Ciência: inovação e risco

Em entrevista à Fórum, o sociólogo alemão Ulrich Beck analisa as inúmeras contradições da sociedade contemporânea, ressalta os riscos de uma ciência cada vez mais avançada e propõe que se pense em novas instituições...

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Em entrevista à Fórum, o sociólogo alemão Ulrich Beck analisa as inúmeras contradições da sociedade contemporânea, ressalta os riscos de uma ciência cada vez mais avançada e propõe que se pense em novas instituições capazes de conceber soluções globais

Por Maurício Ayer

 

Em entrevista à Fórum, o sociólogo alemão Ulrich Beck analisa as inúmeras contradições da sociedade contemporânea, ressalta os riscos de uma ciência cada vez mais avançada e propõe que se pense em novas instituições capazes de conceber soluções globais

Fórum – Diante da discussão sobre as mudanças climáticas, podemos dizer que o avanço científico é hoje uma grande ameaça global?
Ulrich Beck –
Um dos meus argumentos fundamentais é de que, na segunda modernidade, ou na sociedade de risco global, a ciência tem um papel ambivalente. Por um lado, ainda é, sem dúvida, uma fonte de soluções, mas, por outro, é também fonte de problemas. E esses problemas não são o produto de uma crise da ciência e da modernidade, mas, sim, um produto de suas vitórias. É pelo fato de a ciência ser tão bem sucedida em tantos campos que ela produz estes problemas. Um dos principais exemplos é a bomba e a energia atômicas, que são uma grande vitória da ciência moderna – da Física, para ser mais exato – e, ao mesmo tempo, produzem problemas incontroláveis ou de muito difícil controle.
Mas há outros exemplos. Se você atentar para a questão das mudanças climáticas, segundo o que sabemos até agora, tratase do produto de uma industrialização bem sucedida. Mais e mais indústrias, mais desenvolvimento econômico, mais carros, mais motores específicos que utilizam energias específicas produzem o dióxido de carbono que afeta o clima. Então estamos na mesma situação. Por um lado, é o produto da vitória da industrialização que resulta em problemas, que em primeiro lugar, não haviam sido percebidos, ou que por muito tempo não foram notados e que são conseqüências indesejáveis que ameaçam os fundamentos básicos da nossa vida moderna. E há ainda um terceiro ponto: quanto melhor a ciência se torna, mais cresce o nosso conhecimento quanto àquilo que a ciência não conhece. Então se tem um novo aumento do não-conhecimento, especialmente em relação a todo tipo de riscos.
Descobrimos que nós, de fato, não conhecemos toda a complexidade de causas e efeitos. De repente descobrimos que há conseqüências que ninguém realmente conhecia, e com as quais ninguém sabia lidar. Novamente, e é o que me parece tão interessante e importante, isso não resulta de uma ciência fracassada, mas é a melhor ciência que produz estes tipos de descoberta e de conseqüências.
O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática é, em alguma medida, um bom exemplo disto. Por um lado, quando se fala em riscos, sempre se obtêm muitos julgamentos contraditórios.
As descobertas dos cientistas se contradizem, e eles mudam de idéia de maneira tão fundamental que o que era tido como seguro de se ingerir dois anos atrás, hoje pode representar um risco de câncer, por exemplo. E o mesmo tem sido verdadeiro em relação às mudanças climáticas nestes últimos, digamos, 20 anos. Há uma enorme controvérsia sobre a realidade das mudanças climáticas, as ameaças produzidas pelo homem têm conseqüência para todos os tipos de atores etc.

Fórum – Se esses riscos são produzidos pela melhor ciência e esta é hoje um elemento ligado ao poder, como mudar essa realidade sem tocar na estrutura do poder global? É possível mudar a partir de soluções que têm sido propostas como o chamado “mercado verde”?
Beck –
Primeiro, acredito que a ciência não pode mais ser a base principal das nossas decisões políticas em relação a todos esses temas. É uma única fonte de informação e a política não pode continuar se baseando apenas nela. Então este é, novamente, um ponto ambivalente e interessante. E eu penso que isto seja verdadeiro em relação à discussão sobre mudanças climáticas.
Se observarmos por que, de repente, todas aquelas questões sobre mudanças climáticas, pelo menos na Europa, passam a figurar como prioridade na agenda política por toda parte, de diferentes partidos, em diversos países – não sei como é isto na América do Sul, mas aqui este é o caso –, isso está relacionado a duas situações diferentes.
Uma é que o capital transnacional está sendo persuadido por movimentos sociais, por movimentos ambientalistas de que as mudanças no meio ambiente são um dos principais temas do futuro. Eles pegam esta idéia e dizem que se esta é a realidade, então é necessário mudar os produtos e o mercado. E é preciso mercados transnacionais capazes de organizar novos mercados seguros, um Estado, ou um sistema internacional de Estados, que produza regras governamentais restritivas para mercados ecológicos organizados.

Fórum – Então, precisamos de novas instituições globais e nacionais? Como elas deveriam ser?
Beck –
Deixe-me tocar num ponto intermediário. Acredito que uma questão importante em relação às mudanças climáticas – ou pelo menos a opinião pública na Europa – é o relatório Stern. O argumento deste relatório é de que as mudanças climáticas representam o maior fracasso do mercado que podemos ter em vista. Acho que isto é muito importante. O relatório até compara com as duas Guerras Mundiais e a grande Depressão [de 1929] e diz que é um fracasso do mercado ainda maior. Então, de fato, a mensagem principal é de que não há soluções de mercado para as mudanças climáticas, elas não trazem uma solução real para o problema. São talvez parte da questão, mas não solucionam, de fato, o problema. Precisamos de novos acordos governamentais, ou transnacionais, ou trans-estatais, para solucionar estes problemas. E agora chego à sua pergunta, acho que, efetivamente, precisamos de novos tipos de instituições. Se falamos em mudanças climáticas ancestrais, as soluções nacionais já não mais funcionam.
E é claro que as soluções técnicas não funcionam mais porque soluções nacionais não funcionam mais. Se você pensar em um dos cenários discutidos aqui na Europa, por exemplo, em que Londres, Tóquio e Nova Iorque e outras grandes cidades estão ameaçadas pelo aumento do nível do mar em, digamos, dez ou vinte anos, não há uma resposta britânica para uma potencial catástrofe em Londres, não há resposta estadunidense para uma potencial catástrofe em Nova Iorque e assim por diante. Então, se soluções técnicas não funcionam, e soluções nacionais não funcionam, o que precisamos é de uma perspectiva global, e diria até de uma perspectiva cosmopolita. Porque precisamos levar em conta em nossa perspectiva a desigualdade global e o problema de justiça global, que são parte das mudanças climáticas.
Como todos nós sabemos, os países que serão em sua maior parte e mais gravemente afetados são os que estão na periferia e que até agora não contribuem muito para o problema. E as potências ocidentais, que são quem mais contribui para o problema, não são as mais afetadas. Mas, ao mesmo tempo, realmente precisamos de soluções globais, então há uma nova agenda sobre desigualdade global e justiça global chegando ao centro da política. Nós sequer temos instituições para lidar com estes problemas. Fórum – Então isso não representa um fortalecimento das Nações Unidas, por exemplo, precisamos de outras instituições? Beck – Existe a estrutura de referência das Nações Unidas que poderia talvez ser usada para estes propósitos. No entanto, o que precisamos são organizações que são sejam somente organizadas em um alto nível tecnológico, mas que encontre fórmulas e formas de participação de países, povos, pessoas e culturas realmente muito diferentes. E é preciso descobrir como negociar estes problemas num mundo em que os riscos não são de conhecimento comum de todos.

Fórum – O Fórum Social Mundial poderia representar que papel nesse processo?
Beck –
Poderia ser realmente muito importante. O Fórum Social Mundial é uma maneira de participar, de organizar a participação – com todas as suas contradições – de todos os diferentes grupos e agrupamentos e perspectivas culturais. Então é, de fato, um campo de experimentação para essas visões cosmopolitas e suas contradições e a possibilidade de superar estas contradições. Acho que poderia efetivamente ter um grande impacto em duas direções, como exemplo de um modo cosmopolita de participação e organização e como um fórum para produzir todo tipo de idéias e respostas.

Fórum – O senhor fala sobre uma “brasilianização do Ocidente”, o que seria
isto exatamente?
Beck –
Até agora nós fizemos uma clara e incisiva distinção entre o centro e a periferia, ou o Ocidente e o restante, e esta distinção está ruindo.
Encontramos novas misturas do Ocidente e do restante em todos os tipos de lugar no mundo. Por muito tempo, a modernidade ocidental foi a meta do assim chamado mundo em desenvolvimento, como o Brasil e outros países. Mas já não é mais assim. Na realidade, se o Ocidente quiser saber mais sobre seu futuro, pode olhar para o Brasil em muitos campos. Aqui você encontra centros altamente desenvolvidos em tecnologia e interdependência econômica e, ao mesmo tempo, formas de trabalho bastante frágeis, múltiplas formas de engajamento no mercado de trabalho e todo tipo de iniciativas, trabalho informal etc., toda uma mistura do mundo pobre na sociedade de trabalho. E tudo isto vem crescendo aparecendo no centro de países ocidentais também. Então, de fato, é a cara do Brasil, em seu sistema ambivalente, que podemos ver aqui em Berlim ou em Londres, ou em Nova Iorque ou em Paris.

Fórum – Com este cenário que temos hoje, é possível dizer qual é o caminho a seguir que nos faria ver um mundo não tão catastrófico? O que é possível prever numa sociedade de risco?
Beck –
Em primeiro lugar, tenho que apontar a principal idéia sobre risco.
Risco não é catástrofe, é a antecipação dela. É o que encontramos em relação às mudanças climáticas, algo altamente ambivalente, mas que tem uma força histórica e política muito interessante. Por um lado, não é catástrofe e nós nem sabemos se será ou não uma catástrofe. Diz respeito ao futuro, algo que nós admitimos saber e sobre o qual temos de falar como se soubéssemos, mas que realmente não sabemos, porque ainda não aconteceu. E, por outro lado, é uma força mobilizadora. É impressionante o quão importante esta força pode se tornar. E isto também é uma metáfora, como podemos encontrar na discussão sobre as mudanças climáticas. Vinte anos atrás, este era um problema alemão. Todo mundo ria dos alemães que acreditavam em uma crise ecológica, mas agora isto é percebido como um problema global. Os alemães estão impressionados com o debate em torno das mudanças climáticas na Europa e na América. Essa é uma força política que produz novos tipos de identidade. Uma identidade européia, talvez uma ocidental, talvez cosmopolita, e é claro com forças contrárias também. É uma situação muito interessante, mas muito perigosa também.



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