De um mundo disperso a um mundo auto-organizado

Fórum Social Mundial em processo Por Moacir Gadotti   Todos estamos de acordo quanto ao nosso maior desafio hoje: propor alternativas concretas para viabilizar nossos sonhos. Contudo,...

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Fórum Social Mundial em processo

Por Moacir Gadotti

 

Todos estamos de acordo quanto ao nosso maior desafio hoje: propor alternativas concretas para viabilizar nossos sonhos.
Contudo, com isso não estamos acusando o FSM de ser um puro falatório, um caos em que predomina a dispersão e o folclore. Em si, ele próprio é um grande êxito na medida em que mexeu com o imaginário social de muitas pessoas. A luta hoje se joga no campo simbólico e neste campo o FSM já ganhou muitas batalhas. O próprio Fórum Econômico de Davos teve que incluir na sua pauta algumas questões sociais tratadas pelo FSM.
Mas sua maior conquista foi despertar nas pessoas a crença de que é possível, urgente e necessário mudar o mundo. As vozes de Porto Alegre chegaram a Davos, mesmo que não consideremos o FSM como um anti-Davos. Não é possível ignorá-lo quando se trata das questões planetárias. As grandes esferas do poder neoliberal só se interessarão pelos graves problemas causados pelo seu modelo econômico por meio de pressão social.
Por outro lado, não podemos entender o avanço dos governos de esquerda da América Latina sem levar em conta o clima de mudança criado pelo Fórum e pela sociedade civil. As transformações da região não dependem só dos governos. A sociedade civil tem sido protagonista, cobrando direitos, questionando governos e partidos, conscientizando e organizando a população.
Por tudo isso, na discussão de um novo formato do FSM, todo cuidado é pouco. O tema deverá ser discutido por um longo período. Institucionalizar o Fórum para torná-lo mais “eficaz” acabaria por fortalecer certos grupos de ONGs e movimentos sociais hoje mais inseridos no seu processo, impedindo a renovação, a pluralidade e a diversidade. Mas será necessária alguma forma de facilitação ou de interligação ou de conectividade concreta que um grupo de trabalho ou comissão do Conselho Internacional leve à frente de forma mais permanente. Uma proposta nesse sentido foi apresentada e recusada na reunião do CI em Nairóbi e o problema continua de pé: quem fará a conectividade, inclusive entre os Fóruns de janeiro de 2008?
Outra questão importante para tornar o FSM mais plural e que se refere à sua expansão é a do seu financiamento. A rea¬lização de um Fórum custa muito caro e seu formato atual privilegia as ONGs e movimentos sociais mais estruturados que conseguem re¬cur¬sos para viagens. Daí a presença, em todos os Fóruns, de maioria com curso superior. A participação popular é ainda muito pequena. Os mais pobres não conseguem sequer pagar a taxa de inscrição. Precisamos tornar visíveis os que foram empobrecidos e invisibilizados.
Ao lado da idéia do autofinanciamento está sendo rediscutida a relação com governos democráticos. Direta ou indiretamente eles apoiaram sempre os Fóruns por meio do financiamento de ONGs e movimentos que participam de suas atividades. O Fórum de Caracas foi praticamente realizado com o apoio do governo venezuelano. O autofinanciamento de¬ri¬vado da cobrança de taxas, vimos em Nairóbi, impossibilita a participação dos mais pobres. Cândido Grzybowski, diretor do Ibase, membro do Conselho Internacional, defende uma campanha de doação de um dia de trabalho anual pela autonomia do FSM. Os recursos dessa doação seriam depositados num fundo de financiamento dos mais pobres. Mas não há consenso em relação a essa proposta. Salete Valesan Camba, do Instituto Paulo Freire, também membro do Conselho Internacional, sustenta que, na prática, o Fórum já é autofinanciado pelo trabalho de todos e de todas que nela participam e que o “dinheiro que circula no mundo e é controlado pelo capital internacional é, de fato, do povo”. O que o Fórum pode fazer, se puder, é colocar esse dinheiro do povo a serviço do povo. Como? O FSM precisa pronunciar-se sobre isso.
Finalmente, uma das grandes conquistas do FSM está sendo a sua capacidade de tornar um mundo disperso e invisível num mundo auto-organizado em rede. O princípio do Fórum é colocar em contato forças dispersas com base numa nova cultura política, para empoderar causas sociais globais.
O seu método é o estímulo à auto-aglutinação para a busca de alternativas ao neoliberalismo. Para isso é preciso traduzir claramente nossos valores éticos, nossa declaração política, em objetivos políticos concretos. E aqui não conseguimos avançar muito. Falta um sistema de intercomunicação para saber imediatamente, em qualquer parte do mundo, o que cada um faz, como cada um pode participar, para ir construindo esse outro mundo possível desde já.
No próximo número comentaremos a realização do primeiro Fórum Social dos Estados Unidos. F

agenda
Fórum Social do Mercosul – 5 a 7 de julho de 2007 – Curitiba (PR). Chamada geral pela integração latino-americana. Site: www.forumsocialdomercosul.org.
Fórum Social Quebec – 23 a 26 de agosto de 2007 – Quebec, Canadá. Site: www.forumsocialquebec.org/2007
Fórum Mundial de Educação Temático – 13 a 16 de setembro de 2007 – Alto Tietê, São Paulo. Site: www.forummundialeducacao.org. As inscrições já estão abertas.
Leia mais: www.forumsocialmundial.org.br



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