Bolívia rebelada

Em meio às marchas que levaram ao pedido de renúncia de Carlos Mesa, Evo Morales explica as motivações dos bolivianos para enfrentar transnacionais e velhas oligarquias Por Luis Bruschtein, Do Pagina 12  ...

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Em meio às marchas que levaram ao pedido de renúncia de Carlos Mesa, Evo Morales explica as motivações dos bolivianos para enfrentar transnacionais e velhas oligarquias

Por Luis Bruschtein, Do Pagina 12

 

Quando o presidente da Bolívia Carlos Mesa tentou usar do artifício da renúncia para voltar com mais poder (um golpe ao estilo Jânio Quadros), tinha alguns objetivos claros em mente. Um deles, talvez o principal, era neutralizar Evo Morales, deputado e líder do Movimiento Al Socialismo (MAS), acusado pelo governo de ter liderado uma escalada de protestos que acabaram por levar um governo já hesitante à total paralisia.

Indígena, filho de aymarás e lider camponês cocalero, Evo Morales não só está à frente das mobilizações por mudanças, como é peça chave na definição de rumos da Bolívia. Além das manifestações, o MAS de Evo comandou a reação no congresso a propostas de Mesa como a antecipação das eleições de 2007 para 2005. Outra vitória conquistada por Morales foi em relação à Lei dos Hidrocarbonetos, considerada o epicentro da crise política boliviana. Enquanto Mesa propunha que as empresas estrangeiras pagassem 18% em royalties, a oposição pedia 50%. A lei aprovada pela Câmara manteve os 18% em royalties do projeto original, mas criou um imposto de 32%, que agradou à oposição.

Evo Morales conta, nesta entrevista concedida ao diário argentino Pagina 12, como os setores médios do país começam a vê-lo com simpatia, até mesmo como possível candidato à presidência em 2007.

E sentencia: “Só acredito no poder do povo”.

Qual é a exata posição do Movimiento al Socialismo em relação ao gás da Bolívia? Consideramos tratar-se de um recurso natural, patrimônio nacional. Por conta disso, a primeira etapa na luta de nosso povo é a recuperação de sua propriedade. Já o segundo passo é encontrar uma forma pela qual a comercialização e a exploração desse gás beneficiem os bolivianos. Em terceiro lugar, está a exportação aos países da região – para Brasil, Chile ou mesmo Argentina. No caso do Chile, nós a incluímos no contexto de outra negociação, que é a saída ao mar. Se querem importar gás boliviano, estamos falando de reciprocidade, significa fazê-lo de modo que possa resolver os problemas de nossos países e de outros. Quando falo de reciprocidade, os países da região, devemos, fundamentalmente, nos entender. E, se falamos da Argentina, temos de entabular as negociações, mas num contexto de equilíbrio no qual nossos países se beneficiem, tanto o produtor como o consumidor. E para isso temos de tirar do meio as transnacionais, os intermediários. Que sentido faz um negócio para nossos países quando a negociação se dá entre a Repsol-Bolívia e a Repsol-Argentina? Nenhum.

Qual a perspectiva do MAS vencer as eleições presidenciais de 2007? Os chamados índios, quechuas e aymaras, condenados à extinção, ao extermínio, nossos antepassados, nossos avós, não tinham o direito de entrar ou caminhar pelas praças principais, não tinham o direito a caminhar nas calçadas. E agora estamos no Palácio Legislativo, a um passo do Poder Executivo. Temos decidido como queremos governar a nós mesmos.Dos 130 deputados, temos 27; dos 27 senadores, temos oito. Isso foi produto das eleições nacionais, nas quais fomos a segunda força política.

Sua figura no cenário boliviano tem sido duramente criticada pelo governo dos EUA. Como você vê essa reação? Se o cão ladra é porque tem alguém andando, não é verdade? E o movimento dos povos nativos, o Movimiento al Socialismo, avança com firmeza para, primeiro, fazer Evo Morales presidente, em 2007, e, depois, para que o MAS seja o governo. Mas, na presidência, no governo, governará pelo poder do povo. Acredito apenas no poder do povo. Há firmeza, somos fiéis a essa proposta. A reação do Norte não nos assusta – felizmente, o povo perdeu o medo das ameaças do governo dos EUA.

Acredita que possa existir uma atitude intervencionista, mais agressiva? Creio que este seja o espírito. Mas creio também que um governo boliviano desse tipo (popular) não estaria só. Existem, hoje, presidentes que estão com o seu povo (aos quais somou-se, como uma grande esperança para os despossuídos, Tabaré Vázquez, no Uruguai), um grande horizonte junto aos movimentos sociais e políticos para frear as soberbas do Império. Considero essas declarações que vêm da Casa Branca como uma campanha, são ameaças, amedrontamento. Eles farão campanha para os outros candidatos (ao governo boliviano), mas acredito que não estão levando em conta a decisão do movimento popular de libertação do Império. Qualquer atitude mais agressiva não teria futuro. É assim que o Império agoniza no Iraque. Estou ciente de que o Iraque será o segundo Vietnã para os EUA – assim como acredito que, caso Washington resolvesse intervir em Cuba, Venezuela, Argentina, Bolívia, Uruguai ou Brasil, seria um terceiro Vietnã.

Além do apoio dos setores camponeses e dos povos nativos, o MAS também tem recebido o voto de outros setores da sociedade, como o da classe média ou de empresários? Sim, este tem sido um processo interessante. Dou como exemplo uma vez em que, andando pelas ruas com os meus companheiros, em campanha, uma senhora da cidade, bem arrumada, se apresentou e me disse: “Vou te dizer: Evo, você não está preparado para governar”. Foi uma situação bastante agressiva. Não quis respondê-la do mesmo modo, e disse apenas “obrigado”. Então a senhora me disse: “Siga em frente, Evo, e vou votar em você porque você é honesto”. Vejo que a classe média, os intelectuais, vão se somando, incluindo empresários austeros, honestos. Estamos somando setores empresariais, agroindustriais…

Um governo do MAS precisaria do sustento de outros setores além do campesino? Sim, neste momento o movimento campesino, dos povos nativos, é o mais importante. Antes era o movimento minerador, mas um governo do MAS abarcaria outros setores, claro.

Vocês estão propondo uma convocatória para a redação de uma nova Constituição? Queremos refundar a Bolívia mediante uma Assembléia Constituinte. Refundar a Bolívia para unir o país. Refundar a Bolívia para eliminar a discriminação, a exploração, a marginalidade, a alienação. Refundar a Bolívia para vivermos unidos na diversidade. Somos diversos, mas formamos um mesmo país.

Você disse que teriam uns 30% dos votos, mas um apoio de 50%, no país, porque isso? Muita gente não poderá votar nas eleições? O grande problema que temos é o da documentação e identificação. Lembro-me de um caso familiar: na carteira de identidade do meu pai havia a data de seu nascimento. Eu estava me preparando para comemorar o seu aniversário. Porém, ele não sabia se essa era a data do seu aniversário. Eu não entendia. Ele dizia que, assim como os meus avós, não sabia em que dia havia nascido. “Inventei essa data para obter a carteira de identidade” – explicou. Há famílias que não sabem a data de seu nascimento, não possuem certidão de nascimento e, por isso, quando chegam as eleições não podem votar. Na campanha há companheiros que dizem: “Companheiro Evo, eu só sirvo para levantar a mão, mas para votar não”. Imagine. Para os partidos da direita não interessa documentar, porque se documentarem os pobres, isso será um voto contra eles mesmos. Nós queremos documentar, mas não temos como.

Outros movimentos populares, como o da revolução de 52, fizeram campanhas de documentação, não?Minimamente nas cidades e em algumas províncias, mas não para todos. Claro, até 52, não havia voto universal. O voto universal tem custado sangue. Antes da revolução de 52 diziam que, como os camponeses não pagam impostos e não sabem ler, não podiam votar. Havia milhares de imposições e entraves. Consideravam a nós, campesinos da Nación Aymara, quase como animais e selvagens e, por isso, não poderíamos ter direito ao voto. Nos tem custado sangue conseguir o voto. Assim como o referendo vinculante também está custando sangue. Agora não só temos o direito de decidir quem é o presidente como também temos o direito de decidir sobre o destino do país mediante o plebiscito.

Quais são os pontos mais importantes da nova Constituição que lhes interessa defender? Primeiro, no regime econômico, acabar com o Estado concessionário, o Estado privatizador. No plano social, defendemos a eqüidade e a igualdade no tema educação, moradia, saúde e trabalho. E quanto à estrutura política, reformulá-la completamente, para que o ser autoridade não seja servir-se do povo mas um serviço para o povo. E, fundamentalmente, buscar, além de certo equilíbrio, potencializar os novos movimentos sociais a partir da nova Constituição e o debate sobre a demarcação. Existe a região quéchua, região aymara: é preciso respeitar a nova demarcação política territorial da Bolívia. Além disso, vamos defender os que residentes bolivianos em outros países, como Argentina, Estados Unidos e Europa, tenham o direito de votar nas embaixadas durante as nossas eleições. Nós sempre defendemos isso, porém não foi aceito até agora, porque essa gente foi embora da Bolívia para a Argentina, Espanha e Estados Unidos em busca de empregos, justamente pelas más políticas econômicas implementadas em nosso país. Por isso, esses partidos de direita, MNR, MIR e ADN, sabem que, se for permitido a eles votar, serão votos contra eles. Esse será um dos nossos temas centrais na Assembléia Constituinte.

O MAS buscará alianças com outros partidos no caminho às eleições presidenciais? Não nos interessa a aliança com outros partidos, buscamos a aliança com os movimentos sociais da educação, das fábricas, dos estudantes, dos camponeses, dos mineiros, dos jornalistas e dos sindicatos de trabalhadores.

Tradução: Bárbara Ablas e Tiago Soares



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