Com o devido respeito, as putas têm vergonha das santas donzelas

LadoB Por Renato Rovai Nem os jornalistões que gozam de total liberdade de empresa para dar lições de moral a quem interessar possa, nem as santificadas donzelas da tradicional família...

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LadoB

Por Renato Rovai

Nem os jornalistões que gozam de total liberdade de empresa para dar lições de moral a quem interessar possa, nem as santificadas donzelas da tradicional família política-econômica brazilianistana, nem o governo e os partidos que representam a esquerda nacional, abordam de forma clara como, por exemplo, agências de publicidade conquistam suas contas públicas e como o baronato dos veiculões da santíssima imprensa age para reservar o seu mercado.

O que vou dizer não é novidade nem para o oficce-boy da suposta mala e talvez nem para uma secretária que tenha trabalhado apenas nove meses no dito mercado.

Com a palavra, o excelentíssimo senador Jorge Bornhausen, presidente da legenda pefelê. Escreveu ele: “Nunca fiz nenhum pedido ao ministro de Esportes e à diretoria da Embratur, em favor da citada agência que, por ter sido vencedora de licitação pública, mantém a conta de publicidade daquela autarquia. A empresa realiza, legalmente, o trabalho na ‘Feira de Hannover’, por ordem da Embratur, com base em pareceria de sua Procuradoria Geral”.

O senador contestava em trecho de uma carta publicada na seção dos leitores em reportagem da edição 1600 da revista IstoÉ, na qual sua filha, Fernanda Bornhausen, uma das sócias da Agência Artplan Prime, era apontada como beneficiada por um contrato de 13,7 milhões de reais. Naquela história havia também um envolvimento do filho de FHC, Pedro Henrique Cardoso. Mas não é disso que se trata.

Como se ganha uma conta

Ganha uma conta publicitária governamental a agência que está melhor “posicionada”. Aquela que tem contatos com o cliente, que tem boas relações com o gestor. Não é à toa, colega leitor, que em geral ganha a conta da prefeitura, governo ou de ministérios e estatais a agência ou as agências que fizeram a campanha do candidato. No mercado, diz-se, sem rubor, que a conta se ganha na campanha. Ou seja, quem trabalhar com um candidato, em geral, opera depois com o governante, entenderam? Isso, em geral, eu disse, em geral.

Como isso acontece? Existe uma baita ilegalidade então nas concorrências? Claro que não, colega leitor, é tudo na mais perfeita ordem, como registrou o presidente do pefelê nos tempos de FHC.

As comissões de licitações que escolhem as agências, em geral, eu disse, em geral, são escolhidas a dedo. Não são pessoas desonestas, colega leitor, esqueça isso. Não são vilões dos cofres públicos nem se locupletam. Em geral, eu disse, em geral, são profissionais do mercado e sabem como ele funciona. Essa comissão prepara um edital, com um briefing para uma campanha que será “decisiva” para os concorrentes. No edital, especifica-se a documentação, a estrutura, o capital mínimo exigido etc. e tal. O não cumprimento dessas exigências desqualifica as agências para a próxima etapa da competição. Em geral, agências grandes sempre se qualificam e passam para a segunda fase, em que são avaliadas as propostas técnicas. Aí há uma série de critérios para definir qual foi a melhor proposta, todos muito subjetivos. Agência grande, colega leitor, não faz proposta bandalheira, sem sentido. Sendo assim, em geral, eu disse, em geral, as propostas se equivalem. E é aí que entra a história de estar “melhor posicionado”. Nesse concílio, dificilmente quem entra papa sai bispo. A melhor posicionada dificilmente sai em segundo lugar, entenderam?

O que é estar bem posicionada? Bem, talvez o senhor Marcos Valério, talvez a filha do senador e talvez o boy e a secretária que atuam no mercado saibam melhor explicar.

Bem, depois disso vem o terceiro envelope, o dos preços. Há diferentes formas, mas, em geral, eu disse, em geral, vale o seguinte: para quem venceu na proposta técnica ganhar a conta, basta chegar no preço mínimo proposto por qualquer que seja a outra agência. Chegou, levou. E todos chegam, porque já no edital, colega leitor, se coloca um preço mínimo que nenhuma agência pode ultrapassar.

Isso é o mercado das licitações, mas tem um outro ainda muito pior, o que garante inserções publicitárias sempre para os mesmos grupos midiáticos. As regras desse mercado passam por empresas que aceitam renovar suas frotas de automóveis em troca de dar um prêmio para uma montadora como a melhor do ano em uma de suas revistas, por exemplo. Ou de receber 1 milhão, por exemplo, eu disse, por exemplo, antecipado em publicidade para garantir uma capa positiva para aquele cliente que tem a conta de uma loira gelada. São rádios, jornais, revistas, TVs etc. São as mesmas empresas que gritam e esperneiam em nome da moral e dos bons costumes.

São essas mesmas empresas que trabalham com a tal de BV (Bonificação por Volume), na qual as agências são “desafiadas” a atingir metas de inserções para os seus veículos. Quanto mais grana enfiarem em rádios, jornais, revistas e TV, mais BV ganham. O tal BV pode ser em grana, em páginas ou em minutos de TV. Isso tudo faz parte do negócio. É do mercado. Mas você, colega leitor, acha que isso só tem a ver com mercado das agências? É aí que mora o bicho. No mercado, colega leitor, no sacrossanto mercado, em que só existem santas-donzelas, as putas ficam envergonhadas.



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