Ambientalismo antiurbano

Para a urbanista Raquel Rolnik, discussão sobre meio ambiente não leva em conta aspectos do planejamento urbano, fator determinante para que se possa garantir a sustentabilidade Por Rafael Evangelista  ...

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Para a urbanista Raquel Rolnik, discussão sobre meio ambiente não leva em conta aspectos do planejamento urbano, fator determinante para que se possa garantir a sustentabilidade

Por Rafael Evangelista

 

O fato de o movimento ambientalista surgir a partir da análise da paisagem natural acaba criando um espírito “antiurbano”, que compromete a observação do espaço das cidades. É o que observa Raquel Rolnik, urbanista e secretária nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades. “A cidade destrói, estraga, porque ocupa um pedaço, desmata. Para fazer cidade é preciso desmatar, não tem jeito, pelo menos um pedaço da mata você tem que tirar para construir o prédio para as pessoas morarem. Então há idéias muito antiurbanas, o que leva também a uma distorção, nessa visão ecológica”, esclarece Rolnik.
Fórum – Em primeiro lugar, gostaria que a professora falasse se a urbanização afeta o meio ambiente e como.
Raquel Rolnik – Tem uma influência enorme. A natureza do planejamento urbano é a discussão sobre o melhor uso possível do território, a melhor forma de uso e ocupação dele, de modo a incluir todos os segmentos sociais e econômicos para garantir sustentabilidade. Isso significa que não planejar tem impactos grandes tanto sobre os processos de inclusão territorial como também sobre a questão do equilíbrio ambiental.

Fórum – E como deve se dar o planejamento urbano? Que medidas devem ser tomadas para a cidade sustentável, tendo em vista o problema, por exemplo, do aquecimento global?
Rolnik – A primeira grande questão, quer dizer, a natureza do planejamento, depende muito da inserção regional da cidade. É difícil falar de um modelo ideal de ocupação do território sem considerar que território é esse. É totalmente diferente se você está em uma região da Amazônia, em uma área superirrigada, em um vale, uma área seca ou mesmo em um deserto. Não se pode pensar que existe uma forma ideal. A primeira consideração é a diversidade do território, dos ecossistemas. Além disso, há a diversidade também dos sistemas culturais, políticos, econômicos, ou seja, onde essa cidade está inserida. Essa é a primeira grande diretriz: não tem uma fórmula, não tem um modelo. Não dá para dizer que a boa cidade do ponto de vista ambiental deva ser de determinado modo.
Dito isso, acho que há uma discussão importante a se fazer: o ambientalismo surge, sobretudo no Brasil – e isso é algo que tem a ver com a história do movimento e da questão ecológica –, a partir da paisagem natural e também do mundo da natureza, ou seja, de uma discussão sobre Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, esses biomas. Nesse sentido, na própria trajetória do movimento ambientalista houve muito pouca coisa no campo urbano ambiental. O ambientalismo é antiurbano. A cidade destrói, estraga, porque ocupa um pedaço, desmata. Para fazer cidade é preciso desmatar, não tem jeito, pelo menos um pedaço da mata você tem que tirar para construir o prédio para as pessoas morarem. Então há idéias muito antiurbanas, o que leva também a uma distorção, nessa visão ecológica. Pensa-se que uma cidade será tanto melhor quanto maior a quantidade de espaços naturais, não mexidos, que houver dentro dela. Então são parques, áreas verdes, matas nas beiras dos rios não mexidas. E também, como decorrência disso, há uma visão de minimização de impacto da presença da área construída sobre a área natural e assim sempre se pensando em trabalhar com densidades de população muito baixas.

Fórum – O que seria equivocado…
Rolnik – Nesse sentido, há um certo mito de que a cidade será ecologicamente equilibrada se tiver densidade muito baixa. Só que isso é uma enorme falácia do ponto de vista ambiental e sobretudo para o aquecimento global. Por quê? Porque uma cidade muito espalhada gera uma necessidade de deslocamento muito grande, e o deslocamento na cidade é o grande consumidor de energia. Essa é uma das questões-chave para o aquecimento global. Os maiores problemas do ponto de vista da emissão de gases na cidade, mais que a poluição industrial, são as emissões de poluentes pelos automóveis, ônibus, caminhões. Então, temos dois problemas, que são o grande consumo de energia de uma cidade mais dispersa e a questão da emissão dos gases na atmosfera, que geram o efeito estufa e o desequilíbrio climático. Portanto, muito mais eficiente do ponto de vista ambiental será uma cidade mais compacta, com alta densidade, que deixa as áreas naturais intactas e não se espalha sobre elas. Essa é uma discussão muito importante que o movimento ambientalista não faz.

Fórum – E qual a participação do urbanismo no debate internacional sobre o aquecimento global?
Rolnik – Muito pequena. Pior que isso, só mesmo vender condomínio na periferia com área preservada dentro e dizer que isso é qualidade ambiental urbana, fazendo o povo se deslocar tremendamente na cidade. Mas não se discute nada porque mexer nesse assunto é mexer na questão do automóvel. O princípio “rodoviarista” estrutura a cidade brasileira. E é um princípio estruturador absolutamente perverso.



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