Baião de Dois

Baião de Dois Por Marco Frenette   Prazeres de serpente  “Sexo é intercâmbio de líquidos, fluidos, saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias....

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Baião de Dois

Por Marco Frenette

 

Prazeres de serpente 
“Sexo é intercâmbio de líquidos, fluidos, saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, se reduz a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada”. O cubano Pedro Juan Gutiérrez sintetizou assim sua visão de sexo em Trilogia Suja de Havana, lançado no Brasil em 1999, pela Companhia das Letras. Na esteira do sucesso, a editora lançou O Rei da Havana (2001), Animal Tropical (2002) e O Insaciável Homem-Aranha (2004); e agora coloca nas prateleiras O Ninho da Serpente – Memórias do Filho do Sorveteiro (224 pp., R$ 38,00), em tradução de José Rubens Siqueira e capa belíssima de Angelo Venosa.
Nessa novela, o narrador Pedro Juan tem 15 anos e presencia as transformações sociais em Cuba nos anos seguintes à revolução de 1959. O cenário principal é a cidade portuária de Matanza, onde o autor vendia sorvetes.
O estilo de Gutierrez continua o mesmo: cru, ágil e depositário de uma poética impiedosa que se nutre de uma Cuba devastada onde o sexo, mais que prazer, é uma forma desesperada de elevação. O realismo sujo de Gutierrez é do nível de um Andre Gidé ou de um Henry Miller, a despeito das diferenças estilísticas. E se fosse para compará-lo com o cinema, se aproximaria de Fassbinder (Querelle) e Pier Paolo Pasolini (Saló, ou os 120 Dias de Sodoma). A primeira frase de O Ninho das Serpentes resume a intenção de uma vida: “Eu queria ser alguém e não passar a vida vendendo sorvetes”. Gutiérrez conseguiu, e de forma magistral.

Dança com espadas 
Filmes de artes marciais já foram considerados de mau gosto. Na década de 1970, em São Paulo, eles só tinham espaço em pequenos cinemas do centro, nos quais se assistia películas asiáticas baseadas no wuxia, folclore da cultura chinesa envolvendo cavaleiros errantes, donos de habilidades quase mágicas com a espada. É o wuxia pian, ou cinema de cavaleiros marciais, o que é bem diferente do cinema de Kung Fu, ou kung fu pian, com suas lutas de punhos e pés, muitas vezes com coreografias primárias.
Um dos grandes expoentes do wuxia pian foi Chang Cheh, influência de diretores como John Woo e Tarantino. Um dos continuadores de Cheh é o diretor Zhang Yimou, que teve dois de seus filmes recentemente lançados em DVD: Herói (Buena Vista) e O Clã das Adagas Voadoras (Paris Filmes). São obras de uma estética arrebatadora, com cenários e figurinos deslumbrantes. E as cenas de luta, impecavelmente coreografadas, são um verdadeiro balé de guerreiros. Os temas giram em torno dos valores do wuxia: honra, lealdade e o bem-comum acima dos interesses pessoais.
O respeito ocidental ao gênero veio em 2000, com o sucesso de O Tigre e o Dragão (também em DVD, pela Columbia), trama em torno da luta pela posse de uma espada mítica. A crítica ocidental aplaudiu as cenas mitológicas de espadachins voadores como se fossem um avanço do cinema e não algo com décadas de existência e profundamente enraizada na cultura popular chinesa. Hoje, a admiração é tanta que a última edição do Festival de Cinema de Veneza foi inaugurada com Seven Swords, do chinês Tsui Hark. Ainda sem previsão de estréia no país, o filme conta a história de sete espadachins que combatem o poder Manchu na China do séc. XVII.

A natureza não perdoa
Em 1854, os EUA queriam comprar as terras da tribo Duwamish. Em resposta, o chefe indígena Seattle escreveu uma carta que ficou famosa por trechos como este: “Tudo quanto fere a terra fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios. (…) Todas as coisas estão interligadas. Não foi o homem quem teceu a teia de vida: ele é meramente um fio da mesma”. Isso poderia ser a epígrafe do excelente livro de Jared Diamond, Colapso (Record, 686 pp., R$ 60,00). O autor, um professor de geografia da Califórnia com experiência em Fisiologia, Biologia evolutiva e Biogeografia, faz análises histórico-culturais de sociedades tão díspares quanto a Polinésia pré-histórica na Ilha da Páscoa e uma colônia viking medieval na Groenlândia, para depois chegar ao mundo moderno. A finalidade desse tour é mostrar como a ascensão e queda das sociedades é algo ligado à maneira como elas lidam com seus recursos naturais, com seus climas e com suas geografias. Do sucesso dessa relação depende a sobrevivência das sociedades. Livro bem escrito e documentado, lança luzes sobre o grande risco do destino humano.
O enigma de todos nós

Foi lançado em DVD O Enigma de Kaspar Hauser (Versátil), do diretor alemão Werner Herzog. Filmado em 1974, baseia-se na história real de um jovem deixado em uma praça de Nuremberg, em 1828, após passar a vida trancado em uma caverna. A mente pura de Kaspar enfrentará situações que revelarão a barbárie escondida sob um fino verniz de civilização. O diálogo entre ele e o professor de lógica é o momento máximo do filme, pois revela a mediocridade acadêmica e a fraqueza das nossas certezas cotidianas. Bruno S., o ator amador que interpreta Kaspar, passou a juventude em instituições para doentes mentais. O título original é muito melhor que a versão brasileira: Jeder Für Sich und Gott Gegen Alle — Cada Um por Si e Deus Contra Todos. Frase síntese do comportamento humano quando o bicho resolve pegar.

Brasília 40 graus
Aos 76 anos, Nelson Pereira dos Santos, o diretor de clássicos brasileiros como Rio 40 Graus (1955) e Como Era Gostoso o Meu Francês (1970), está rodando seu 20º longa, Brasília 18%. É a história de um médico legista do Distrito Federal que se apaixona por uma suposta vítima de assassinato. A trama inclui elementos da atual crise política e do modo de ser dos nossos políticos, mas o principal mesmo será a “grande história de amor”, na expressão do diretor. O filme, que será lançado no próximo ano, tem a atriz Malu Mader no elenco, essa mulher que dispensa adjetivos.
A difícil arte de morar
A 6ª Bienal Internacional de Arquitetura e Design de São Paulo, que começa dia 22 deste mês e vai até 11 de dezembro no Parque do Ibirapuera (Pavilhão da Bienal, portão 3, R$ 12,00), em São Paulo, tem como tema “Viver na Metrópole — Realidade, Arquitetura e Utopia”. Nas mostras especiais internacionais serão homenageados o finlandês Alvar Aalto (1898-1976), o franco-suíço Le Corbusier (1887-1965) e o austríaco Clemens Holzmeister (1886-1983). Aalto foi um arquiteto de inspiração regional, em oposição aos construtivistas da Bauhaus; Holzmeister tem importantes obras em cidades como Berlim e Istambul; e Le Corbusier é o maior nome do racionalismo na arquitetura. Dele, serão mostrados croquis inéditos no país.
O objetivo final é “criar condições não só para os arquitetos e urbanistas mas para todos os outros segmentos da sociedade moderna, para debater e refletir sobre os conflitos e a difícil arte de morar nas cidades contemporâneas”, segundo os arquitetos Pedro Cury e Gilberto Belleza, curadores da Bienal. Para tanto, haverá também debates, provavelmente com a presença do português Gonçalo Byrne, um dos principais nomes da arquitetura européia contemporânea.
Os finos do pop
De 21 a 23 deste mês, no Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna, e no dia 23 em São Paulo, no Arena Skol Anhembi, acontece mais um TIM Festival. Tem atrações imperdíveis para quem gosta de música popular contemporânea. O forte da programação é no Rio, com nomes como Television, De La Soul, Elvis Costello, Wilco, Morcheeba, Peretz, Kings of Leon e Dr. John. Em São Paulo apresentam-se apenas os Strokes, Kings of Leon, M.I.A. Mundo Livre S/A e The Arcade Fire, o que não deixa de ser uma programação de peso. Os ingressos vão de R$ 50,00 a R$ 250,00 e podem ser comprados pela Internet (www.ticketmaster.com.br), pelos telefones 6846-6000 (São Paulo) e 0300 789-6846 (Rio). Também há vários pontos de venda espalhados pelas duas cidades, incluindo as lojas TIM.
As mil faces de Quixote
Para comemorar os 400 anos de um dos mais famosos livros do mundo, o magnífico Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1547-1616), a Panamericana Escola de Arte e Design (r. Groenlândia, 77, tel: 11 – 3885 7890) preparou a exposição temática Dom Quixote, 400 Anos Depois. Para dar suas interpretações pessoais da obra fundadora do romance moderno, foram convidados mais de 30 artistas plásticos e designers gráficos, entre eles Peticov, Baravelli, Siron Franco e Marcelo Nitsche. Há também obras de alunos da Panamericana, em diferentes mídias. A exposição é grátis e vai até dia 11 deste mês.
Os primeiros 52 capítulos de O Engenhoso Fidalgo de la Mancha foram impressos pela primeira vez em dezembro de 1604, na gráfica de Juan de la Cuesta, na rua Atocha, no centro de Madri, e chegaram ao público espanhol em janeiro de 1605. Foram 1.200 exemplares. Séculos depois, este livro pode ser encontrado em qualquer parte do mundo. Entre tantas edições brasileiras, destaca-se a da Editora 34, uma edição bilíngüe em competente tradução de Sérgio Molina e com as clássicas ilustrações de Gustave Doré (736 pp., R$ 69,00). Para os mais infantes ou em busca de uma cultura meramente ilustrativa, há o Quixote reduzido e recontado pelo poeta Ferreira Gullar (Revan, 224 pp., R$ 38,00). Essa obra de Cervantes é uma maravilha literária, e sua leitura é uma experiência estética e moral incomparável— diante dela, qualquer livro se apequena.

Mantra do mês
“Se és diferente de mim, irmão, em vez de me prejudicares, enriqueces-me.”
Antoine Saint-Exupéry



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