Baião de Dois

Baião de Dois Por Marco Frenette   Campanha Visite um Sebo Baú de Ossos. Balão Cativo. Chão de Ferro. Beira-Mar. Galo-das-Trevas. O Círio Perfeito — esses nomes concisos...

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Baião de Dois

Por Marco Frenette

 

Campanha Visite um Sebo

Baú de Ossos. Balão Cativo. Chão de Ferro. Beira-Mar. Galo-das-Trevas. O Círio Perfeito — esses nomes concisos e fortes são dos seis volumes que compõem as memórias do médico Pedro Nava, que se suicidou em 1984. São três mil páginas de uma literatura poética, histórica e existencial sem precedentes no Brasil. É uma catedral de sentidos e um desnudamento da espécie humana. O primeiro volume saiu em 1972, pela Editora Sabiá, depois vieram as edições da Nova Fronteira e, recentemente, as edições da Ateliê Editorial. Muitos comparam as memórias desse mineiro de Juiz de Fora ao Proust de Em Busca do Tempo Perdido. Comparação errada. Nava tem a ver com Gilberto Freyre. Vejam o sociólogo em Nordeste (Editora Global): “Esse Nordeste de figuras de homens e de bichos se alongando quase em figuras de El Greco é apenas um lado do Nordeste (…) Mais velho que ele é o Nordeste de árvores gordas, de sombras profundas, de bois pachorrentos, de gente vagarosa e às vezes arredondada quase em sanchos-panças pelo mel de engenho (…) pelo ócio, pelas doenças que fazem as pessoas inchar, pelo próprio mal de comer terra”. E Nava, em Baú de Ossos: “Terminadas as partidas, vinham as negras com o chá, o chocolate, as garrafas do vinho, a frasqueira dos licores, o pinhão de coco, as mães-bentas, os cartuchos, as fofas, as siricais, os tarecos e tudo quanto é bolo de doçura luso-brasileira. Bolo ilhéu, bolo-da-imperatriz, bolos de raiva, esquecidos, brincadeiras, doce-do-padre, toucinho do céu”.
Amantes da vida cotidiana, chegam a se confundir, pois são irmãos em estilo, profundidade e largueza de espírito. E o melhor: ambos escreveram em brasileiro, não em português. Proust é uma experiência bem diferente.
Tolstói, o educador
O autor de Guerra e Paz tinha a educação das crianças em alta conta. Em 1859, fundou uma escola rural na sala de sua casa. Em um ambiente livre de primitivismos como castigo, chamada oral, lista de presença e lições de casa, o mestre russo ensinava desde botânica e música até nomes das constelações, muitas vezes em aulas noturnas a céu aberto. Parte dessa pedagogia libertária e amorosa está em Contos da Nova Cartilha (Ateliê Editorial, 192 pg., R$ 36,00), em tradução direta do russo. São histórias concisas, ora fabulosas, ora verídicas. Embora escritas por Tolstói visando os infantes, também servem para adultos temerosos de viver. Vejam esta:
“Um leão escutou uma rã coaxando alto e se assustou, pois pensou que fosse um animal grande, gritando daquele jeito. Ele ficou à espreita e viu a rã sair do pântano. O leão esmagou-a com a pata e disse: — De agora em diante, não vou me assustar sem ver o que é”.
Sem medo de música clássica
O programa Quem Tem Medo de Música Clássica?, da TV Senado, é um merecido sucesso de audiência. O apresentador Artur da Távola situa historicamente cada peça, e explica suas características composicionais. O repertório demonstra ausência de preconceito estético. Há desde obras conhecidas, como Bolero, de Ravel, até outras menos populares, como a peça Vôo do Besouro e Capricho Espanhol, do compositor russo Prokofief. Às vezes, o conceito de erudito é ampliado, como na entrevista com o flautista Altamiro Carrilho, uma das maiores expressões do choro. É alta música desmistificada, para o prazer de todos.O programa vai ao ar aos sábados (10h e 18h) e aos domingos (10h, 18h, 24h). Programação no sítio www.senado.gov.br/tv
Grandes emoções baratas

Estão nas bancas do país, a R$ 4,90 cada volume, a coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, da editora Escala (www.escala.com.br). Ao preço de duas cervejas, qualquer um pode ilustrar-se lendo obras fundamentais como Contrato Social, de Rosseau, e Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche. A coleção ainda tem David Hume, Voltaire, Maquiavel, Platão, Descartes e Kant, entre outros pensantes.

Mantra do mês

“Nunca vi de perto a alma de um bandido. Mas já vi a de um homem honesto. É uma coisa pavorosa”
Joseph de Maistre

TV negra para todas as cores

Dia 20 deste mês, Dia Nacional da Consciência Negra, entrará no ar a TV da Gente, primeiro canal negro do país. Inspirada na americana BET — Black Entertainment Television (com a qual negocia troca de programação), a emissora visará as classes C, D e E. Seu proprietário, o apresentador Netinho de Paula, diz que ela mostrará a “diversidade étnica brasileira”, além de “valorizar a inserção social”. Na direção só haverá negros. Entre as atrações, há um programa infantil com a bela e simpática Cinthya Rachel, ex- Castelo Rá-Tim-Bum; outro de esportes, com o ex-atacante Müller, e uma revista cultural, a Feijoada Pop. A qualidade estética e o nível dos programas ficam a conferir. Seja como for, é uma grande notícia o surgimento de um canal negro em um país marcado pela primariedade, quando o assunto é a questão racial.

Visões de um libertino

Em 1965, cinco anos antes de cometer harakiri, Yukio Mishima escreveu a peça Madame de Sade, misturando elementos do teatro Nô com a estética dos palcos ocidentais. Considerada uma das melhores peças do teatro moderno japonês, é uma investigação, através das reflexões de seis personagens femininas, dos acontecimentos históricos e pessoais da vida do aristocrata e libertino francês Marquês de Sade. A direção é de Roberto Lage, um amante de “um teatro do essencial” e de “espetáculos sem pirotecnia”. Madame de Sade é interpretada por Bárbara Paz. Mishima com Sade é mistura certa para implodir moralismos e deixar exposta, feito fratura, o poder incomensurável e traiçoeiro da sexualidade humana. Vale a pena conferir em que medida Lage conseguiu transpor essa tensão para os palcos. A peça fica até 11 de dezembro no CCBB, em São Paulo (r. Álvares Penteado, 112, tel. 3131-3651, sáb. e dom., às 19h30, R$ 15,00, www.bb.com.br/cultura).

Poemas, cordas e emoção
Se há uma área artística na qual os amadores fazem grandes estragos estéticos é a da poesia declamada, já que resumem tudo ao derramamento de poemas sobre um fundo musical. Geralmente, o resultado é constrangedor. Um dos salvadores dessa difícil arte é o paulista Ademir Assunção. No CD Rebelião na Zona Fantasma há 12 poemas de sua autoria e declamados por ele, todos em uma perfeita simbiose entre declamação e música. A referência maior é o blues, com sua melancolia e seus climas poderosos, gênero que casa perfeitamente com a poesia cortante e rebelde de Assunção, depositário da longa tradição dos poetas malditos: “Me querem rato/ Acuado/ Rabo entre as pernas/ Medroso/ Um verme pegajoso/ Mas eu sou osso duro de roer/ Caroço/ Faca no pescoço”. O poeta anuncia sua verdade em versos acompanhado de um excelente time. As cordas elétricas e acústicas ficaram com Luiz Waack, músico competentíssimo. Como convidados especiais, Zeca Baleiro e Edvaldo Santana. O encarte do álbum tem bons desenhos de Paulo Stocker, inspirados na Festa dos Mortos dos mexicanos. Mais informações sobre este belo trabalho no blog http://zonabranca.blog.uol.com.br



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