Direito de saber

Em oficina promovida pela revista Fórum durante o 5º FSM, a busca de formas de democratizar a comunicação e combater a concentração dos meios foi o tema principal Por Nicolau Soares  ...

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Em oficina promovida pela revista Fórum durante o 5º FSM, a busca de formas de democratizar a comunicação e combater a concentração dos meios foi o tema principal

Por Nicolau Soares

 

“No Brasil, nove famílias controlam os meios de comunicação. A liberdade de expressão é um deles, não de todo o povo”. A afirmação do jornalista Antonio Biondi, do coletivo Intervozes, situa bem onde se encontra a resistência a qualquer tentativa de se democratizar a comunicação no Brasil. Com essa excessiva concentração, os chamados supermeios se tornam uma barreira entre a população e a informação. Levando ao extremo a máxima segundo a qual “a voz de um jornal é a voz de seu dono”, esses veículos divulgam notícias distorcidas e escondem da sociedade fatos importantes, ferindo o direito à informação.

Com base nesse cenário, a revista Fórum promoveu a conferência Midiático Poder no 5º FSM. O evento reuniu jornalistas de vários países para relatar e discutir a situação dos meios de comunicação em diversos lugares e buscar formas de se contrapor a esses conglomerados. “A questão não é saber se queremos pagar por informação, mas sim exigir que o Estado nos dê recursos para que a gente possa se comunicar”, afirma Renato Rovai, editor da revista.

Um dos importantes depoimentos foi da uruguaia Lucia Naser. Seu país viveu recentemente uma mudança importantíssima em seu quadro político: a vitória do candidato de esquerda Tabaré Vázquez nas eleições presidenciais, pondo fim a décadas de domínio dos dois partidos tradicionais que se revezavam no poder. Além disso, o país foi o primeiro a realizar um plebiscito sobre a privatização da água, no qual sua mercantilização foi rejeitada por mais de 60% dos eleitores.

Essas boas notícias, no entanto, não ocorreram com a ajuda dos grandes meios de comunicação. “Na mídia, foi como se o plebiscito não tivesse acontecido”, denuncia Naser. “Eles falaram apenas das eleições presidenciais e não informavam à população sobre a outra votação. A campanha pela não-privatização foi feita toda no boca-a-boca”, conta. Segundo ela, os veículos de comunicação uruguaios são em sua maioria controlados por grandes corporações.

O país conta com alguns meios alternativos, como rádios comunitárias e a TV Ciudad, de Montevidéu, que veicula documentários de estudantes e segue uma linha independente. “O problema é que ela não tem orçamento para produzir o seu material, o que limita muito seu alcance”, lamenta Naser. Ela espera que, com a vitória da esquerda, haja mais espaço para construir uma comunicação mais livre.

A liberdade de informação é algo ainda mais problemático na Jamaica. A jornalista nativa Nashauna Drummond conta que os meios de comunicação em seu país alinham-se automaticamente com o grupo político que está no poder. “Não há espaços para críticas ao governo, seja ele que governo for”, protesta. “E se um jornalista escreve algo contra essa orientação é demitido”, denuncia.

Essa limitação ao trabalho do jornalista levou ao surgimento de meios alternativos, principalmente páginas de Internet. Neles, os jornalistas que não concordam com a situação divulgam notícias relevantes escondidas pela grande mídia. “Mas eles têm de assinar com um pseudônimo, para não perderem os seus empregos”, diz Drummond. As possibilidades, em tese amplas devido ao baixo custo para a publicação na rede, encontram uma séria limitação. “Muita gente em meu país não tem acesso à Internet, o que faz com que a notícia chegue a poucas pessoas”, reconhece.

Venezuela 
Mas o caso mais dramático em que o poder midiático se manifestou com plena força ocorreu na Venezuela. Se golpes apoiados por parte da imprensa não são novidade na América Latina, o ataque sofrido pelo presidente Hugo Chávez tem um diferencial: lá, a mídia não apoiou somente o golpe, como foi a sua principal promotora.

“O acontecido na Venezuela é um marco do ciclo do midiático poder”, afirma Renato Rovai. Ele rea¬lizou a cobertura do fracasso do golpe à época e conta que os jornais daquele país trataram a queda de Chávez como a “renúncia de um presidente desgastado”. “Mesmo no Brasil, o discurso era o mesmo”, sustenta. “Na Globo, que pela primeira vez dedicou dois terços de um Jornal Nacional a um país da América Latina, Chávez foi comparado a Lula e o comentarista Arnaldo Jabor afirmou que a ‘renúncia’ do presidente era um passo na ‘desbananização’ da região.”

Dentro do país, nos dias que se seguiram ao golpe, os canais não deram nenhuma notícia sobre a situação, até que Pedro Carmona foi empossado como presidente. A população, principalmente os pobres, que são a maioria da base de apoio de Chávez, buscava informações e não conseguia. Um cerco midiático foi construído para desarticular reações dos chavistas.

O furo dessa barreira surgiu na mídia alternativa. “Foi a partir do Aporrea.org, um site feito por jovens venezuelanos, que as notícias começaram a sair”, conta Rovai. “O site Rebellion repercutiu e jornalistas independentes ao redor do mundo começaram a divulgar o que estava acontecendo realmente”, completa.

Fracassada a tentativa de golpe, Chávez retornou ao governo, mas não sem seqüelas. A disputa de poder com a elite do país prosseguiu.

A jornalista venezuelana Gabriela Fuentes conta uma história para exemplificar a ação da mídia comercial no país. “Um comentarista de uma rede de TV disse que estava assistindo televisão e pensou ter visto um macaco falando. Mas depois se deu conta de que não era o Discovery Channel, mas o canal do Estado, e quem estava falando era o ministro da Educação venezuelano, que é negro”, conta. “A situação é tão violenta que os meios ultrapassam a oposição ao governo, voltando-se de forma preconceituosa contra os venezuelanos, já que somos um país mestiço”, indigna-se.

Esse tipo de truculência fez com que a sociedade passasse a exigir outras formas de comunicação, abrindo espaço para os meios alternativos. Um dos resultados dessa mobilização é a nova legislação de comunicação venezuelana, que estabelece três tipos de regulamentos: um para os meios privados, outro para os meios estatais e outro para os meios comunitários. “Toda a discussão foi feita em torno da necessidade da propriedade social dos meios”, afirma. “A conseqüência é que os meios comunitários não só podem existir, como o Estado tem a obrigação de apoiá-los”, explica a jornalista que trabalha em uma emissora de TV em uma favela de Caracas, capital do país. Hoje são cerca de 200 rádios comunitárias legalizadas e cinco emissoras de TV no ar.

Outro projeto interessante vindo da Venezuela é a formação da rede Vive. Com alcance nacional, ela foi organizada e é operada por pessoas vindas dos movimentos comunitários. “Estamos agora cobrindo o FSM e transmitindo por satélite em uma freqüência gratuita, para que qualquer meio possa utilizar a informação da forma que quiser”, exemplifica Fuentes. “O importante para nós é a discussão, não queremos a propriedade nem os direitos”, sustenta.

Segundo ela, esse processo gerou uma mudança de consciência na população do país. “Saímos de um processo de democracia representativa para a participativa”, defende. “A liberdade de expressão não pode ser privilégio de empresários.”

nicolau@revistaforum.com.br



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