítica. “O curso tem a pretensão de instigar a consciência crítica e ao mesmo tempo ensiná-los a manejar os dispositivos de mídia para que eles possam utilizá-los quando quiserem. Esse é o diferencial da Escola Popular de Comunicação Crítica”, finaliza Sodré.



No artigo

x