Caveirão – a viatura do terror

Um veículo blindado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, com aparência de um tanque de guerra, causa pânico entre os moradores das comunidades pobres

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Um veículo blindado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, com aparência de um tanque de guerra, causa pânico entre os moradores das comunidades pobres

Por Karine Muller

O caveirão é uma espécie de tanque montado a partir de um carro-forte, com buracos para os canos dos fuzis. A viatura invade os lugares atirando, durante o dia ou à noite, por ruas onde muitas vezes há crianças brincando. O carro ganhou esse apelido por um detalhe sórdido: um desenho de caveira que traz em sua lataria, o símbolo da morte. Em um dos programas da série “Crianças”, veiculado em recente edição do programa Fantástico, da Rede Globo, a atriz Regina Casé percebeu que a garotada das comunidades populares do Rio de Janeiro não têm medo de bicho-papão. O que primeiro as assusta é o caveirão. Depois dos policiais e dos traficantes. Isso não é fenômeno restrito aos pequenos. A grande maioria dos moradores das favelas cariocas tem pavor das invasões do veículo blindado do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE) do RJ.

Na última vez em que o blindado entrou em sua comunidade, no Complexo da Maré, um dos espaços mais visados pelo BOPE, o fotógrafo Ubirajara de Carvalho se escondeu em um canto de parede e, tomando cuidado para não ser visto, assistiu o ataque. Em uma cadeira de rodas, assim que avistou a viatura, não ousou a opção de buscar outro esconderijo. “Quando a viatura entra, começa uma correria, um desespero geral e muita gente acaba se machucando”, conta. Depois de ouvir tiros, viu um conhecido baleado. “Eles (a polícia) alegam que só agem em caso de confronto com os traficantes. Mas toda vez que o caveirão entra aqui há alunos saindo de escolas, pessoas deixando igrejas… eu mesmo havia acabado de sair de um curso que faço à noite”, descreve. Para o fotógrafo, a atuação do blindado reflete a banalização do terror. “As pessoas vivem com medo. Não dá para confiar em uma instituição que tem como símbolo a caveira do perigo e da morte”, sintetiza. “Sempre chegam atirando. A brutalidade é rotineira.”

Ainda na Maré, um outro morador que não quis ser identificado faz questão de relatar as mensagens de terror que ecoam do alto-falante do blindado. Segundo ele, são frases como “vim buscar sua alma…”, “se não sair da frente, passo por cima…”, “sai da frente que a bala vai comer”, entre outras. Conta que muitas vezes a mensagem pede para que os trabalhadores não corram, senão eles matam. Diante dessas circunstâncias, obviamente ele e outros moradores não confiam nos policiais.

Estratégia de guerra


Enquanto isso, em um bairro da zona sul da cidade, soldados do BOPE são treinados diariamente para agir no combate à criminalidade. O comandante do Batalhão, Fernando Príncipe Martins, informa que, desde 1918, a PM do Rio de Janeiro utiliza carros blindados em suas ações. Ele recusa-se a chamar a viatura de caveirão. Segundo ele, um termo “chulo”, resultado da especulação feita em torno do emblema da instituição, uma caveira com uma faca atravessada. O comandante afirma que foi a partir de 2000 que se verificou a necessidade de um veículo que quebrasse a resistência armada por parte de traficantes. As incursões nas favelas, de acordo com ele, são sempre feitas com tropas a pé acompanhando o blindado, para identificar se há necessidade do blindado entrar em ação. “Se somos recebidos por disparos de tiros, avaliamos a partir da nossa experiência, a necessidade de se utilizar o veículo”, afirma.

Não é o que os moradores dizem. A maioria nunca viu os soldados do BOPE a pé. “Não posso generalizar, mas há muito que não vejo o batalhão entrar a pé aqui”, acrescenta Ubirajara. Quando indagado sobre as frases que ecoam dos alto-falantes do caveirão, Fernando Príncipe nega que seja uma prática institucional. “Comentar isso é desnecessário. Mas, mesmo existindo as mensagens, me parece que isso é pertinente àquela situação”, pontua. O comandante não tem dados de redução da criminalidade desde que o caveirão passou a atuar nas comunidades. O único dado que tem comprovado é em relação à segurança do policial que, segundo ele, aumentou consideravelmente.

No mesmo Fantástico que revelou o pânico das crianças em relação ao blindado, em setembro um outro programa apresentou reportagem mostrando a “invasão” de uma favela de dentro do caveirão, a partir do ponto de vista da segurança dos policiais, como prefere o comandante do BOPE. As cenas eram de guerra. Do lado de fora, correria, barulho. Tudo indicava que a polícia estava cercada por inimigos e precisava disparar para proteger-se. Os moradores das favelas se revoltaram com o que viram e denunciaram a matéria como mentirosa, ampliando a discussão das ações do blindado, para além da violência física.

Ao entrar nas comunidades, o caveirão também promove uma agressão simbólica e psicológica pelo tamanho, altura, blindagem e som alto. Acrescente-se a isso o uso de armas de guerra, como os fuzis calibre 223 e 762 utilizados pelo BOPE. Aliás, foram estilhaços de uma bala oriunda de um fuzil 762 que atingiram o técnico em contabilidade Mário José Machado de Lima. Na noite de quinta-feira, 8 de setembro, Mário se despedia de amigos em um restaurante na comunidade de Nova Holanda, onde vive, quando viu o farol alto característico do blindado entrando na rua. Em seguida, veio uma rajada de tiros e um deles atingiu o contabilista. “O que me salvou foi que virei de lado assim que percebi que era o caveirão. Se estivesse de frente, a bala teria atingido o peito”, relembra. “A dona do restaurante fechou as portas do estabelecimento e tive de permanecer lá dentro, ferido, até que tudo terminasse”, relata. Apesar da violência que sofreu, Mário afirma que não adianta tomar nenhuma atitude em relação à polícia. “Nós que somos de ‘baixa-renda’ não temos como nos defender e esse carro é apropriado para a guerra. Deveria ser usado somente em emergências, quando, por exemplo, acontece um tiroteio entre facções rivais”, sugere. “Mas, ele entra de dia com crianças saindo de escolas e, quando passa, as ruas ficam desertas, devido ao medo que provoca nas pessoas”, completa.

O cientista social e antropólogo Luiz Eduardo Soares analisa o caveirão como algo muito além de um veículo blindado. “Não é uma viatura policial, nem um método de ação, não corresponde a uma técnica de policiamento ou a uma tática operacional. O caveirão é um sintoma”, analisa. Autor dos livros Cabeça de Porco, que retrata o cotidiano dos jovens envolvidos com o narcotráfico, e Meu Casaco de General, escrito enquanto era coordenador de segurança pública do Rio de Janeiro, Soares define o blindado como uma expressão dramática e obscena da polícia no seu relacionamento com os mais pobres, especificamente com os negros. “É a imagem mais nítida e a auto-imagem mais despudorada da desumanização com que são tratados civis pobres e negros e, paradoxalmente, com que também são tratados os próprios policiais”, reflete. De acordo com ele, a voz metálica que ecoa do alto-falante assusta, agride, humilha e ameaça, gerando medo e disseminando o ódio. “É o prenúncio da guerra anônima e sem limites.”

Para reverter essa situação, o antropólogo sugere uma reforma profunda nas polícias: “Além disso, seria indispensável que o Estado atuasse no front preventivo, dispondo-se a investir em políticas sociais que não fossem apenas paliativas ou demagógicas e populistas”, conclui.

No último dia 20 de outubro, mães de crianças matriculadas em uma escola municipal localizada em uma das comunidades do Complexo do Alemão protestaram contra as incursões feitas durante o dia pelo blindado, que obriga as crianças a se esconderem embaixo das mesas para fugir das balas perdidas. A manifestação ocorreu na presença da governadora do estado, Rosinha Garotinho, que foi vaiada ao defender a ação da PM ao defender o caveirão.



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