Aprendendo com os inimigos

Coluna Por Roberto Romano   A Igreja Católica é sábia. Segundo Elias Canetti, perto dela grandes líderes assumem a aparência de meros diletantes. No Concílio Vaticano 2º,...

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Coluna

Por Roberto Romano

 

A Igreja Católica é sábia. Segundo Elias Canetti, perto dela grandes líderes assumem a aparência de meros diletantes. No Concílio Vaticano 2º, ela proclamou que aprendeu muito com os seus inimigos. O mesmo deveria ser feito pelos democratas. É vezo sectário ler tão-somente os que proclamam “verdades” agradáveis aos nossos ouvidos. Muita gente que passou a juventude lendo apenas Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, longe dos “autores burgueses”, hoje pratica o receituário neoliberal. É preciso ler como Karl Marx o fazia, analisando Smith, Ricardo, Hegel, Aristóteles. Infelizmente, parte do setor progressista desconhece a técnica de leitura chamada “crítica”. Quando I. Kant escreveu as “críticas” já conhecia o pensamento de Newton e a ciência disponível em seu tempo. Quando Marx redigiu a crítica da economia política, já conhecia os teóricos anteriores. Se optasse por comentar apenas os autores favoráveis aos seus desejos, teria escrito panfletos, jamais O Capital.

Digo isso porque existem, na praça internacional, dois livros que deveriam ser devorados pelos defensores das causas sociais. O primeiro é de John Perkins (que esteve no último Fórum Social Mundial), Confessions of an Economic Hit Man. O Economic Hit Man – e Perkins foi um Hit Man – trabalha para prejudicar países dependentes das potências dominantes, fazendo-os cair em dívidas aos trilhões de dólares. Ele providencia dinheiro do Banco Mundial, da USAID etc. e o localiza nos cofres das corporações e de algumas famílias que controlam os recursos do planeta. Ele faz relatórios financeiros fraudulentos, eleições falsas, caixinhas, extorsão com sexo e assassinatos. Ele prepara armadilhas para que países assumam investimentos custosos, feitos por empresas norte-americanas e “financiados” pelos organismos. O dinheiro nunca deixa os EUA. Com as obras concluídas, ele desestabiliza governos de modo a causar sua bancarrota. Os mesmos países recorrem às generosas instituições e caem em dívidas irreais, mas que, se não forem “honradas”, retiram a nação do mapa.

O primeiro Economic Hit Man foi Kermit Roosevelt. Quando Mossadegh nacionalizou o petróleo do Irã, dirigiu-se para lá e pagou pessoas para clamar pela “democracia”. Com a queda de Mossadegh, o Xá abre as portas para os EUA. Kermit era funcionário da espionagem oficial. Surge a idéia de funcionários ligados às corporações privadas, os quais fariam o trabalho sujo sem que o governo norte-americano sofresse danos. Desde então, os Economic Hit Men prestam serviços às corporações e aos governos. Para saber os estragos produzidos por eles, basta olhar a “produção intelectual” de acadêmicos que servem nos ministérios da Economia, Bancos Centrais etc. Ignorar a escolha e o doutrinamento dos Economic Hit Men é o modo seguro de lhes assegurar latitude na ação política, ideológica etc. Muitas “colunas econômicas” da mídia têm essa origem.

Outro livro importante é Imperial Hubris. Why the West Is losing the War on Terror, de Michael Scheuer, ex-funcionário da CIA. O volume mostra que a potência norte-americana, como todos os Estados imperiais – dos gregos aos do século XX –, perde força devido ao orgulho desmedido (a hubris grega) que só aceita as teses da direita, enquanto um grupo faminto de lucros assume o controle do governo norte-americano. Scheuer desmistifica as falas ideadas sob G. W. Bush, repetidas na imprensa mundial e nas cátedras universitárias. A tese da propaganda é a de que os islâmicos radicais odeiam a democracia. O fato é que eles são contrários à política externa dos EUA, não à cultura americana. O que eles mais odeiam é o apoio da federação norte-americana aos regimes corruptos impostos ao Islã desde os tempos coloniais, hoje reiterado pela Casa Branca. Bin Laden, diz Scheuer, não é louco, mas ator político que abusa da força e do terror, em igual intensidade à utilizada pelos EUA. Além desses argumentos, que deveriam conduzir ao pensamento prudente e não à propaganda etnocêntrica, Scheuer mostra que os EUA tendem a enredar-se em uma complexa armadilha, movidos pela violência orgulhosa. Ler os dois livros, deles afastando as idiossincrasias de ex-agentes do terror estatal ou mercadológico dos EUA, é tarefa de lucidez para os que desejam um novo mundo.

rromano@revistaforum.com.br



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